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Desabafos

Desabafos

02
Mar20

E então, é isto que queremos?

Paulo Dias

Arredado da escrita há muitos dias, por razões que a razão desconhece e porque desabafar através da escrita não tem que ser uma obrigatoriedade, mas antes, uma vontade que surja de forma espontânea.

Desde o meu último texto, vários têm sido os assuntos que vêm merecendo o meu interesse, porque gostava de os ver discutidos de forma séria, para refletirmos enquanto sociedade e não caminharmos perigosamente para o desconhecido.

Senão vejamos, não seria importante termos uma discussão alargada sobre a autoridade do Estado? Ou estarei eu completamente equivocado, quando vejo vezes demais, essa autoridade ser colocada em causa perante intervenções legitimas das Forças de Segurança? Mas o debate sobre esta problemática grave e que atinge já contornos muito perigosos para a nossa sociedade, não pode estar circunscrito às redes sociais, é importante que os portugueses exijam aos senhores deputados, ao senhor Primeiro Ministro, ao senhor Presidente da República, que sejam tão céleres em pronunciar-se sobre um cada vez mais usual desrespeito pelas Forças de Segurança e em consequência um desrespeito grave da autoridade do Estado, como o fazem quando seguem a linha de um populismo desprezível, que apenas vislumbra um supositício desrespeito pelos direitos das aclamadas e também supostamente ostracizadas minorias, querendo ignorar os deveres que a todos nós cabe cumprir, inclusive e pasme-se, às minorias.

 Um forte exemplo desta preocupação que me assola, é a pronta intervenção do mais alto magistrado da nação, quando perante aquilo que são apenas indícios de uma pretensa situação de racismo num estádio de futebol, vem a público e de uma forma célere condenar indícios, sem factos provados e não se pronuncia sobre aquilo que se verificou no cemitério do Alto de São João em Lisboa, em que é visível, grave e preocupante a forma como dezenas de cidadãos colocaram em causa a autoridade do Estado, ao rodearem dois Agentes da Policia de Segurança Pública, colocando em causa a sua integridade física e desrespeitando ordens legitimas.

E não estou a colocar em causa o abjeto dos possíveis insultos racistas, que terão acontecido num estádio de futebol em Guimarães, ou noutro qualquer local, se efetivamente aconteceram e se identificarem os culpados, que sejam os mesmos presentes às instâncias judiciais. Mas esta questão e depois da indignação geral do poder politico, do escândalo nacional denunciado pela imprensa, fez-me recordar muitas das minhas intervenções enquanto Órgão de Policia Criminal, junto de alguns indivíduos pretos, em que fui brindado com expressões, como “Pula do c******” ou outra mais meiguinha, “Branco de m****”. Serão estas expressões carinhosas ou racismo? Importa esclarecer, porque todos os dias os elementos das Forças de Segurança são apelidados de estas e outras expressões idênticas.

Parece-me importante que nos envolvêssemos enquanto sociedade na discussão deste e de outros problemas estruturantes e que exigíssemos responsabilidades a quem exerce cargos políticos. Mas acho que isso não será possível no imediato, não enquanto as nossas preocupações enquanto sociedade continuarem a girar em torno de temas inócuos, andarmos entretidos com futebóis e alarmismos de coronavírus desmesurados, que nos vão mantendo distraídos dos assuntos efetivamente importantes para uma vida em sociedade.

Este assunto das minorias oprimidas e do racismo, aparece vezes demais para “camuflar” um ato criminoso, ou será apenas impressão minha? Já enjoa este populismo bacoco de gente sem experiência de vida e de outros cujas responsabilidades que lhe foram conferidas, os deveria obrigar a “tento na língua” como se diz na minha terra, alguns que nunca estiveram em bairros complicados, que não fazem ideia dos perigos que o consumo de drogas ilegais muitas vezes adquiridas nesses mesmo bairros (ou alguns saberão bem demais, mas assumem o risco do vicio) acarretam, que nunca falaram com a vitima de um roubo, de uma violação, nunca falaram com alguém que fosse vitima de um crime grave. Mas acham-se os donos da verdade, têm acesso privilegiado aos órgãos de comunicação social e fazem uma campanha de desinformação que trás benefícios para as duas partes, uns mentem com interesses bem definidos, os outros promovem a mentira porque procuram selvaticamente, audiências, manchetes. Investigar e preocupar-se em revelar a verdade, trabalho associado ao jornalista, dá trabalho e pode não trazer as audiências e a tal manchete.

Eu tenho mais de vinte anos de experiência profissional e posso garantir-vos que já trabalhei nos locais mais complicados, já lidei com criminosos brancos, pretos, ciganos, cristãos, muçulmanos, etc. e nunca prendi pessoas, em razão da sua cor de pele, credo, religião, etc. Afirmo convictamente, que nestes mais de vinte anos de profissão, oficial ou oficiosamente, não conheço ninguém nas Forças de Segurança, no Ministério Público e na Magistratura Judicial, que tivesse prendido alguém atendendo a algum predicado que não fosse outro, que não o de ter praticado algum ato criminoso. Mas como referi, esta pretensa opressão das minorias, o racismo, vêm-se revelando uma onda fácil de cavalgar por jornalistas, políticos e demais aprendizes, a quem devíamos exigir total moderação e isenção nas suas intervenções.

No entanto, hoje os pretensos jornalistas andarão felicíssimos, porque finalmente Portugal tem casos de coronavírus confirmados, os nossos governantes não direi satisfeitos, mas não se importarão certamente que andemos entretidos com as noticias, que em Portugal normalmente têm o condão de desviar as nossas atenções do essencial, vá-se lá saber porquê. Quando não existir coronavírus, ou a noticia estiver gasta, entreter-nos-ão com um final de campeonato de futebol que se afigura “aceso”, depois as férias dos pretensos famosos e dos políticos, com um pouco de sorte, existirá por aí alguém que divulgue algumas imagens gravadas por um telemóvel, de algum suposto caso de violência policial, ou algum ato isolado de racismo, ou pretenso racismo, ou ainda algo que vá contra os interesses de alguma minoria.

É na minha opinião, um caminho muito perigoso estamos a seguir enquanto sociedade, ou a permitirmos que se siga. Será que conseguiremos depois devolver a autoridade ao Estado? Que custos é que essa ação terá? Ou será demasiado tarde? Caso seja tarde, os que agora cavalgam a tal onda do populismo, terão capacidade para enfrentar as consequências? São muitas interrogações, questões que nunca queria que se colocassem, mas como digo, não tenho dúvidas que caminhamos por trilhos muito perigosos, julgo que já não será possível travar a marcha, veremos se temos a capacidade de no final do abismo nos reerguemos enquanto sociedade. Tenho pena, muita pena mesmo, não por mim, mas sim pelos meus príncipes e por todos os seres inocentes que em nada contribuíram para a sociedade que lhe vamos deixar.

Esclarecer apenas dois pontos, suscetíveis de uma interpretação mais enviesada. Gosto de futebol, gosto do Benfica, não consigo, no entanto, conceber, que em Maio vão trezentas ou mais mil pessoas ao Marquês de Pombal, para festejar um titulo de futebol e não consigamos mobilizar mais que umas dezenas ou centenas, quando se trata de questões importantes para o país. Coronavírus, sou insensível ao problema? Não, nada disso. Até porque, infelizmente sou detentor de vários pressupostos que me conduzem aos chamados grupos de risco. Tenho problemas cardiovasculares, insuficiência renal e hipertensão maligna, tendo em conta estas questões saúde, é desaconselhável que tenha uma simples constipação, muito menos o coronavírus ou algo de idêntica índole. Tenho, contudo, bastante dificuldade em aceitar, este clima de alarmismo exponenciado pelos órgãos de comunicação social, mais uma vez, apenas com a intenção de fazer manchetes, ou de obter as maiores audiências. O que nos conduz novamente à questão da desinformação e do “entretenimento” falacioso e perigoso.

 

Coronavírus, Ucrânia. Manifestantes atacam autocarros com cidadãos retirados da China.

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12
Fev20

O interior, está cheio de presunçosos!

Paulo Dias

Em Portugal, as pessoas do interior, teimam em fazer passar a ideia que nascer naquelas terras é à partida sinónimo de infelicidade, mas neste texto vamos desmontar esta farsa e perceber que nascer no interior não é infelicidade alguma, as pessoas que nascem lá é que são presunçosas e querem todas as mordomias e luxos.

 Ora então, quem nasce no interior, começa logo por ter uns pais que pretendem dar mostras da sua ostentação e querem que os meninos ou meninas vão nascer a dezenas ou centenas de quilómetros da sua terra, já para não falar nos casos daqueles que nascem no país vizinho. Não podiam perfeitamente nascer em casa, como os seus antepassados fizeram. Nos primeiros anos os paizinhos teimam em levar as crianças ao pediatra, luxos, pois podiam bem ir ao médico de clínica geral do centro de saúde mais próximo e possivelmente fariam menos quilómetros.

 Continuam a crescer e a sua infância é vivida com poucas ou nenhumas crianças da mesma idade, mas lá estamos nós outra vez perante a questão mais óbvia, quem é que os manda a eles e aos pais, querer nascer e crescer no interior. Chega então a altura de frequentar o pré-escolar e lá vem mais um luxo, todos os dias o menino ou menina são recolhidos por uma viatura da autarquia ou da junta de freguesia, para fazerem umas dezenas de quilómetros e frequentarem a primeira etapa de um longo percurso escolar e este luxo continuará pelo menos durante os doze anos do ensino obrigatório e mais uma vez tudo isto acontece, porque estes vaidosos se lembraram de nascer no interior do país, quem devia ser responsabilizado eram os pais que permitem que isto aconteça, o governo devia responsabilizá-los, ou melhor, devia legislar no sentido de proibir nascimentos no interior, ou antes ainda, doar o interior aos espanhóis e ficar só com a beleza do litoral, pois não há economia que aguente isto.

O pior ainda está para vir, pois  se algum destes presunçosos decide continuar os estudos para além da escolaridade obrigatória e achar que poderá dar-se ao luxo de ir para uma faculdade, o problema não é o de pretenderem frequentar o ensino superior, o problema passa porque teimam em querer estudar nas melhores universidades do país e claro essas estão maioritariamente nos grandes centros urbanos, no litoral como é evidente, pois nenhum governante que exerça o seu cargo com responsabilidade, se lembraria de ir construir universidade em Portalegre, Castelo Branco, Viseu, Bragança, Beja, têm uns politécnicos com cursos sem procura no mercado de trabalho, mas têm ensino superior, só não o frequentam porque não querem. A vaidade deles e dos pais, leva-os a quererem frequentar cursos com saída profissional e claro esses só no litoral como é óbvio. Depois lá vêm meia dúzia de tolos, sim, pouco mais de meia dúzia, pois no interior não vivem muitos mais, só mesmo os vaidosos como já referi, reclamar da desertificação do interior, eles que eduquem e formem os seus filhos no interior que teimam em abandonar.

Chega então a idade adulta e por consequência a aspiração em entrar no mercado de trabalho e aqui a situação piora ainda mais, estes presunçosos do interior, quer os que tiram um curso superior, quer aqueles que ficaram pela escolaridade obrigatória, mesmo adultos e já com responsabilidades cívicas, teimam em ir trabalhar para os grandes, belos e desejados centros urbanos e esses claro ficam no litoral do país, ou então e só para perceberem onde vai a presunção dos mesmos e dos pais que não os souberam educar, vão trabalhar para o estrangeiro, pura ostentação, como é fácil de perceber até para os mais desatentos.

Queixam-se que não há trabalho no interior, mas como é que pode haver, se são eles próprios que decidem abandonar as suas terras, porque estão habituados ao luxo e a ter tudo de mão beijada, por isso não têm iniciativa para serem eles próprios a criarem postos de trabalho. Desculpam-se sempre com o governo, como se houvesse obrigação do Estado em conceder luxos a estes vaidosos. Ou é porque o governo não investe no interior, ou porque não dá incentivos a grandes empresas para se fixarem nesse raio de interior onde não existe coisa alguma. No entanto, tudo isto não passam de desculpas de quem por presunção apenas quer abandonar as suas terras e que por essa razão se tornam os principais culpados pela desertificação que tanto fazem querer passar como se de uma maldição se tratasse, no entanto, eles próprios chegam dão-se ao desplante de abandonarem os mais velhos nesse interior que tanto apregoam amar.

Enfim haja paciência para estes presunçosos, eu por mim, doava o interior aos espanhóis!

06
Fev20

Uma experiência fantástica, que resultou numa aprendizagem também ela fantástica!

Paulo Dias

Como no dia de hoje não existe nenhum assunto do quotidiano que me tenha prendido a atenção, apenas uma caminhada junto a este mar maravilhoso de Santa Cruz, um dia destes vou falar destas paisagens magnificas, mas voltando ao meu quotidiano e como já referi não aconteceu nada que chamasse a minha atenção. Dei a minha leitura habitual pela imprensa nacional, mais do mesmo, fugas do segredo de justiça, que acho abomináveis e sobre as quais não me parece que exista muita vontade de investigar, mas são óptimas para os órgãos de comunicação social, pois proporcionam enormes parangonas e o que interessa é vender. Atendendo a que falar deste assunto me parece inócuo, como não me apetece também falar de coronavírus, da proposta de votação para a redução do IVA da eletricidade, que entretanto foi retirada, de futebol e mais futebol, que às vezes nos faz acreditar que neste paraíso à beira mar plantado, tudo começa, gira e termina no futebol ou nos seus meandros, vou ficcionar um pouco em torno da minha personagem, o 2º Sargento da Guarda Nacional Republicana, Feliciano.

Estávamos na primavera de 2004, por esta altura ainda Feliciano era um jovem Cabo da GNR, quando lhe foi dado o privilégio de estar na formação inicial de uma excelente equipa de militares que foi criada em todos os Grupos Territoriais da Guarda Nacional Republicana dentro do território continental. Estas equipa designavam-se Núcleo de Investigação de Crimes de Droga (NICD) e foram criadas para investigar exclusivamente, tráfico de estupefacientes na venda directa ao consumidor.

A equipa do NICD do extinto Grupo Territorial da GNR, que Feliciano integroi, foi criada em Janeiro de 2004 e chefiada no seu inicio por um mestre da GNR, quer a comandar Postos, quer na Investigação, daqueles que já não se encontram, um Sargento-Ajudante incorporado no longínquo ano de 1977 e que ao longo da sua carreira, desempenhou as mais variadas funções, sempre com um profissionalismo de fazer inveja.

No seu início a equipa do NICD de Sintra, foi constituída apenas pelo senhor Sargento-Ajudante e mais três elementos, dois alentejanos, Feliciano e outra militar da GNR e um natural da Falagueira, ali para os lados da Amadora.

A miniequipa em termos de recursos humanos era exígua, mas grande no profissionalismo e na entrega. Após a sua constituição em Janeiro desse ano de 2004, havia carência de quase tudo, quer a nível de instalações, quer a nível de todos os meios materiais necessário, mas o que nunca faltou à equipa de Feliciano, foi a vontade de fazer muito, mesmo que com pouco. Desde os primeiros dias e mesmo com todas as carências que já referi, aquela equipa do NICD de Sintra começou desde logo a apresentar serviço, iam-se sucedendo apreensões de quantidades significativas de droga, por essa altura a heroína e a cocaína registavam uma maior incidência nas apreensões. Os meios materiais foram aparecendo aos poucos, duas viaturas a estrear e que foram as primeiras a ser entregues, pois como dizia um senhor General à data, “…as chuteiras dão-se a quem joga futebol…”, as instalações essas eram exíguas, mal cabiam os quatro lá dentro e para se movimentarem tinham de fazer alguma ginástica.

Mas nada disso era impeditivo para que a recém-formada equipa, apresentasse resultados surpreendentes, muitas apreensões de droga, muitos indivíduos em prisão preventiva e com a posterior condenação efectiva em audiência de julgamento, pois, segundo uma velha máxima que sempre norteou Feliciano, prender até pode ser fácil, difícil é carrear prova para o processo que leve a uma condenação efectiva.

No início da primavera desse ano de 2004, a equipa do NICD de Sintra foi-se apercebendo de uma anormal procura por parte dos toxicodependentes das localidades de Mem Martins e Rio de Mouro, junto de um cidadão de origem africana, que deambulava durante todo o dia nas proximidades das estações da CP daquelas localidades. Os elementos da equipa efectuaram então algumas vigilâncias, para confirmar as suspeitas, vigilâncias e todo o trabalho de terreno eram acompanhados pelo Sargento-Ajudante, que apesar de se encontrar a escassos dois anos de abandonar a GNR em razão dos anos de serviço e da idade, mais parecia um jovem em inicio de carreira, tal era o entusiasmo que colocava em todas as acções. As vigilâncias formaram a convicção na equipa, que existiam fortes indícios de o individuo de origem africana se dedicar à venda de droga.

Como na investigação não existem bolas de cristal, o próximo passo seria o de contactar um informador de confiança. Foi o que sucedeu, esse informador confirmou junto dos investigadores a venda de heroína e cocaína por parte do individuo africano, que seria conhecido junto dos consumidores pela alcunha de “São Tomé”, supostamente o seu país de origem. Confirmadas as suspeitas, os elementos do NICD elaboraram um Auto de Notícia para o Ministério Público da Comarca de Sintra, dando conta dos indícios recolhidos, foi-lhes então delegado o inquérito para investigação por aquela entidade.

Durante cerca de três meses, os quatro elementos do NICD de Sintra, desenvolveram várias diligências investigatórias, por forma a recolher a necessária prova para proceder à detenção quer do “São Tomé”, quer de outros eventuais indivíduos que se viesse a demonstrar estarem envolvidos neste processo de tráfico de droga. As diligências, passaram por escutas telefónicas, muitas vigilâncias, transcrições de escutas, relatórios de vigilâncias e todo este trabalho foi desenvolvido apenas por aqueles quatro militares, que mesmo assim não regateavam esforços para recolher toda a prova possível, o que os conduziu aos fornecedores de droga do “São Tomé”, às várias residências dos suspeitos, às denominadas casas de recuo, que são os locais onde os traficantes guardam a droga, dinheiro e todo o material relacionado com o tráfico de estupefacientes.

Munidos de todos estes elementos, solicitaram junto do Ministério Público de Sintra, Mandados de Busca e Apreensão para as residências dos suspeitos, viaturas dos mesmos e casas de recuo e ainda Mandados de Detenção para os suspeitos.

Foi então delineada ao pormenor uma operação policial para cumprir os respectivos mandados, operação coordenada pelo experiente Sargento-Ajudante e na qual participaram diferentes valências da Guarda Nacional Repúblicana. Operação essa que teve o seu início às primeiras horas da manhã de um bonito dia de primavera, decorreu durante várias horas e culminou com a detenção de todos os suspeitos, apreensão de mais de três quilogramas de droga (heroína e cocaína), elevadas quantias de dinheiro e material relacionado com o tráfico de droga.

Os suspeitos foram presentes a Juiz de Investigação Criminal do Tribunal de Sintra para 1º Interrogatório Judicial, o qual decorreu durante várias horas e sobre fortes medidas de segurança. Culminou com a medida de coação de prisão preventiva para todos eles.

Mas o trabalho não terminava aqui, o inquérito prosseguia, seria necessário ouvir o máximo de testemunhas possíveis, nomeadamente consumidores que adquiriam droga aos indivíduos, além de outras diligências, o seu términus apenas aconteceu com a elaboração de um relatório final, onde foram referidos todos os passos da investigação, do primeiro ao último dia, relatório que neste caso foi elaborado pelo então Cabo Feliciano e que era constituído por dezenas de páginas.

Deste processo e para além de tudo o que já mencionei, o Feliciano aprendeu uma lição muito importante, que lhe foi bastante útil na sua restante carreira profissional, quer como chefe do NICD, pois Feliciano teve o prazer de já como 2º Sargento substituir aquele que foi a sua referência como chefe daquela equipa, quer à posteriori como Comandante de Posto, e essa lição é simples, um Comandante lidera pelo exemplo e se assim o fizer, quatro elementos, trinta, quarenta ou mais vão acompanhá-lo até ao fim, pois têm ali uma referência.

Aquele Sargento-Ajudante da incorporação de 1977, um dias antes de Feliciano abandonar temporariamente a equipa para frequentar o curso de promoção a Sargentos, disse-lhe uma frase enigmática, mas que  acompanha e serve de guia a Feliciano até ao dia de hoje, “…no dia que saíres do comando de um Posto ou de uma equipa e todos os militares te derem palmadinhas nas costas, fica com uma certeza, fizeste um trabalho de merda…”.

06
Fev20

Não posso contar uma história que não é a minha!

Paulo Dias

Quando escrevo os meus desabafos, quem lê poderá ser levado a pensar que só escrevo sobre assuntos menos bons, no entanto, se for essa a forma de interpretar os meus textos, são interpretações que estão longe da realidade. Não intitulei o meu blog de “Desabafosalentejanos”, de forma fútil, pois como o próprio nome indica, são os meus desabafos e eu sou alentejano com um orgulho imenso. Ora, tendo isto em conta, seria de todo despropositado e pouco sério, se “dourasse a pilula” sobre a minha história de vida, pois aí não estaria a desabafar, como é minha intenção, não me estaria a libertar, estaria sim a mentir e enganar-me a mim próprio e em consequência quem de uma forma ou de outra vai dando uma vista de olhos naquilo que escrevo.

Não posso dizer que tive uma vida de privilégios materiais na minha infância e na minha juventude, porque isso não aconteceu, tive sim o privilégio de estar rodeado de pessoas humildes, integras, que me deram sempre imenso amor e que nunca permitiram que me faltasse comida na mesa. Quando falo do amor incondicional que sempre me rodeou na infância e na juventude, podia mencionar vários nomes, mas todos os outros que me desculpem, vou referir os três mais importantes, os meus falecidos mas sempre presentes pais, o senhor Feliciano, a dona Catarina e o meu querido irmão, António Manuel, Tó-Manel para os amigos, que tem estado sempre ao meu lado nos momentos mais difíceis e sempre com muito amor.

 Sinto-me um privilegiado, porque na minha educação e formação enquanto pessoa, transmitiram-me todos os valores pelos quais sempre pautei a minha vida e que neste momento tento transmitir aos meus filhos. Por isso caros amigos, não vos poderei dizer que os meu pais eram uns abastados agricultores alentejanos, porque estaria a mentir, o meu pai como já referi algumas vezes, era um serralheiro de enormes qualidades pessoais e humanas, que aquilo que ganhava, apenas e já não é pouco, lhe permitia colocar o comer na mesa e comprar as dezenas de medicamentos que a minha mãe, que era doméstica tomava diariamente. Isto para vos dizer, que me faz confusão ver nas diversas redes sociais, na internet em si, relatos devidas fantásticas, de opulência, glamour, sem quaisquer tipos de problemas, o que me leva a pensar se serão relatos de vidas ou de um filme. Os meus desabafos são a minha vida tal como ela é, porque a vida é algo de muito belo, mas tem muitas “pedras” pelo caminho, ou então serei só eu que sou um tipo azarado.

Quando várias vezes abordei nos meus textos, a perda, referia-me sempre à perda das pessoas que amo, aspecto em que a minha vida não tem sido muito “meiguinha”. Se não vejamos, perdi a minha mãe com graves problemas de saúde e uma depressão crónica, que julgo ter herdado, aos catorze anos e numa data marcante como é o dia de Natal, o meu pai que nos seus últimos anos de vida enfrentou vários problemas de saúde graves e acabou por falecer um mês antes do meu casamento e assisti com uma dor indescritível, a qual nunca conseguirei explicar, à perda de um filho, o meu príncipe Alexandre. Tive, pois a infelicidade de assistir aquilo que nenhuns pais merecessem, que é contranatura, a inversão do ciclo normal da vida, ter de enterrar um filho, é na minha opinião o expoente máximo da dor.

Quando achava que a vida já tinha colocado todas as pedras no meu caminho, uma esposa que ama, dois filhos que são a minha vida, profissionalmente sentia-me feliz e realizado, eis que aos 44 anos a vida surge mais um “pedregulho” no caminho, de um momento para o outro uma doença com um nome estranho, encefalopatia hipertensiva, coloca-te entre a vida e a morte, mas um Deus em que eu acredito, concedeu-me mais uma oportunidade para estar junto daqueles que amo, apesar das mazelas significativas que me impedem de desempenhar a minha profissão e me limitam no dia a dia e com as quais ficarei até ao dia em que Deus achar que chegou a minha hora.

Portanto meus amigos a minha a vida e passo o pleonasmo, tem sido isso mesmo a vida, com todas estas “pedras” pelo caminho, mas também com muitas coisas boas e às quais me tenho referido imensas vezes nos meus desabafos, a começar por uma família fantástica, que me deu e continua dar sempre um grande apoio e um amor incondicional, à felicidade que Deus me proporcionou de continuar a ver os meus filhos crescerem e o poder estar com aqueles que amo é neste momento o melhor da minha vida, não preciso de mais.

Outra das razões que me faz desabafar muitas vezes sobre a minha doença e como já várias vezes o referi, não é para me lamentar, muito menos para criar um sentimento de pena, que para mim não faz qualquer sentido, esses meus desabafos sobre a doença, sobretudo sobre a depressão, são uma tentativa de ajudar aqueles que enfrentam o mesmo problema com esta doença silenciosa.

Irei certamente continuar a abordar nestes meus desabafos, a minha vida, porque e repito a intenção dos mesmos é exteriorizar sentimentos, libertar-me através da escrita.

Nesta fase e porque é o que me está a apetecer, quem não escreve com qualidade, tem a vantagem de se dar ao luxo de escrever o que lhe apetece, os outros escrevem best sellers, irei passar para outro registo, escrever sobre o quotidiano nas suas mais variadas vertentes, mas sempre sobre coisas que observo e sobre as quais emitirei a minha opinião, que certamente não será consensual, tal como eu não sou, nem nunca pretendi ser, certo que continuarei a escrever como até hoje, sem filtros de espécie alguma, com a excepção da politica, que em razão da minha qualidade de militar da Guarda Nacional Republicana, nunca será assunto dos meus desabafos e sobre futebol que é algo tão fútil nas nossas vidas e já tem demasiados fazedores de opinião, não precisa certamente de mais um.

03
Fev20

A vida, a morte e os sentimentos contraditórios!

Paulo Dias

E o que dizer do Dinis, que quando eu e a mãe falamos que vou a uma consulta, ou que vou realizar algum exame, fica muito atento à conversa e com uma expressão de um menino que está preocupado. Ainda hoje e porque ele passou a noite cheio de tosse e sem conseguir descansar, decidimos que seria melhor não ir à escola e ficar em casa comigo, só que o dia presenteou-nos com um sol radioso e com um dia muito agradável, registando as temperaturas uma subida considerável, o que levou a que a minha pressão arterial fosse a única que não gostasse desse aumento das temperaturas e descesse para valores que me deixam sempre à beira de um fanico. Ora, como estava sozinho com o Dinis em casa e para prevenir que esse fanico não acontecesse mesmo, tomei algumas precauções, que passaram obrigatoriamente por medir a pressão arterial com uma maior frequência, tentar ao máximo manter-me sentado. Perante este cenário e porque o Dinis me viu meio quebrado no sofá, várias foram as vezes que me perguntou, “…pai tomaste os comprimidos, é que tu às vezes esqueceste…”, as lágrimas vieram-me aos olhos, o meu bebé, com apenas seis anos preocupado com a minha saúde. Como pai fico sem palavras perante tamanha demonstração de carinho, de preocupação e pela sensibilidade de um menino que completou seis anos à meia dúzia de dias, fico orgulhoso, sem palavras para descrever o amor demonstrado pelos meus filhos, mas eu não queria e eles não merecem estar preocupados com a saúde do pai, nas suas idades e por isso mesmo enfrento estes sentimentos contraditórios, que me atormentam.

25
Jan20

A sensação de ser descartável!

Paulo Dias

Os meus dias têm sido preenchidos com outros afazeres, que vão relegando a escrita para segundo plano e por essa razão tenho escrito com menos assiduidade.

Na visita desta semana à psicóloga que me acompanha, profissional e ser humano fantástico, Doutora Marianne Cordeiro e nas conversas que vamos mantendo, as quais fazem parte da terapia e que passam em grande parte por obrigar-me a exteriorizar aquilo que sinto e muitas vezes não expresso, pelo menos através da expressão oral, como é do conhecimento de muitos, prefiro a escrita, mas isso não é necessariamente bom e por isso a Doutora Marianne tem vindo a fazer um trabalho fantástico. Mas como ia dizendo, nesta última sessão a mesma interpelou-me se me sentia descartável/esquecido por amigos e pela instituição, Guarda Nacional Republicana, acabou por tocar numa questão muito sensível e que por vezes consome os meus pensamentos, a questão é tão pertinente, que só de pensar nela, me deixa emotivo e com os olhos humedecidos, o que a bom da verdade também não é assim tão difícil, pois como já referi mais do que uma vez, sempre fui emotivo e de lágrima fácil. Houve inclusive uma parte significativa dos meus 45 anos de vida, que fazia tudo para evitar que os outros percebessem as minhas emoções e escondia o meu choro, no entanto, depois da morte do meu príncipe Alexandre, nunca mais escondi as emoções, nem as lágrimas e hoje convivo muito bem com esse extravasar das emoções, se tenho vontade de chorar, choro, sem preocupações do local onde me encontro ou das pessoas que estão junto a mim, só faço um esforço para não chorar junto dos meus príncipes, mas confesso que algumas vezes não consigo.

Ora sendo sincero, não há forma de camuflar a questão ou de me referir a ela de forma mais diplomática, até porque há muito tempo que a vida, mais concretamente as pessoas fizeram que  aquele Paulo Dias que todos conheciam no inicio da minha carreira, alguém extremamente calmo, que perante as situações mais complexas mantinha a calma e quando a situação era delicada optava normalmente por resolvê-la, através do diálogo, procurando consensos, mas esse Paulo Dias já não existe, a vida e as pessoas obrigaram-me a mudar o registo, para alguém menos paciente e que se cansou de resolver conflitos entre outras pessoas ou comigo próprio, sempre através de uma tentativa de diálogo conciliadora. Por isso perante a questão da Doutora Marianne, fui obrigado a responder aquilo que várias vezes me tem consumido os pensamentos de à dezoito meses a esta parte, há amigos que com o tempo se vão esquecendo de nós, quantos a estes quero acreditar que as suas vidas são muito preenchidas e que isso a juntar à minha ausência forçada, os vai fazendo esquecer do Dias, ou o Paulo Dias, ou o Sargento-Ajudante Dias, mas como dizia o meu querido pai, quem não é visto, não é lembrado.

No que toca ao acompanhamento institucional, aí sim estou a sentir aquela situação estranha e que jamais pensei que pudesse vir a acontecer, sou/somos completamente descartáveis. Desde o primeiro momento, ou seja, do dia do meu internamento não senti qualquer apoio ou preocupação com o meu estado de saúde, se os meus filhos ou a minha esposa necessitavam de alguma coisa e esta atitude ou falta dela, não foi praticada por estranhos, mas sim por parte das pessoas com responsabilidades numa Unidade que servi durante mais de vinte anos, ou seja, toda a minha vida nesta instituição e isto custa imenso, quem nunca passou por esta situação não acredito que consiga sequer imaginar o quão difícil é enfrentar esta sensação de nos sentirmos material descartável, literalmente, daquele que se coloca no ecoponto ou até no caixote do lixo se der muito trabalho ir ao ecoponto.

Eu tenho tido apoio dentro da GNR, mas fui eu que o procurei, pois já estava em casa à mais de 180 dias e achei estranho não ser chamado para uma Junta Médica, por isso dirigi-me ao Centro Clinico da GNR e expus o meu caso, para meu espanto ou talvez não, o Unidade de Saúde da GNR, não sabia sequer que me encontrava de baixa, muito menos na situação em que me encontrava, como poderia eu esperar que algum psicólogo me ligasse a perguntar se precisava de algum apoio, impossível.

 Foi a partir dessa minha ida ao Centro Clínico e repito por minha iniciativa, porque se não corria o risco de passados dezoito meses continuar em casa sem nunca ter sido sujeito sequer a uma junta médica da Guarda. Passei então a contar com um óptimo acompanhamento médico, profissionais extraordinários, a quem estarei eternamente agradecido. No entanto, não deveria ser eu a procurar o Centro Clínico, essa devia ter sido uma preocupação da minha anterior Unidade, mas houve uma grande falta de profissionalismo, pela falta de informação ao Centro Clínico e mais grave do ponto de vista como os profissionais são tratados em determinados locais, somos um número e esse número vai e outro irá certamente vir para o substituir.

Em todos este processo doloroso, contei sempre com a preciosa ajuda de um Comandante daqueles com letra grande, senhor Coronel Bessa, que mesmo a milhares de quilómetros de distância tem sido incansável no acompanhamento do meu estado de saúde, coincidência, tal como eu também o senhor Coronel Bessa, sempre pautou a sua conduta pelo profissionalismo, e não pela palmadinha nas costas, nacional porreirismo e como diz o meu amigo Manuel Ferreira Antunes, pelo “lambebotismo”.

Não me quero neste momento alongar muito mais, até porque como já referi este assunto deixa-me desconfortável, emocionado e com os olhos humedecidos, pelo sentimento de tristeza que me invade ao sentir-me descartável por parte das pessoas que são responsáveis pela Unidade que servi com toda a dedicação, profissionalismo e lealdade durante mais de vinte anos.

Mas não retirem deste meu texto a ideia que estou zangado ou triste com a minha instituição, pelo contrário, agradeço tudo aquilo que a Guarda Nacional Republicana me deu, desde a possibilidade de ajudar quem em algum momento estava mais fragilizado por ter sido vitima de algum crime, por tudo o que me proporcionou em termos de aprendizagem profissional e humana, por me ter dado a felicidade de me cruzar com excelentes profissionais desde militares da GNR, a magistrados do Ministério Público, magistrados judiciais, oficiais de justiça e profissionais das mais variadas áreas, nunca esquecendo que a GNR me proporcionou uma vida melhor, porque eu nunca esqueço as minhas origens humildes de que muito me orgulho (obrigado por tudo senhor Feliciano e dona Catarina), permitiu-me proporcionar aos meus príncipes até ao dia de hoje, uma vida completamente diferente da minha, porque amor, educação e comida na mesa sempre tive, no entanto deixa-me feliz proporcionar-lhes oportunidades que eu nunca tive, por tudo o que referi, seria injusto da minha parte confundir pessoas, com a nobre instituição que é a Guarda Nacional Republicana a quem muito devo e a quem sempre tentei retribuir com palavras que nos dias de hoje vão parecendo estranhas, dedicação, profissionalismo e lealdade.

 

16
Jan20

A gestão de meios humanos e materiais!

Paulo Dias

A vida é efémera, mas quando ontem assisti à intervenção do senhor ministro da Administração Interna na respectiva comissão parlamentar e no seguimento da votação do orçamento de estado na especialidade, anunciar a entrada até 2023 de cerca de dez mil efectivos, para suprir a falta de meios humanos na Guarda Nacional Republicana e na Policia de Segurança Publica, faço votos que isso realmente se verifique e que eu esteja cá para ver, porque eu sou um pouco como São Tomé, ver para crer.

A falta de efectivos é uma realidade que se vem acentuando nos últimos anos, por isso estas incorporações faseadas até 2023 numa e noutra força de segurança são uma excelente noticia para as populações, pois existindo uma boa gestão dos recursos humanos que privilegie a componente operacional, obtando por reforçar o policiamento de proximidade e de visibilidade, conduzirão certamente ao aumento do sentimento de segurança entre os cidadãos, afinal este é o objectivo primordial da existência da GNR e da PSP.

Esta é uma questão muito cara para mim, porque sempre fui defensor que os recursos humanos e a parte logística e financeira dentro da Guarda Nacional Republicana, deviam ser entregues a gestores profissionais dentro destas áreas, que estas funções fossem entregues aos melhores entre os melhores e com competências provadas no sector privado, oferecendo-lhes uma remuneração tentadora e a quem ao final de cada ano civil seria solicitado que apresentassem resultados nas respectivas áreas, que mostrassem uma eficaz gestão dos meios à sua disposição.

Mas este é um anseio meu, o qual acredito que jamais será possível colocar em prática, por isso cabe aos que cá estamos e desempenhamos funções de comando nos vários escalões, fazer uma gestão criteriosa dos meios humanos e materiais colocados à nossa disposição. Vou abordar a questão no meu escalão e no papel de comandante de Posto, função que desempenhei durante vários anos. É responsabilidade do comandante de Posto gerir os parcos recursos humanos que tem à sua disposição e não se desculpar constantemente que não tem militares para fazerem patrulhas apeadas, que são a única modalidade que conheço para desempenhar um eficaz policiamento de proximidade e de visibilidade. Então se não temos militares para lançar patrulhas apeadas no terreno, porque é que não definimos vários pontos onde a patrulha às ocorrências pare, apeie e faça o policiamento que o cidadão de bem anseia? O que é que interessa fazer cem ou mais quilómetros durante essa patrulha, se esses quilómetros não se traduzem num policiamento efectivo, também não adianta estabelecer os pontos de paragem e a patrulha às ocorrências não sair da viatura, ocupando o tempo a ver os veículos e as pessoas a passarem ou com a cabeça em baixo e de olhar fixo no telemóvel.

Pelos Postos Territoriais por onde passei e quando os recursos humanos escasseavam, sempre coloquei em prática esta modalidade e que posso garantir com resultados positivos junto das populações, estabelecia pontos de policiamento apeado em locais sensíveis, como bancos, farmácias, comércio tradicional, grandes e médias superfícies comerciais, principais entradas das localidades, cabe depois a cada um e tendo em conta as suas zonas de acção, estabelecer prioridades, que não passarão certamente por andar a fazer muitos quilómetros de viatura. É difícil implementar este modelo, claro que sim, policiamento apeado encontra resistência na generalidade dos militares, mas essa é a nossa função, pensar no bem comum e não em interesses individuais.

Falemos agora da frota automóvel existente em grande parte dos Postos Territoriais, outra das funções de gestão a cargo dos Comandantes de Posto. Será difícil ver com regularidade o estado e quilometragem das viaturas e pedir atempadamente a revisão das mesmas, já por si bastantes desgastadas e com muitos quilómetros? Não será nossa obrigação zelar pela limpeza e conservação das viaturas? Ou será mais fácil permitir que as mesmas muitas vezes circulem com desprezíveis condições de apresentação e de asseio?

Deixar andar é o caminho mais fácil, mas não somos pagos para deixar andar, mas sim para tomar decisões e gerir os meios colocados à nossa disposição e não andarmos sempre a queixar-nos e a fazer transparecer para a opinião pública, que não desempenhamos a nossa missão, porque somos uns “coitadinhos” e não temos meios.

Tudo o que disse e que sei que não é consensual, bem pelo contrário, no entanto esta foi sempre a minha forma de olhar para a missão que me era confiada, não como um problema, mas antes como um desafio, para o qual tinha de encontrar as melhores soluções.

Nada do que escrevi até agora invalida, que tenha sido sempre exigente de forma respeitosa para com o escalão superior, de forma a exigir melhores condições de trabalho para os militares sobre o meu comando, a começar pelas condições de habitabilidade dos Postos, exigindo sempre que estas fossem dignas, passando pelo equipamento operacional para o desempenho da missão, viaturas, armamento, algemas, bastões, material retrorrefletor e algo que nunca consegui e que não vislumbro que vá acontecer a curto e médio prazo, que passa por distribuir a cada patrulheiro um colete balístico, que envergue no inicio da patrulha e apenas o retire dentro do Posto e quando a patrulha estiver finalizada. Esta medida de protecção é elementar em pleno século XXI e não deveria sequer ser assunto de conversa, basta-nos olhar para a generalidade dos países desenvolvidos e é impossível ver um patrulheiro sem que envergue um colete balístico.

Há muitas coisas que sempre me fizeram confusão, mas que ultrapassavam as minhas, responsabilidades, além dos coletes balísticos que já referi e são elementares no equipamento de uma Força de Segurança, a frota de viaturas é algo que nunca consegui perceber, interrogo-me até hoje porque é que a Guarda Nacional Republicana com uma frota automóvel de milhares de viaturas, não opta por contratos de gestão de frota? Pergunto-me se este não seria o caminho mais indicado em termos de custos e a forma de manter a frota sempre renovada e por consequência operacional? Eu não percebo nada de gestão, a matemática até foi sempre o meu fraco na vida académica, mas já efectuei várias pesquisas sobre o assunto que apontam estes planos de gestão de frota como o mais aconselhável para empresas que disponham de muitas viaturas e por isso pergunto-me, quantas empresas em Portugal possuirão o número de viaturas que a GNR possui?

Ainda em relação às viaturas, será necessário adquirir e passo a publicidade, Wolkswagens Passats para o serviço de patrulha, quando com esse valor certamente seria possível adquirir em vez de uma, certamente duas viaturas de uma gama mais baixa e que desempenhariam o serviço de igual forma?

São muitas interrogações, mas este texto é uma reflexão para os Sargentos Comandantes de Posto, porque eu não sou nem nunca fui oficial e por isso não posso colocar-me numa função que nunca desempenhei, mas de uma coisa tenho a certeza, cabe aos Comandantes de Posto gerirem da melhor forma os meios colocados à sua disposição, por muito parcos que eles sejam, pois o nosso foco deve ser apenas um, a segurança de pessoas e bens, sem desculpas, mas com propostas viáveis para os problemas e para as carências que achamos ser importante suprir. Ah! E por escrito, porque um velho Comandante sempre me disse, que as palavras leva-as o vento.

Mas por favor, pela imagem de profissionalismo dos Sargentos da Guarda, pelo cumprimento da missão que vos foi confiada e que é a mais nobre e importante que possa existir, a segurança de pessoas e bens, não se demitam das vossas funções e não se refugiem por detrás de desculpas que apenas contribuem para a insegurança das populações que juraram proteger, juramento que jamais poderá ter sido feito de ânimo leve.

 

15
Jan20

O caminho mais fácil, não é com certeza aquele que serve o interesse geral!

Paulo Dias

Como já referi várias vezes, Portugal é um país onde reina o nacional porreirismo e a palmadinha nas costas, com índices preocupantes nos serviços da função pública, pois as empresas privadas de uma forma geral são mais exigentes, porque os maus profissionais causam prejuízos económicos, além de uma má imagem da empresa, que em consequência tem repercussões na saúde económica e por isso ou invertem o rumo, ou são despedidos.

Já no sector estado e a começar no topo da pirâmide estamos envolvidos numa teia de corporativismo, que não permite que os mais variados serviços prestem um serviço de qualidade ao cidadão. Existe uma forma muito peculiar de pensar, isto não é nada meu, no final do mês o meu vencimento está certo, os índices de produtividade não são avaliados e se o são é com base em regras pouco claras e tudo isto conduz a um comodismo por parte das chefias, dos gestores, directores dos vários serviços, torna-se mais fácil para todos dizer que sim a tudo, a palavra não leva-nos muitas vezes à confrontação e quase ninguém quer dizer não, o sim é mais comodo, não nos trás problemas, mas conduz-nos a um mau serviço público.

De uma forma geral, quem desempenha cargos de chefia, gestão ou direcção, não é exigente consigo próprio no desempenho das funções para as quais é pago e como é óbvio ao não ter um grau de exigência na primeira pessoa, ao não liderar pelo exemplo, não tem autoridade para exigir o que quer que seja dos seus subordinados e em consequentemente entramos num efeito bola de neve, o líder não faz, quem está sobre a sua liderança não se vê por isso na obrigação de fazer e  quem sai prejudicado deste ciclo vicioso é o comum cidadão, que recorre aos mais diversos serviços do sector público.

Várias foram as vezes que me dirigi a um serviço público e fui atendido com uma falta de profissionalismo gritante, já reclamei no livro de reclamações de alguns desses serviços e nunca obtive uma resposta conclusiva das entidades a quem cabe a tutela dos mesmos. Invariavelmente a resposta gira em torno, de um pedido de desculpas camuflado, que a situação vai ser averiguada, etc., mas como é que alguém pode responder a uma reclamação de um serviço mal prestado, sem sequer ouvir o queixoso, é de uma incoerência total, pedem as tais desculpas camufladas e depois vão averiguar, não seria de bom tom averiguar primeiro, ouvir as partes e depois então responder de forma conclusiva, claro que estes procedimentos correctos não interessam aos comodistas, seria colocar areia na engrenagem do nacional porreirismo e da palmadinha nas costas.

Eu desconheço por completo o funcionamento interno dos diferentes serviços, mas não é o caso da instituição que sirvo à vinte e dois anos e da qual posso falar com toda a propriedade, pois fui praça, soldado e cabo e desde 2006 sou sargento, já passei pelos mais variados locais entre a patrulha, a investigação criminal e o comando de Postos Territoriais, nunca estive mais de dois a três anos em qualquer dos locais por onde passei, porque sempre achei que não deveria acomodar-me em nenhum local, foi sempre a minha forma de estar, porque acredito que a permanência no mesmo local, pode conduzir a uma certa desmotivação, sempre ansiei novos desafios na minha vida profissional e porque durante o período que permanecia nos vários locais, exigia o máximo de mim e daqueles que comigo colaboravam e isso acaba por se tornar desgastante para ambas as partes.

Gosto de facilitar a vida pessoal daqueles que comigo colaboram, pois esta é uma profissão muito exigente e temos de ter espaço para as nossas famílias, para os nossos momentos de lazer, para resolver os nossos problemas pessoais, mas depois em termos profissionais exijo 200%, ou melhor exijo tudo aquilo que as pessoas têm para dar, pois os cidadãos esperam que as Forças de Segurança lhes transmitam um sentimento de segurança, com visibilidade, proximidade e profissionalismo.

Esta forma de estar, criou-me algumas inimizades, alguns que ansiavam todos os dias verem-me pelas costas, mas posso afirmar com toda a certeza, que são mais os profissionais com quem tive o privilégio de trabalhar que me respeitam, porque sempre liderei pelo exemplo, com lealdade, frontalidade, fui muitas vezes obrigado a dizer que não, mas a mim pagavam-me para servir o cidadão e não para servir interesses privados ou corporativistas, nunca alinhei no nacional porreirismo, na palmadinha nas costas ou numa frase muitas vezes utilizada, máxima liberdade máxima responsabilidade, não, quer nos momentos bons quer nos maus a responsabilidade era única e exclusivamente minha e por isso tinha de estar sempre presente, tinha de ser o primeiro a saber de qualquer coisa que acontecesse, por mais irrisória que pudesse parecer, mas isso cabia-me a mim decidir. Em resultado deste meu grau de exigência, andei muitas vezes cansado, stressado, nervoso, mas sempre dormi tranquilo com a minha almofada em consequência das decisões que tomava no dia a dia.

O que eu vejo hoje e vou dizê-lo da forma mais frontal possível, são comandantes desta nobre instituição que é a Guarda Nacional Republicana, a desresponsabilizar-se das suas funções de liderança, de liderar pelo exemplo, de serem frontais e leais aqueles que comandam e por quem são comandados, exigindo da parte deste o mesmo, essas duas qualidades necessárias para uma convivência assente no respeito mútuo, lealdade e frontalidade, vejo comandantes ausentes, que em consequência disso e por forma a protegerem-se, não são capazes de dizer não, de colocar os interesses das populações à frente dos interesses privados de um ou outro elemento, alinhando nos abomináveis nacional porreirismo e palmadinha nas costas. Quem acaba por sofrer com esta postura pouco profissional? Em primeira mão a razão da existência da GNR, segurança de pessoas e bens e em consequência disso a imagem da GNR sai muito depauperada.

Outro factor que compromete a missão da Guarda, são os “yes men”, que com intuito de não terem chatices, dizem que sim a tudo perante a hierarquia e eu fui ensinado e mais uma vez a ser leal e frontal para com a hierarquia, o Regulamento de Disciplina da GNR não nos coíbe de discordar da opinião de algum superior hierárquico, desde que o faça de forma respeitosa e sempre que discordamos cabe-nos apresentar uma solução, uma alternativa, não ver um problema e ter antes a preocupação de apresentar uma alternativa, depois e em última instância a decisão final é do superior hierárquico e ponto final.

Para todos aqueles que leram este texto e que não conseguiram perceber de quem estou a falar e a responsabilizar pelo caminho que a GNR está a seguir e que temo que possa ser calamitoso e nos conduza a um ponto sem retorno, estou a falar da minha classe, os Sargentos, que em números assustadores não assumem as suas responsabilidades, que estão a tornar-se uns “yes men”, sem verticalidade, por isso e porque não me revejo nesta forma de estar que se está generalizar, esta não é a “minha” Guarda Nacional Republicana e não sou melhor nem pior que ninguém, cometi muitos erros na minha carreira, mas errava porque fazia, porque quem pauta a sua forma de estar pela inércia, dificilmente vai errar e infelizmente esta inércia é premiada.

Durante a minha carreira sempre fui um “revolucionário” relativamente aos maus profissionais, já não serei eu que irei ajudar a mudar nada, no entanto tenho esperança que o rumo se altere, que cada Sargento da Guarda assuma as suas responsabilidades e que exija de todos os escalões hierárquicos o mesmo assumir as responsabilidades que cabe a cada um e quem vai beneficiar são aqueles que são a razão da nossa existência, os cidadão.

Quanto a mim enquanto profissional fui aquilo que fui, olhando para trás não alterava nada nas decisões que tomei e na postura pela qual pautei a minha vida profissional e por isso digo hoje com orgulho, que durmo completamente tranquilo com a minha almofada em razão das decisões que tomei e mais importante ainda, sem falsas imodéstias olho para os meus príncipes de cabeça bem levantada, demonstrando o orgulho enorme que tenho neles e certo que se podem orgulhar do pai.

12
Jan20

Ter o discernimento para definir as prioridades da nossa vida efémera!

Paulo Dias

Já disse e repeti várias vezes, talvez até demais, que quando a vida nos surpreende com um acontecimento negativo e depois de um choque inicial em que ficamos com aquela sensação estranha de que a nossa vida se desmoronou por completo e damos por nós assustados demais para sequer reagir. Vem depois um sentimento completamente oposto, começamos a dar um valor especial a aspectos da vida que a azáfama do dia a dia nos fazia relegar ainda que de forma inconsciente para segundo plano.

Eu era alguém muito focado no meu trabalho, na nobre função de zelar pela segurança dos outros, algo de que não me arrependo, ao mesmo tempo tinha ambições na minha carreira e essas sim percebo neste momento e sem rodeios que eram tão desmedidas como desnecessárias e que para mim hoje não fazem qualquer sentido.

Ora como resultado de uma vida profissional de grande exigência e muito intensa, passei mais de vinte anos a relegar para segundo plano, ainda que de forma inadvertida, o mais importante que todos temos nas nossas vidas, a família. Hoje digo com orgulho que me dediquei à causa pública com tudo o que tinha para dar, mas em simultâneo fico inúmeras vezes triste por perceber que não estive presente em demasiados momentos importantes da minha família, que fui um pai ausente vezes sem conta, o que me deixa revoltado comigo próprio, pois o tempo não volta para trás e jamais poderei recuperar os momentos perdidos.

Apenas uma vez em toda a minha vida profissional, fui colocado num local a meu pedido, todas as outras e foram várias, resultaram de ordens superiores que jamais questionei e que quase sempre me afastavam da família, na distância e na exigência da missão que me era confiada, que me tomava muitas horas por dia, nunca parei para pensar na família, fui egoísta e valeu-me sempre a pessoa com quem me casei e que sempre me apoiou.

A Paula, a minha esposa, essa mulher fantástica a que já fiz alusão várias vezes e que durante os mais de vinte anos que dediquei a uma causa, foi pai e mãe, desempenhando esses dois papéis de forma irrepreensível, quer na educação dos nossos príncipes, quer em tudo aquilo que está inerente à vida familiar, aliando ainda a sua vida profissional, tudo isto representa uma carga enorme para uma pessoa só, enquanto eu achava que a minha vida profissional era muito exigente, nunca parei um instante para pensar o quão mais difíceis e exigentes eram as múltiplas tarefas desempenhadas pela Paula.

Tudo o que aqui estou a desabafar, causa em mim um sentimento de grande arrependimento e mágoa, mas hoje o que mais remorsos me causa e julgo que a Paula não me levará a mal, é o pai ausente que fui até ficar doente, a falta que os meus filhos devem ter sentido nas diversas fases do seu crescimento, uma enorme ausência. A falta do pai nas brincadeiras, a falta do pai no acompanhamento escolar, em especial no caso do João, pois o Dinis inicia no ano de 2020 o 1º ciclo do ensino básico. A única vez que fui um pai mais presente foi aquando da doença do nosso príncipe Alexandre que o conduziu a uma morte prematura, mas apenas fui presente nas instalações do hospital de Santa Marta onde o Alexandre esteve internado durante 39 dias, pois o militar da Guarda Nacional Republicana destemido e que nunca olhou para trás nos momentos mais difíceis, que perseguiu e prendeu criminosos nos mais diversos contextos, perante a doença grave de um filho, acobardou-se e nos últimos dias de vida do Alexandre, não passava da sala de espera dos cuidados intensivos, um atitude cobarde de que jamais me perdoarei, enquanto a super mãe, a super esposa, a super mulher, não saía por um instante da cabeceira de um filho gravemente doente.

Foi necessário um episódio de saúde ou falta dela, que me fez parar, fazer uma introspecção, um mea culpa para o qual não existe penitência, apenas um enorme arrependimento pelo muito tempo em que não tive o discernimento, a capacidade de definir prioridades, como digo muitas vezes, não soube desligar a ficha e agora não há volta a dar, porque esse tempo não volta para trás. Não vale a pena pedir desculpas à Paula e aos meus príncipes, pois o ditado é muito certo, as desculpas não se pedem, evitam-se, resta nunca mais me esquecer de que a família é a prioridade, o mais importante que temos no mundo.

Por isso meus amigos, se não cometeram os meus erros que eu, admiro-vos pelo vosso discernimento, se a vossa vida vai no mesmo sentido que a minha, peço-vos um favor, façam uma pausa enquanto têm tempo, reflictam sobre o que para vida, e tenho a certeza que a família se apresentará como a vossa superioridade suprema e que conseguirão conciliar com a vossa vida profissional, aprendam a desligar a ficha, eu infelizmente nunca soube.

07
Jan20

A morte!

Paulo Dias

Desde que me recordo da minha existência fui sempre um hipocondríaco inveterado, qualquer dor, qualquer má disposição, levava-me sempre a pensar no pior, que teria alguma doença má e por aí adiante, o simples facto de ouvir alguém relatar um qualquer problema de saúde e o seus sintomas, levava-me logo a pensar que também eu teria o mesmo problema, é algo que achamos jamais poder controlar.

Eu apenas me diferenciava das pessoas hipocondríacas no facto de ter receio de ir ao médico, evitava ao máximo entrar num consultório e quando o fazia os nervos e a ansiedade apoderavam-se de mim, porque achava sempre que me ia ser diagnosticada uma doença grave, mas na generalidade os hipocondríacos caracterizam-se por visitas constantes ao médico, por quererem fazer exames a tudo e mais alguma coisa de forma a despistarem a existência de uma doença que acreditam ter, por isso até neste aspecto sou um tipo estranho.

Escusado será dizer que grande parte da minha vida foi passada com um medo terrível de qualquer doença e aterrorizado pela ideia da morte, com uma única excepção, absorvido pelo serviço e em situações de risco elevado, nunca temi a morte, parece um contrassenso, mas é a realidade. Contudo e quando eu achava que jamais iria controlar este problema, eis que no dia 1 de Agosto de 2018 sou internado no Hospital de Santa Maria e esse data mudou a minha vida em diversos aspectos, um deles foi a perda de qualquer receio de morrer. Nesse dia e como se diz na minha terra, chorei baba e ranho, nem queria ir ao hospital, mas a minha esposa conseguiu ser mais persuasiva e lá me levou à urgência de oftalmologia de Santa Maria. Observado pela oftalmologia e perante o cenário observado pelo médico, este decidiu chamar a neurologia, ora quando me vi a ser observado por vários neurologistas, ao ver-me numa máquina de TAC e depois do neurologista ver este exame, comunicar à minha esposa que eu tinha de ficar internado para na manhã do dia seguinte realizar uma ressonância magnética, pois existia uma grande probalidade de ter um cancro no cérebro, chorei como uma criança durante horas.

No dia seguinte enquanto aguardava pela ressonância, chorei muito, quando fui colocado na máquina para realizar o exame, pedi de imediato para sair, no entanto nessa altura e no espaço de poucos segundos a minha cabeça fez um clique, pensei nos meus filhos e que por eles tinha de fazer aquele exame e depois fosse o que Deus quisesse. Fiz o exame no tempo previsto, sem necessidade de fazer qualquer interrupção, parei de chorar, fui novamente para o SO de Santa Maria e até às seis da tarde do dia 2 de Agosto de 2018 não verti nem mais uma lágrima, nessa altura o mesmo grupo de neurologistas que me haviam observado no dia anterior, comunicaram-me que teria de ficar internado no serviço de neurologia para realizar mais exames, no entanto a hipótese de ter um cancro no cérebro estava praticamente descartada, que o meu problema era algo que acontecia com muito pouca frequência, tratar-se-ia à primeira vista de uma encefalopatia hipertensiva, que é basicamente uma lesão no cérebro provocada por valores da hipertensão arterial completamente fora do normal, como no meu caso que durante os primeiros dias de internamento tive registos de 250 de sistólica e 190 de diastólica, era segundo uma neurologista com mais experiência uma autêntica bomba relógio. A encefalopatia em si é reversível, o que é irreversível são as lesões provocadas em outros órgãos, nomeadamente, visão, coração e rins.

Nos 21 dias que estive internado, foram-me efectuados uma parafernália de exames, TAC, ressonâncias, punção lombar e muitos outros, fi-los com a maior naturalidade e sempre que efectuava um exame mais invasivo, como é o caso da punção lombar, fixava o pensamento nos meus filhos e realizava o exame com toda a naturalidade, acho por isso que fui um doente fácil para médicos e enfermeiros durante o período do meu internamento.

Por isso meus amigos, desde o dia 2 de Agosto de 2018 que posso dizer que deixei de ser hipocondríaco, passei a realizar exames médicos e a visitar médicos das várias especialidades, com a maior das naturalidades e deixei de temer a morte. O fim da vida passou a ser algo que enfrento com toda a naturalidade, apenas com um senão, gostava de acompanhar o crescimento dos meus filhos, ajudá-los a concretizar os seus sonhos, vê-los serem felizes com saúde, sempre com a nossa guerreira Paula por perto.

Nada disto invalida que os meus pensamentos catastróficos que em muito contribuíram para o estado depressivo em que me encontro tenham desaparecido, nada disso, são até mais atormentadores neste momento, mas não em relação aquilo que o futuro me reserva em termos de saúde, mas sim em relação à saúde e ao bem estar dos meus príncipes, da mulher por quem estou cada vez mais apaixonado e de todos aqueles que amo.

Alguns ao lerem este texto, acharão que a morte é algo associado à depressão através do suicídio, mas no meu caso e felizmente é algo que está completamente fora de jogo, porque nunca me ocorreram tais pensamentos,  seria cobardia da minha parte renunciar à vida, quando Deus me proporcionou a oportunidade de estar junto daqueles que amo, quando as taxas de sobrevivência de um episódio clinico como aquele que vivi, são bastante reduzidas, por isso meus amigos, nunca seria eu a renunciar à vida.   

Se estou a aproveitar a vida da melhor forma, mentiria se dissesse que sim, a maldita depressão não está a permitir que isso aconteça, mas estou a fazer um esforço hercúleo para superar a doença, ou pelo menos atenuá-la, com um único objectivo, estar o melhor possível junto da minha esposa e dos meus príncipes e viver momentos inesquecíveis em família, pois para mim tudo o resto está neste momento num patamar tão abaixo da minha expectativa de vida, que nem consigo sequer vislumbrar qualquer outra coisa além da família.

Este é apenas o meu desabafo e o meu testemunho, de como um acontecimento traumático pode alterar diversos aspectos da nossa vida, nomeadamente o de passar a encarar a morte com naturalidade e tentar focar-me na família e naqueles que amo como a exclusiva prioridade da minha vida. Às vezes pergunto-me se já irei tarde para emendar a mão e ter todo o meu foco direcionado para a Paula, o João Pedro e o Dinis, quero acreditar que não, mas que seja aquilo que Deus quiser.

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