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Desabafos

Desabafos

28
Ago19

Fonte Nova

Paulo Dias

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O Bairro da Fonte Nova com o Forte de Santa Luzia em Plano de Fundo

 

Não podia deixar de escrever sobre o local que marcou a minha infância e toda a minha vida, o bairro onde nasci e cresci, o Bairro da Fonte Nova em Elvas, é lá que estão as minhas origens.

Para aqueles que conhecem Elvas é um bairro que fica junto a Estrada Nacional 4, que liga Elvas a Espanha, mais concretamente Badajoz, fica situado fora da zona muralhada da cidade património mundial, ali entalado entre uma das entradas da zona histórica da cidade, mais concretamente as Portas de Olivença e o belíssimo e agora recuperado Forte de Santa Luzia.

Trata-se de um bairro com apenas cinco ruas e como é obvio por aquela altura, eu nasci em 1974 e saí de lá definitivamente após o falecimento do meu pai em 1999, toda a gente se conhecia e convivia como de uma família se tratasse.

Elvas era por esses anos a típica cidade do interior, onde não havia grande coisa para fazer, mas na Fonte Nova os nossos pais tinham contribuído com a sua parte para a taxa de natalidade e todos os casais tinham pelo menos um ou dois filhos, muitos de nós da mesma idade e com poucos anos de diferença o que dava azo a que o nosso mundo fosse mesmo o nosso bairro, com as mais variadas brincadeiras, sem grandes problemas com o trânsito que circulava pelo bairro, porque por altura da minha infância certamente se contariam pelos dedos de uma mão o número de pessoas do bairro com automóvel.

Sendo assim o nosso tempo ia-se dividindo entre a escola e as mais variadas brincadeiras no bairro, que em tempo de férias no inverno se prolongavam até que fosse dia e no verão até que os nossos pais estivessem “sentados ao fresco” na rua, expressão que se utiliza no Alentejo quando as pessoas se sentam na rua junto às suas portas ou os vizinhos se juntam para ver se corre uma brisa que combata o calor infernal com que aquela zona é brindada.

Ainda não vos disse mas o meu bairro era com certeza um dos bairros mais humildes da cidade, a maioria das pessoas eram trabalhadores por conta de outrem no caso dos homens e as mulheres exerciam atividades domésticas, o meu pai por exemplo tinha uma pequena oficina de serralharia, onde trabalhava sozinho, sendo imensas as vezes que o dinheiro escasseava, nunca tendo escasseado a comida na mesa graças a Deus. O que se passava na minha casa, passava-se na maioria, por isso as nossas brincadeiras eram normalmente improvisadas, com grandes “futeboladas” de dia até que fosse noite, primeiro no empedrado e depois lá veio o alcatrão, com balizas feitas de pedras que tinham que ser retiradas rapidamente quando passava algum carro ou se sentia o Fiat Tempra da Policia a aproximar, também jogávamos hóquei em patins, claro que sem patins e com tacos e bolas improvisadas por nós, também havia basquetebol num campo que improvisámos junto às muralhas e num campo de terra batida que limpámos, escusado será dizer-vos que a bola era a que calhava e a tabela fomos nós que a construímos, outra das brincadeiras muito comuns eram as coboiadas e aí éramos uns privilegiados tal a infinidade de esconderijos naturais que tínhamos, incluído os túneis do Forte de Santa Luzia.

Nos anos oitenta, princípios dos anos noventa Elvas era uma cidade sem qualquer tipo de passatempo para a minha faixa etária, à exceção do futebol, cujo Estádio Municipal ficava também situado no meu bairro, tal como o Estabelecimento Prisional, Guarda Fiscal, Maternidade Mariana Martins, Segurança Social, Centro de Saúde e mais tarde também o Hospital, por isso era um bairro humilde mas com várias infraestruturas, a maternidade foi onde nasci e o Centro de Saúde deu-me sempre imenso jeito, tal foi o número de vezes que parti a cabeça e necessitei de cuidados médicos.

Nunca senti falta de nada, nem de jogos mais sofisticados, nem de bolas XPTO, de nada, nós fazíamos as nossas brincadeiras, a única bicicleta que tive era uma tipo pasteleira, que o meu pai me reconstruiu e que fez as minhas delicias, apesar de na primeira volta o travão da frente me ter feito dar um mortal e uma cicatriz que perdura até hoje.

Os tempos foram evoluindo, eu saí de Elvas muito cedo para me fazer à vida, com 18 anos ingressei na Força Aérea e a cidade foi evoluindo, sendo hoje uma cidade bem dotada e com várias infraestruturas, contudo com o velho problema do interior, a desertificação, pois o emprego e a hipótese de continuar os estudos são algo que escasseia ou não existe.

A Fonte Nova lá continua com aquele seu brilho especial, mas é cada vez um bairro mais envelhecido, os mais novos foram fazendo as suas vidas noutros locais e foram ficando aqueles que por aqueles anos andavam na casa dos trinta ou quarenta anos e agora estão nos oitenta e setenta.

Haveria tanta coisa para falar da Fonte Nova, mas para fim de história só dizer-vos o quão feliz fui naquele bairro com tão poucos bens materiais e supérfluos, mas com muito espaço para dar azo às nossas brincadeiras e dar valor à amizade e ao espírito de entreajuda.

Aquele bairro foi uma escola de vida, aprendi a ser humilde, respeitador de todas as pessoas, independentemente do seu estatuto social, da sua natureza étnica e do seu género e é tudo isto que hoje pretendo transmitir aos meus filhos, pois apesar de lhes conseguir Graças a Deus e ao meu trabalho e da minha esposa proporcionar outro tipo de vida em termos materiais, algo de que não abdicarei nunca é de lhes transmitir os valores que os meus humildes pais e o meu humilde Bairro da Fonte Nova me ensinaram.

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A casa onde cresci e vivi 25 anos felizes da minha vida

22
Ago19

Mulher Coragem

Paulo Dias

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Algures à cerca de dez anos atrás já terei contado esta história. A maioria dos meus amigos sabem que em 2009 eu e a Paula tivemos um filho, a quem demos o nome de Alexandre Miguel e que nasceu no Hospital da Estefânia no dia 25 de Setembro desse ano.

Era o nosso segundo filho, o João tinha por essa altura três anos. Ainda no período de gestação, quando a Paula foi realizar a amniocentese a médica alertou-nos logo que deveríamos consultar um especialista pois o feto tinha um problema grave a nível cardíaco.

Consultámos então um especialista em cardiologia pediátrica, o Doutor António Macedo na CUF Descobertas que depois de realizado um ecocardiograma fetal nos confirmou o pior dos cenários o Alexandre tinha um problema congénito no coração, que era das situações mais graves. Por essa altura já vivíamos em Santa Cruz, ainda na casa de função atribuída ao comandante de Posto que eram as minhas funções na altura. Recordo-me como se fosse hoje desse dia, depois de termos vindo do hospital deixei a Paula em casa e fui comprar uma garrafa de gás e o meu mundo desabou por completo, num curto trajecto de um quilómetro, lembrou-me de ligar ao meu irmão e de chorar compulsivamente com uma criança sem conseguir parar, o mundo fugiu-me literalmente debaixo dos pés.

O doutor Macedo encaminhou-nos então para um hospital da especialidade, no caso Santa Marta, mais em concreto para a Doutora Mónica Rebelo, um ser humano fantástico, que nos explicou com toda a calma do mundo o que é que o Alexandre tinha em concreto, que era uma situação muito complicada e que apesar de a gestação já ter ultrapassado o tempo limite para a Paula poder abortar a lei abria uma excepção em casos como este e que por isso era uma decisão nossa, mas aconselhou-nos a marcar uma consulta com um dos maiores especialistas mundiais na área, o Professor José Fragata, seguimos o conselho e fomos a uma consulta ao hospital da CUF Infante Santo, explicou-nos que o problema do Alexandre era grave, mas que poderia ter solução sendo sujeito a três cirurgias espaçadas no tempo, nesse mesmo dia colocou-nos a falar com uma rapariga que tinha o mesmo problema e que à mais de vinte anos tinha sido sujeita às referidas intervenções cirúrgicas e estava bem. Depois daquela conversa ficámos mais animados, com uma esperança redobrada e decidimos seguir com a gravidez em frente.

Tudo foi planeado, o Alexandre teria de nascer no Hospital da Estefânia de cesariana e ser de imediato transferido para o Hospital de Santa Marta. Chegado o dia 25 de Setembro a nossa ansiedade era mais que muita, o Alexandre nasceu por volta da uma da tarde, esteve algumas horas nos cuidados intensivos do hospital da Estefânia e logo que houve disponibilidade de uma ambulância do INEM preparada para recém nascidos foi transferido para Santa Marta. Enquanto esteve nos cuidados intensivos da Estefânia na incubadora, ligado a tubos, fios e fiozinhos, estive sempre junto dele, mas com o coração apertado para não me desfazer em lágrimas, até porque havia ali mais pais que não tinham que estar sujeitos ao meu estado emocional. Entretanto quando o Alexandre foi transferido para Santa Marta aproveitei para estar algumas horas com a Paula e depois mais para o final do dia lá fui eu também para Santa Marta.

Quando cheguei a Santa Marta o mesmo cenário, lá estava o Alexandre numa incubadora ligado a uma parafernália de equipamentos e estava a ser acompanhado por uma enfermeira alentejana, que me disse que apenas podia permanecer algum tempo, mas que o Alexandre estava estável. Mas para mim aquela imagem era uma dor insuportável, o meu filho, um ser tão indefeso e vê-lo naquela situação, por isso não fiquei muito tempo. Fui para casa jantar, onde me esperavam a minha cunhada Sandra e o meu cunhado Jó, que estavam a tomar conta do pequeno João.

No sábado, estávamos no meio do jantar, quando recebo uma chamada da Paula para ligar para Santa Marta, pois tinha acontecido algo com o Alexandre, liguei e foi-me dito que o Alexandre havia sofrido uma paragem cardiorrespiratória e tinha sido transferido para a Unidade de Cuidados Intensivos e que naquele momento não me sabiam dizer mais nada. Possa naquela altura é que o meu mundo desabou por completo, sentei-me a chorar nas escadas de casa e qual não é o meu espanto quando o meu pequenino, o meu príncipe João do alto dos seus três aninhos, sentou-se ao meu lado e sem dizer uma palavra, colocou o seu bracinho por cima do meu ombro e abraçou-me

No dia seguinte, lá fui eu logo de manhã para Santa Marta, onde fui recebido pela Doutora Isabel, que me encaminhou para a Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) ao mesmo tempo que me explicava o que havia sucedido com o Alexandre e que naquele momento não me saberia informar que sequelas tinham ficado, nomeadamente a nível cerebral, convidou-me a entrar para a unidade e que poderia permanecer junto do Alexandre, isto enquanto o víamos através de um vidro, a ele e outros tantos recém nascidos e meninos mais crescidos, não aguentei aquela imagem, acobardei-me e disse-lhe que não queria entrar e lá fui ter com a Paula que continuava na Estefânia, contar-lhe o que se estava a passar.

Depois de a colocar ao corrente da situação, ela tratou logo de começar a falar com médicos enfermeiros, dizendo-lhes que queria sair do hospital e estar junto do filho, disseram-lhe que após a cesariana a que havia sido sujeita isso era de todo impossível, mas perante tanta insistência, o médico contrariado lá lhe deu alta no domingo de manhã, quando nem sequer tinham passado quarenta e oito horas sobre a cesariana.

Quis de imediato ir para Santa Marta, fomos outra vez recebidos pela doutora Isabel, que sempre fiquei com a sensação que dormia no hospital, pois estava sempre lá, a qual nos acompanhou à UCI, nesta altura estávamos como sempre tivemos nesta fase difícil das nossas vidas acompanhados dos nossos amigos Marco Santos e Susana. Respaldado pela Paula, quando devia ser o contrário lá consegui entrar na UCI e ficar uns momentos junto do Alexandre.

O ritual a partir deste dia repetiu-se durante 37 dias, passávamos o dia em Santa Marta e ao final da tarde voltávamos para junto do príncipe João, era tão difícil no final do dia dar a atenção que o João necessitava e merecia, mas acho que nunca falhámos neste aspecto.

Durante estes trinta e nove dias de vida o Alexandre foi sujeito a cateterismos, ainda realizou uma das cirurgias previstas, mas com o passar do tempo o seu estado de saúde ia-se agudizando. Um dia de Outubro, já a madrugada ia alta quando recebemos uma chamada de uma enfermeira de Santa Marta a informar-nos que o Alexandre tinha tido uma paragem cardiorrespiratória, que durou perto de uma hora e que os médicos estavam a fazer de tudo para o manter vivo, mas não sabia se seria possível. O Alexandre sobreviveu a mais esta situação, graças à persistência de outro ser humano excepcional, um médico espanhol o doutor Baquero, mas ficou com danos cerebrais irreversíveis. A partir deste dia, eu e a Paula decidimos que durante a noite tiraríamos o som aos telemóveis e caso sucedesse alguma coisa também não poderíamos fazer nada, por isso na manhã do dia seguinte saberíamos se tivesse sucedido alguma coisa.

A partir dai a situação do Alexandre foi-se sempre agudizando, os médicos tiraram-nos qualquer esperança, mas dia após dia a Paula lá estava todo o tempo junto ao Alexandre, eu não me aguentei e arranjava os estratagemas mais cobardes para não estar a assistir aquela agonia, ou demorava muito tempo a estacionar quando chegávamos de manhã, ou então não passava da sala de espera, a Paula pelo contrário aguentou-se sempre como uma heroína sem sair daa cabeceira do nosso príncipe, isto até ao dia 3 de Novembro de 2009, quando um príncipe virou anjo.

Quando acordámos de manhã para seguir a rotina de deixar o João na escola e seguir para o Hospital, vimos mais de uma dezenas de chamadas não atendidas nos telemóveis oriundas do hospital de Santa Marta, ligámos de volta, mas era só para termos a certeza, porque de imediato começamos ambos a chorar adivinhando que o nosso herói não havia resistido mais, o que se confirmou havia falecido nessa madrugada vitima de mais uma paragem cardiorrespiratória.

O nosso príncipe resistiu como um verdadeiro herói, a mãe mostrou-se a mulher coragem que sempre foi, ou melhor, cada dia mostra-se mais corajosa e o pai, que não tinha medo de perseguir bandidos de enfrentar qualquer situação, acobardou-se e paralisou quando a sua família mais necessitava da sua presença.

Esta história é uma homenagem a três pessoas, aos príncipes Alexandre e João e à mãe, mulher, companheira coragem que tenho a sorte de ter junto a mim.

 

 

 

20
Ago19

Desabafos

Paulo Dias

Bem lá voltamos nós à saga dos Blogs, vamos ver se desta vez é que é.

O que vos queria dizer ontem é que vou aproveitar este blog para os meus desabafos e quando falo em desabafos é sobre tudo aquilo que eu tiver vontade de desabafar, com um senão em termos de regulamentos internos da instituição que sirvo com enorme prazer a Guarda Nacional Republicana, que me impedirão de abordar certos temas, apesar de como já disse várias vezes eu sou totalmente apartidário, a única divisa que jurei honrar é “Pela Lei e Pela Grei”, há excepção disso não vejo outras restrições porque não estou condicionado de forma alguma. Falarei sobre temas do quotidiano, sobre mim, sobre a minha doença (nunca como forma de lamento, mas no intuito de ajudar outros a procurar ajuda) e entre essas ajudas estarei eu sempre disponível.

Escrever o que me vai na alma, espero que venha a ser uma ajuda na minha cura, porque uma das minhas necessidades é desabafar e quem me conhece sabe que um dos meus fortes não é de todo a oratória, escrever resulta mais fácil.

Serei com certeza incómodo em alguns temas que irei abordar, mas essa é uma das intenções com a criação deste blog, fomentar o debate saudável e construtivo sobre os mais variados temas, não permitirei de forma alguma o uso de vernáculos, da ofensa pessoal, pois como referi este pretende ser um espaço de critica construtiva e por isso cada um que se quiser pronunciar e o fizer em termos respeitosos é bem vindo. Quero contrariar os emoji e os gostos das redes sociais, quero fomentar como já disse o debate e se olharmos à nossa volta temos tantos assuntos em comum que importa mostrar a nossa opinião. O dia não podia ser melhor para dar impulso a esta minha ideia, vejam o disparate do despacho 7247/2019 de 16 de Agosto de 2019, que veio regulamentar o art.º 12º da Lei 38/2018 de 07 de Agosto e que se refere à autodeterminação da identidade do género e expressão de género e à protecção das características sexuais de cada pessoa, toda a lei é bizarra e satisfaz uma minoria, agora envolver crianças e adolescentes como faz o art.º 12º e seguintes, hoje regulamentado é no mínimo um atentado ao estado de direito, pois como disse hoje um amigo e professor de muitas horas na área do direito, nem a ditadura teve o atrevimento de consagrar de forma expressa o pensamento ideológico, muito menos na forma descara de Lei. Voltarei a este tema, mas sobre isto já hoje me desgastei o suficiente a escrever no meu Facebook, sabem porquê, porque tenho um filho de 13 anos e outro de cinco e não encontro maneira de lhes explicar este absurdo.

 

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