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Desabafos

Desabafos

29
Set19

A minha colocação efetiva

Paulo Dias

Chegou setembro e o dia de ser colocado efetivamente num Posto da GNR como Soldado. Já tínhamos feito as nossas escolhas e eu havia escolhido a Brigada Territorial nº 2. Num dia desse mês que já não me recordo lá me apresentei novamente na Calçada do Combro, para toda a burocracia inerente à colocação e que já tinha ocorrido quando me apresentei para o estágio, com a única diferença de nesta apresentação não estarem apenas militares do meu alistamento, havia militares mais antigos que vinham de outras unidades do dispositivo da Guarda, que seriam os primeiros a escolher a subunidade, Grupo Territorial, onde queriam ser colocados. O processo lá foi decorrendo, até que chegou a minha vez e escolhi o Grupo Territorial de Sintra como já estava há muito tempo tido como certo na minha mente.

Terminada a apresentação na Brigada nº 2, lá fui eu e uma série de camaradas a caminho do Palácio Rainha D. Amélia, situado bem no centro da Vila de Sintra e onde se situavam as instalações do Comando do Grupo Territorial de Sintra e em simultâneo do Destacamento Territorial de Sintra. Outra vez todo o processo burocrático da escolha por antiguidade, chegada a minha vez escolhi de imediato Destacamento Territorial de Sintra e em simultâneo Posto Territorial de Mem Martins, Posto que todos os camaradas mais antigos evitaram nas suas escolhas, dando preferência a Postos do Destacamento Territorial de Oeiras, como Barcarena e Queijas e do Destacamento Territorial de Sintra, os Postos mais apetecíveis eram Sintra e Colares e a evitar na cabeça de quem escolhia, Rio de Mouro e Sintra, pois os mais antigos sabiam que estes últimos eram dos Postos mais trabalhosos do dispositivo da Guarda.

Lá seguimos cada um para o seu destino, o meu já me era familiar, tal era a confiança que iria regressar a Mem Martins, que tinha deixado a minha cama e o meu cacifo com os meus pertences. Comigo para Mem Martins seguiram não sei precisar quantos camaradas, mas perto da dezena, todos do meu alistamento e nenhum que tenha estagiado comigo naquele Posto.

À chegada ao Posto todos foram recebidos como tinha acontecido comigo, ou seja, calorosamente, os que entravam ali pela primeira vez percebia-se pelo seu rosto a desilusão à medida que iam vendo as instalações, que como já vos tinha dito eram além de exíguas, muito mal conservadas, humidades nas paredes, cozinha sem condições, camarata que “gemia” água das paredes, bem um choque para eles, para mim uma realidade já conhecida, mas percebia-se facilmente o desânimo nos seus rostos, mas eu sabia que as condições físicas não iam alterar, mas que tal como me aconteceu a mim, o calor humano, o espirito de camaradagem, aquele espirito de família iriam atenuar esse desânimo inicial.

Lá fomos todos para a sala polivalente, aquela que servia para tudo desde as nossas refeições e momentos de descanso, até à sala de espera para detidos, onde um a um nos fomos apresentando ao Comandante de Posto, sendo que todos eles traziam já as “buzinadelas” nos seus ouvidos, que o Comandante de Posto era alguém intratável, o que não ajudou muito a que se visse algum sinal de animação no rosto daqueles novos camaradas. O Comandante de Posto apresentou-se e traçou as linhas mestras daquele Posto e que se resumiam a poucas palavras, trabalho, muito trabalho, profissionalismo e dedicação. Resta-me acrescentar que a nossa apresentação naquele Posto, significava que outros camaradas que lá conheci durante o estágio e com os quais aprendi imenso, tinham ido para outros locais. O Posto de Mem Martins foi sempre um daqueles Postos de passagem, o que acredito não facilitava o trabalho do Comandante de Posto, que não conseguia ter um efetivo estável.

A partir daí começavam as rotinas que eu já conhecia, mas que iria desempenhar agora num outro papel, que implicava maiores responsabilidades e eu tinha perfeita noção desse facto, até ali eu era basicamente um observador, elaborava expediente para aprender a fazer, agora não, aconteceria que já iria para as ocorrências muitas vezes como comandante da patrulha e com a responsabilidade de decidir, mas era o que tinha escolhido e estava feliz com a minha escolha.

Começaram então os piquetes recheados das mais variadas ocorrências, acidentes, desacatos, roubos, tráfico de estupefacientes, era a altura forte do furto de veículos, nomeadamente de Fiat Uno e Honda Civic, que não raras vezes, mais assiduamente durante o período da noite colocavam as patrulhas do Destacamento de Sintra e das Esquadras da PSP mais próximas, Sintra, Cacém, Queluz, Amadora, numa autêntica roda viva, nomeadamente perseguições a velocidades pouco aconselháveis, numas havia sucesso e detínhamos os meliantes, mas a maior parte das vezes isso não acontecia, aparecendo os carros abandonados nos mais diversos locais da linha de Sintra. Deixem-me confessar que nunca fui muito adepto destas perseguições, que invariavelmente nos levavam ao IC19, via bastante movimentada e onde colocávamos em causa a nossa segurança e a dos outros utentes da via, recordem a história do estágio que “partimos” um carro novo e não saímos feridos por mera sorte, quando talvez só estivéssemos perante uma contraordenação. E o crime de furto de veículo tem uma moldura penal que prevê três anos de prisão, o que me levava a pensar se valia a pena arriscar tanto por um crime com uma moldura penal desfasada da realidade. Efetivamente só estamos a falar do furto de um veículo, mas muitas vezes esse é o veículo de alguém que precisava dele para trabalhar, levar os filhos à escola, etc. e independentemente do valor patrimonial do veículo, o mesmo tinha proprietário e muitas vezes ainda o andava a pagar por prestações. Mas participei em muitas e algumas sem sentido, pois nem estávamos sequer a ver o veículo, íamos atrás do feeling.

Esta foi a altura em que os órgãos de comunicação social começaram a falar do fenómeno dos gangs, quando a artista Lídia Franco foi vítima de um carjaking na CREL, alguns dos suspeitos deste crime eram residentes na zona de ação do Posto de Mem Martins, nomeadamente na urbanização da Tapada das Mercês, uma urbanização inicialmente planeada como um empreendimento de luxo e que terminou num enorme aglomerado populacional, completamente desordenado, para terem uma ideia havia edifícios onde viviam mais de cem condóminos e quando me refiro a frações, que como é fácil de perceber não vivia apenas uma pessoa por fração.

Num à parte deixem-me dizer-vos que naquela altura não existiam e hoje também não existem na minha opinião, grupos que possam ser classificados como gangs, pois não existe um nível de hierarquização e organização que assim os possa classificar. Basicamente eram jovens delinquentes, que se juntavam e forma aleatória, como “diversão” decidiam furtar, um veículo, roubar nos comboios da linha de Sintra, etc. Normalmente com idades compreendidas entre os 16 anos ou menos e os 20 ou 21 anos, altura em que paravam a sua atividade criminosa ou enveredavam por caminhos mais tortuosos e começavam a cometer crimes mais graves como roubos com armas de fogo, tráfico de estupefacientes, etc.

Os piquetes essencialmente os da noite eram bastante solicitados para acorrer a situações de ruido e quando lá chegavam dois militares, deparavam-se com festas onde estavam por vezes dezenas de indivíduos e às quais era difícil por cobro.

No que respeita às patrulhas, eram maioritariamente apeadas e com maior incidência junto à Estação da CP de Algueirão-Mem-Martins, zona onde diariamente circulavam milhares de pessoas e por onde deambulavam muitos toxicodependentes e traficantes de estupefaciente o que criava um sentimento de insegurança. E porque não falar das diárias e célebres patrulhas apeadas 23H0/07H00 à zona da Estação e imediações, onde se situava maioritariamente os estabelecimentos comerciais de Mem Martins, patrulhas estas que ocorriam 365 dias por ano. Recordo-me perfeitamente dos dias frios de Inverno, que gelados e com chuva e sem sitio para nos abrigar-mos, íamos tentar aquecer para junto dos motores das arcas do supermercado “Caroço”, virados para o exterior, na Rua de Fanares, pois por essa altura ainda não existiam em Mem Martins os multibancos no interior das instituições bancárias, recordo-me que o primeiro a surgir foi o do “Montepio Geral” na Estrada de Mem Martins, de Inverno que bem sabia passar uns minutinhos no interior do bendito multibanco. Essas patrulhas apesar da sua eficácia, pois os furtos em estabelecimento, furtos ou roubos naquela zona eram residuais, mas eram de uma dureza atroz, ao final da madrugada já não existia musculo do corpo que não nos doesse.

Outra das ocorrências que recordo que tinha inúmeras solicitações eram as agressões entre conjugues, companheiros, etc., crime que naquela altura não era classificado com violência doméstica, mas sim como ofensas à integridade física, dependendo de queixa, o mesmo será dizer que as denúncias para o Ministério Público deste tipo de crime eram residuais.

O tempo foi passando, continuámos a constituir aquela verdadeira família com membros diferentes, mas com o mesmo espírito, salvo raras exceções e maus profissionais existem em todo o local e profissão, mas a maioria continuava a levantar-se da cama de noite as vezes que fossem necessárias para ajudar a patrulha que estava na rua e precisava de ajuda.

Tornar-se-ia massudo para quem me lê contar história a história com todos os pormenores, estou a dar uma visão mais abrangente de quais eram as vivências do Posto de Mem Martins, até para que alguns percebam hoje o que era a Guarda Nacional Republicana à vinte anos atrás, mas no próximo texto já surgirão algumas histórias mais policiais, pois vou continuar a escrever sobre a minha passagem por Mem Martins, a minha escola, pois é difícil revelar os momentos vividos naquele local em apenas três textos e resumo-me ao essencial, pois se tal não acontecesse só falaria de Mem Martins.

28
Set19

Estágio no Posto de Mem Martins

Paulo Dias

Com o passar dos dias fui-me habituando às rotinas dos diferentes serviços de um Posto Territorial, que variava entre o Piquete, hoje Patrulha às Ocorrências, Patrulhas auto ou apeadas, Prevenção (este serviço hoje já não existe) e Plantão ao Posto (este era o único serviço que permanecia com o horário de 24 horas), hoje Atendimento ao Público.
Ora para aqueles que me leem e não estão familiarizados com estes termos muito próprios da Guarda Nacional Republicana, o Piquete era uma patrulha auto que desenvolvia o seu serviço por um período de 8 horas e que ocorria à quase totalidade das ocorrências na zona de ação do Posto, as patrulhas apeadas ou auto, o seu serviço era baseado no policiamento de proximidade, execução de diligências judiciais e outras e apoio ao Piquete, o Prevenção, serviço que entretanto foi extinto, muito devido à escassez de efectivo, era um serviço que consistia em atender as chamadas telefónicas, transmitir e receber mensagens, que nessa altura eram transmitidas via rádio de comunicações, existindo mesmo a hora da exploração rádio, que era uma hora de manhã e outra à tarde destinada à transmissão das mais variadas mensagens, passado algum tempo as mensagens começaram a ser transmitidas por Fax, ao Prevenção cabia também a missão de preencher o famoso modelo 4, que mais não era que o registo diário da situação de todo o efetivo do Posto (férias, folga, diligência, patrulha, etc.) e ainda ajudar o Plantão, que era o militar que desempenhava o serviço de atendimento ao público, ou seja, cabia-lhe essencialmente receber denúncias de cidadãos que se dirigissem ao Posto, proceder a notificações, encaminhar os cidadãos para outras secções do Posto, casos da secretaria, secção de inquéritos ou Comandante de Posto e ao final da noite elaborar o SITREP, que era o resumo de todas as ocorrências registadas no Posto no período de 24 horas, acidentes, furtos, etc.
Ora tudo isto no Posto de Mem Martins era em proporções mais elevadas que na generalidade dos Postos do restante dispositivo da Guarda, por isso este Posto ser uma verdadeira escola, os números eram impressionantes mesmo tendo em conta os dias de hoje, o número de processos crimes anualmente nunca era inferior aos dois mil, o de acidentes de viação superava em muito os mil, as ocorrências de ruido, distúrbios, o grande problema que existia com o tráfico e consumo de estupefacientes, nomeadamente na zona da Estação de Mem Martins o que gerava uma sensação de insegurança, o furto de interior de veículos e o furto de veículos eram diários, sendo neste último caso os mais “massacrados” os Honda Civic e os Fiat Uno, o furto em estabelecimentos durante a noite e as mais variadas ocorrências, para um efetivo de pouco mais de duas dezenas de militares e estávamos a falar da freguesia mais populosa do concelho de Sintra, por aquela altura os cidadãos recenseados eram mais de 62 000, fazendo desta freguesia em termos de população a maior da Europa.
Por estes números facilmente percebemos o esforço hercúleo que os profissionais daquele Posto tinham que fazer para ocorrer a todas as situações, não havia horas para almoço, jantar ou terminar o serviço, a única hora que não falhava era a do início do serviço. Por isso e como podem imaginar quem estagiava neste Posto só não aprendia se não queria, pois, o serviço era o mais variado, não existia monotonia. Nós os estagiários éramos sempre acompanhados pelos militares mais antigos, no serviço de Piquete acompanhávamos os dois militares de serviço e no de patrulha éramos acompanhados por um militar, sendo que apesar de com menos frequência também desempenhávamos os serviços de Prevenção e Plantão e cheguei a acompanhar dois militares que trabalhavam à civil e a quem carinhosamente os restantes colegas chamavam “arapongas”. Nesta altura na estrutura da Guarda havia o Grupo Especial de Ação e Pesquisa (GEAP) a nível de Brigada e os Núcleos de Investigação Criminal (NIC), sendo que os Postos com maior índice de criminalidade sempre que havia possibilidade colocavam uma patrulha à civil.
Ora como será fácil de perceber, para desempenhar a missão atribuída a um Posto como o de Mem Martins, sem o espírito de camaradagem entre os militares, que constituíam uma família como já vos havia falado antes, era de todo impossível.
Todo o expediente, desde autos de notícia, acidentes, autos de denúncia, eram elaborados nas velhinhas máquinas de escrever “Messa”, cuja fábrica que já havia fechado se situava em Mem Martins, no Posto havia um computador e apenas os militares dos inquéritos estavam autorizados a mexer-lhe. Se às máquinas de escrever juntarmos a exigência do Comandante de Posto na elaboração de expediente, desde a virgula ao ponto final, sendo que quando o expediente lhe chegava para despacho raras não eram as vezes que lhe passava a caneta vermelha da “censura”, o que significava elaborar tudo de novo, modéstia à parte eu sempre fui dos mais felizardos com este Comandante de Posto, mesmo já colocado definitivamente no Posto, não me recordo de ter visto algum expediente elaborado por mim “censurado”. Mas eu só vos peço um pequeno esforço de imaginação, coloquem-se no papel do Plantão que recebia as denúncias e restante expediente na máquina de escrever, no espaço de 24 horas muitas eram as vezes que as denúncias superavam a dezena, a pressão que isto não criava, coloca químicos, impressos na máquina e “bater” tudo o que as pessoas nos relatavam, de vez em quando lá fugia o dedo e tínhamos de recorrer ao corretor, existiam camaradas que stressavam só de perceber que estavam de Plantão, serviço que por ser de 24 horas acontecia apenas uma ou duas vezes por mês.
Durante o estágio e como dormia no Posto embebi um pouco de tudo, percebia quem eram os militares mais profissionais e procurava estar mais tempo com esses para aprender o máximo possível em todas as áreas. Apesar do enorme número de ocorrências, a única peripécia que registo digna de maior registo ou recordação, foi a de um acidente de viação que tive na companhia de um militar dos mais antigos e na qual um Nissan Almera quase novo ficou todo destruído na colisão com um muro, quando perseguíamos um motociclo cujo condutor não havia respeitado a ordem de paragem numa fiscalização de trânsito.
Durante o estágio fui amadurecendo a ideia que era naquele Posto que iria querer ficar colocado, por todas as razões que já invoquei, mas principalmente porque não haveria escola melhor que aquela para uma aprendizagem que me seria útil na carreira que queria fazer na instituição e porque como já disse o espirito de camaradagem era algo de extraordinário, só para vos dar um exemplo, devido à exiguidade das instalações a camarata ficava a poucos metros da central rádio, onde se encontrava o prevenção, sempre que havia alguma ocorrência durante a noite que justificasse a presença de mais do que os dois militares de Piquete, toda a gente se levantava da cama e ia muitas vezes nas suas próprias viaturas auxiliar e se necessário fosse mais que uma vez por noite. Aquele espírito, aquele profissionalismo era a Guarda Nacional Republicana pela qual me apaixonei.

27
Set19

Posto Territorial de Mem Martins

Paulo Dias

Para começar a falar sobre a minha passagem pelo extinto Posto de Mem Martins, importa desde logo referir que o faço com grande emoção, porquê? Porque entre Julho de 1998 altura em que iniciei lá o meu estágio e Abril de 2002, aprendi imenso sobre a Guarda Nacional Republicana, sobre a vida, fomentei fortes laços de camaradagem, lidei com grandes profissionais, desde os mais antigos, o falecido “velho” como carinhosamente o tratávamos, Amândio Rego, com o seu bigode característico, daqueles que enrolam nas pontas e o Jorge Gonçalves, militares de 1977, mas que em 1998 eram tão proactivos como os mais novos do Posto e esse espirito ia-se transmitindo de geração em geração, o que tornava logo à partida aquele um Posto especial, uma família especial. Perguntarão vocês, mas não havia excepções? Claro que sim, como em todo o lado existiam maus profissionais, mas eram tão poucos que eram imediatamente “abafados” e iam para a rua acompanhados pelos verdadeiros profissionais e forçosamente tinham de trabalhar.

Quando me apresentei para estagiar no Posto de Mem Martins, apresentei-me de imediato ao Comandante de Posto, um Primeiro-Sargento de Cavalaria e que personificava a imagem que na altura eu tinha do Sargento da Guarda, bigode, austero na forma de falar com os militares e de escassos sorrisos. Ditou-me logo as regras, era estagiário, estava ali para aprender com os mais velhos, mas também para trabalhar, porque aquele seria dos Postos com mais serviço a nível nacional, de seguida mandou-me ir tirar a farda nº1 e instalar-me.

Logo que saí do gabinete do Comandante de Posto, comecei logo a perceber que aquele Posto tinha algo de especial, as instalações eram exíguas e degradadas, mas todos os militares me iam cumprimentando com gentileza e desejando-me as boas vindas, por isso, eu que sou bastante introvertido senti-me logo mais descontraído, alguns foram-me mostrando o Posto, que de tão exíguo pouco tinha para ver e ajudaram-me a instalar na camarata.

Depois de me instalar fiquei à conversa com os camaradas mais antigos na sala que servia de sala de convívio, de refeições, de televisão, de elaboração de expediente e de espera para os detidos, era polivalente. Fui percebendo que salvo as excepções dos meus amigos Rego e Gonçalves e mais dois ou três militares, para todos os outros aquele era um Posto transitório até que não conseguissem transferência para mais perto dos seus locais de origem, sendo uma grande maioria da região norte do país.

 Falaram-me um pouco de tudo, do muito trabalho, de ocorrências muito complicadas, dos vários bairros sociais, avisaram-me logo que o Comandante de Posto não queria toxicodependentes a vaguear pela estação da CP de Algueirão-Mem Martins, que era bastante austero, mas que estava sempre disposto a ajudar, podíamos ligar de madrugada dez vezes para casa dele, que se ele entendesse que era necessário ia dez vezes ao Posto para ajudar na elaboração de expediente, que era muito rigoroso com a elaboração de qualquer expediente, muito profissional, mas com pouca apetência para as relações humanas, tudo isto eram factos que fui constatando com o tempo.

A minha primeira patrulha foi uma apeada à estação da CP de Algueirão- Mem Martins, no período 07H00/13H00, o meu comandante de patrulha era o “velho”, como carinhosamente o tratávamos, era o senhor Rego, soldado da Guarda desde 1977. Lá iniciámos o giro à hora que a guia de patrulha ordenava, quando chegámos à estação o Rego disse-me para me situar num dos acessos à estação do lado de Mem Martins junto a uma ourivesaria, para ficar ali que ele ia dar uma volta. De vez em quando ele lá passava por mim e perguntava se estava tudo bem, como conhecia os toxicodependentes todos que proliferavam pela estação à espera do traficante para adquirirem a sua dose, estava sempre a pô-los a andar, alguns não era necessário ele dizer nada, assim que o avistavam era um ar que lhes dava.

Essa é uma patrulha que nunca mais esqueço, primeiro porque foi a primeira e depois porque foi com o meu amigo Rego, que acabou por falecer alguns anos depois de estar reformado, já eu estava a Comandar o Posto da Ericeira como Primeiro-Sargento, fui ao funeral fardado para lhe prestar a minha última homenagem, a Guarda que ele serviu durante tantos anos e com as agruras de muitas horas de patrulha, nem se fez representar, depois estavam uma meia dúzia de camaradas reformados e outros amigos e familiares, senti-me triste por ele, pela família e por sermos uma instituição que não honra aqueles que a servem, todos somos descartáveis, experimentem em estar ausentes durante um ano e vejam quantos são os camaradas que vos visitam, ou que vos ligam, ou os Comandantes que vos perguntam como é que estão. Esqueci-me de referir que quando soube do falecimento do Rego informei telefonicamente o Comando Territorial de Lisboa.

Mas esta instituição devia-se sentir-se honrada por grandes profissionais que a serviram e que a servem em determinado momento e que não confundem as relações pessoais com as profissionais, o que demonstra o bom senso e o carácter das pessoas, isto para vos dizer que com todos os defeitos que tinha em termos de relações humanas, o antigo Comandante do Posto da GNR de Mem Martins, também já na reforma, estava presente no funeral do Rego e agradeceu-me ter ido fardado pois no funeral do Rego, pois sentia-se desiludido e decepcionado  pela falta de representação da Guarda na hora de partida de um dos seus, que tinha servido a instituição com brio e profissionalismo. Comportou como um senhor, pois ele e o Rego andavam sempre “à turra e à massa”, trabalharam juntos muitos anos e o Rego não levava nada para casa e aquela sua atitude fez com que eu esquecesse uma falta de educação que já na situação de reserva tinha tido comigo no antigo Tribunal de Sintra, quando lhe estendi a mão para o cumprimentar e ele me deixou de mão estendida, ainda eu era soldado, mas todos erramos e para mim vê-lo ali no funeral do meu amigo Rego, fez-me esquecer tudo isso.

Que a tua alma descanse em paz, camarada e amigo, Alfredo Amândio Rego.

As histórias do Posto de Mem Martins continuarão, algumas, porque foram tantas que teria de criar um blog só para falar de Mem Martins.

26
Set19

Um Príncipe que virou Anjo

Paulo Dias

Hoje é uma data marcante na vida da minha família mais próxima, eu a Paula, o João e o Dinis (que apesar de ainda não ter nascido na altura, foi uma bênção que Deus nos mandou seis anos depois.

O nosso príncipe Alexandre faz hoje dez anos e jamais utilizarei o verbo fazer no passado, pois para nós ele estará sempre aqui presente.

Foi no dia 25 de setembro de 2009, cerca da 13H00 que a Paula deu à luz o Alexandre no Hospital da Estefânia, o parto decorreu sem complicações quer para a Paula quer para o Alexandre, através de cesariana.

Quando a Paula realizou a amniocentese, que a médica nos disse logo para irmos falar com o nosso obstetra, pois o Alexandre tinha um problema cardíaco. Foi o que fiz logo no dia seguinte, fui ao Hospital da CUF Descobertas falar com o obstetra da Paula, Dr. Francisco Madeira, pessoa da nossa máxima confiança e que acompanhou sempre a Paula, naquele dia ele disse-me que ainda era muito prematuro estarmos a afirmar isso. Na consulta seguinte o obstetra, observou a Paula e mandou-nos consultar um cardiologista pediátrico, especificamente o Dr. António Macedo. Foi o que fizemos logo nos dias seguintes num final de tarde e o pior confirmou-se o Dr. António Macedo disse-nos que o Alexandre tinha um problema cardíaco muito grave e encaminhou-nos para a Doutora Mónica Rebelo, cardiologista pediátrica no Hospital de Santa Marta. Nesse dia o meu mundo desabou, tínhamos o João connosco, que por aquela altura tinha três anos, não consegui conter as lágrimas e chorei compulsivamente, a Paula manteve a postura, até porque tínhamos o João connosco, mas eu não consegui.

Passados uns dias lá fomos ter com a Doutora Mónica Rebelo ao Hospital de Santa Marta e encontrámos além de uma grande profissional um ser humano fantástico, que voltou a realizar um ecocardiograma ao coração do Alexandre e confirmou-nos tudo o que ele nos tinha dito. Chamou-nos à atenção para o facto de já ter ultrapassado o período permitido para a interrupção da gravidez, ainda o poderíamos fazer porque a lei abria uma exceção quando se tratasse de casos como este. No entanto disse-nos que havia um professor fantástico e com altos níveis de sucesso em problemas cardíacos complicados naquele Hospital, Professor José Fragata. Aconselhou-nos a marcar uma consulta com ele no Hospital da CUF Infante Santo e ele explicar-nos-ia tudo ao pormenor. Marcámos a consulta no imediato e passados uns dias lá fomos à consulta com o Professor Fragata, atendeu-nos com toda a cordialidade, explicou-nos que era uma das situações mais complicadas e que o bebé tinha de nascer no Hospital da Estefânia e depois ser transferido de imediato para o Hospital de Santa Marta, onde seria sujeito a três cirurgias de forma faseada e conforme fosse avançando na idade, uma de imediato após o nascimento e a última por volta dos quatro anos. Perguntámos-lhe acerca das taxas de sucesso neste tipo de problemas e ele colocou-nos a falar ao telemóvel com uma rapariga do Algarve, que já tinha 20 e poucos anos e tinha precisamente o mesmo problema do Alexandre, os nossos corações encheram-se de esperança.

Bem os dias foram passando, não posso dizer que de forma normal, pois no nosso subconsciente estavam sempre a pairar uma série de questões sobre a hipótese de as coisas correrem mal, mas depois lá vinha outro dia que acreditávamos que tudo correria da melhor forma. Assim chegámos ao dia 25 de Setembro de 2009, a Paula deu entrada no Hospital da Estefânia logo pela manhã, mas o parto por cesariana ocorreu por volta da 13H00. O parto correu bem, a Paula estava bem, o Alexandre tinha nascido e não tinha necessitado de respiração artificial e foi logo encaminhado para a Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais, até que houvesse uma ambulância do INEM disponível preparada para o transporte de recém nascidos, a transferência acabou por se verificar perto das 16H00. Nos cuidados intensivos aconteceu o meu primeiro contacto com o Alexandre, ali estava ele na incubadora e não soubesse eu o que se passava e diria que estava perante o bebé mais saudável do mundo.

Fui ter com a Paula, para ver como estava e escusado será dizer que estava forte como sempre, eu chorava e ela consolava-me, quando havia de ser o contrário, mas pronto é assim, ela é o elo mais forte e resistente dos dois. Ela pediu-me para ir para Santa Marta para junto do Alexandre e foi o que fiz, lá estava ele na incubadora e a parecer o bebé mais forte do mundo, por volta das sete da tarde uma enfermeira, alentejana por coincidência, disse-me que tinha de sair e que voltasse no dia seguinte. Era sábado e lá estava eu logo pela manhã, fui dividindo dia entre visitas ao Alexandre e à Paula, esse dia terminou com mais uma visita ao Alexandre e depois voltei a casa, onde o meu principe João estava aos cuidados dos meus cunhados, Sandra e Jó.

Estávamos a jantar e recebi uma chamada da Paula, para eu entrar em contacto com o Hospital de Santa Marta, pois tinha acontecido algo com o Alexandre. De imediato liguei para Santa Marta e a enfermeira que me atendeu, disse-me que o Alexandre havia sofrido uma paragem cardiorrespiratória e havia sido transferido para a Unidade de Cuidados Intensivos. Outra vez o mundo a desabar e eu só chorava sem conseguir sequer raciocinar e perceber que tinha ali comigo um menino de três anos que não podia ver o pai assim, mas não conseguia parar. Recordo-me como se fosse hoje, que eu estava sentado em casa nas escadas de acesso ao primeiro andar e o João, sim esse príncipe de três anos, mas de uma sensibilidade imensa, sentou-se ao meu lado sem dizer nada e colocou-me o bracito sobre o ombro e ali ficou junto a mim.

No dia seguinte, domingo dia 27 de Setembro, segui de imediato para Santa Marta, onde fui recebido por uma profissional de mão cheia, Doutora Isabel, que me explicou o que havia sucedido e foi comigo aos cuidados intensivos para ver o Alexandre, só consegui ver do exterior através do vidro, chorava compulsivamente e não quis entrar. Segui então para a Estefânia para dar conta do sucedido à Paula, qual não foi minha surpresa, quando me deparei que ela estava quase pronta para abandonar o Hospital, mas isso não seria possível, ela tinha realizado uma cesariana apenas à um dia e meio, mas ela já tinha “moído” tanto o médico que este acedeu a dar-lhe alta.

Mal saímos da Estefânia, seguimos de imediato para Santa Marta acompanhados dos nossos amigos Marco e Susana, que durante todo este processo não nos deixaram um minuto. Chegados a Santa Marta foi de imediato para a Unidade de Cuidados Intensivos para junto do Alexandre e ali se manteve forte como sempre, já eu, apenas nessa tarde tive coragem de entrar.

A partir desse dia e durante os trinta e nove dias seguintes a nossa rotina era sempre a mesma, deixávamos o João no infantário às 08H00 e seguíamos de imediato para Santa Marta, onde permanecíamos o dia todo até termos que voltar para ir buscar o João às 18H00 ao infantário. A Paula mantinha-se forte, já eu não me conseguia controlar emocionalmente e depois quando chegava junto do João tinha de fazer um esforço redobrado para que isso não acontecesse. Os dias foram passando o Alexandre não apresentava melhoras, foi ainda sujeito a um cateterismo e à primeira cirurgia prevista em todo o processo, mas o estado de saúde dele degradava-se a cada dia. No entanto um dia que a esta distância não consigo precisar, subitamente os valores que eram monitorizados 24 sobre 24 horas melhoraram consideravelmente, foi a única vez que o pegámos ao colo, voltámos para casa felicíssimos, achámos que a partir dali seria sempre a melhorar, ele saía à mãe era fortíssimo.

Na madrugada do dia seguinte recebemos uma chamada de Santa Marta, a informar-nos que o Alexandre tinha tido outra paragem cardiorrespiratória e os médicos estavam a tentar reanimá-lo acerca de uma hora.

No dia seguinte a mesma rotina, chegámos a Santa Marta e fomos informados pela Doutora Isabel que tinha sido difícil aguentar o Alexandre com vida, a paragem do coração tinha sido muito prolongada e provavelmente teria provocado danos cerebrais e outros irreversíveis. Se a minha cobardia já não me permitia permanecer durante muito tempo junto ao Alexandre, a partir desse dia então passava o dia na sala de espera a olhar para as paredes e à espera do pior, enquanto a Paula que também precisava de mim, não abandonava a cabeceira do Alexandre por um minuto, por isso todas as desculpas que pedir à Paula e ao Alexandre pela minha postura cobarde, nunca serão as suficientes.

Passados um ou dois dias fomos chamados para uma conversa com a Doutora Fátima Pinto, responsável na altura pela Cardiologia Pediátrica, disse-nos que não havia já muito a fazer pelo Alexandre, que restava esperar pelo momento que Deus o quisesse junto dele. Perguntou-nos se queríamos que fosse batizado, ofereceu-se para falar com o Padre do Hospital e ser ela a madrinha, aceitámos de imediato, apesar de nessa altura eu que sempre fui crente já estar numa fase de revolta para com Deus. Questionava-me várias vezes, que Deus era este que queria levar para junto de si o nosso anjinho.

A partir desse dia decidimos eu e a Paula que durante a noite deixaríamos os telemóveis sem som e longe de nós, sendo que na manhã de 3 de Novembro de 2009, quando acordámos tínhamos mais de uma dezena de chamadas do Hospital de Santa Marta, ligámos de volta, mas não era preciso, as nossas cabeças pensaram de imediato que tinha chegado o dia do nosso príncipe virar anjinho. Devolvemos a chamada e confirmaram-nos aquilo que temíamos o Alexandre havia falecido durante essa madrugada acometido de mais uma paragem cardiorrespiratória.

Fiz um esforço emocional enorme, fui deixar o João ao Infantário e quando voltei a casa, eu e a Paula abraçamo-nos e chorámos juntos, sem dizer uma única palavra. Por sorte tivemos amigos e familiares que nos trataram de toda a burocracia, desde a primeira hora referimos que só queríamos que o Alexandre chegasse à igreja na hora da missa e que o caixão não fosse aberto. A igreja estava repleta de amigos e familiares para se despedirem do nosso anjinho e foi assim que tudo terminou passados 39 dias sobre o nascimento de um anjo, que neste momento estará certamente junto a Deus a olhar por todos nós.

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26
Set19

Formação

Paulo Dias

 

Quando abordei a minha passagem pelo então Agrupamento de Instrução de Portalegre (AIP), mencionei a questão da formação, que naquela altura e salvo raras exceções era de péssima qualidade para preparar militares da Guarda Nacional Republicana. Percebia-se perfeitamente que os Furriéis e 2.º Sargentos que ali estavam obrigados, não preparavam as aulas, muitas vezes eram colocados a ministrar disciplinas de matéria que não dominavam ou onde se sentiam menos à vontade, sendo que o mesmo se verificava com os oficiais, muitos recém saídos da Academia Militar, estavam ali os primeiros Oficiais formados especificamente para a GNR (que hoje são na sua grande maioria Coronéis, como tempo passa), mas que vinham com muita teoria e pouca ou nenhuma prática do serviço territorial e o pior, os militares que fazem parte da casa, que estão ali com a única função de ministrar instrução, são militares completamente desfasados da realidade do terreno, porque estão ali colocados à muitos anos e não fazem um esforço junto das subunidades territoriais para se manterem atualizados.

Naquela altura eu percebia zero de GNR, mas a má preparação dos instrutores eram factos evidentes para aqueles que estivessem mais atentos, o que facilmente fui constatando ao longo do estágio que realizei no hoje extinto Posto Territorial de Mem Martins.

Na GNR, tal como nas outras forças de segurança há factos que não podemos mudar, ou seja, a nossa ação é regulada por Leis e Decretos de Lei e ainda por regulamentos internos, essa é uma evidência, regulamos a nossa acção por aquilo que está escrito no Código Penal, Código de Processo Penal, Código da Estrada, etc., contudo importa que a formação seja ministrada de forma a que o instruendo quando vai para o terreno saiba aplicar a teoria à prática e aqui reside a grande brecha da instrução. Toda a instrução se baseia muito na teoria, sem dar exemplos práticos de situações com a qual o militar da GNR se depara todos os dias. Depois o que acaba por acontecer é que a pressão para tirar a melhor nota possível, provoca que os instruendos mais aplicados “empinem” tudo o que está nos manuais, sem sequer refletirem de que forma ou em que ocasião vão aplicar aquilo no terreno. Existem sempre excepções, aqueles mais curiosos que questionam o instrutor acerca da aplicação prática de determinada matéria, mas essesesclarecimentos ou não são prestados ou ficam muito aquém de uma explicação plausivel. O resultado disto é desastroso, pois os militares chegam ao terreno para estagiar e verificam que estão desfasados da realidade, ou então, sabem que abordaram determinada matéria, mas não sabem a forma de a aplicar em determinada situação prática

E depois o que se verifica, é que para aqueles mais interessados e que tenham a sorte de escolher um Posto com trabalho e com camaradas mais experientes com vontade de os ensinar e um Comandante de Posto atento às lacunas que vai verificando, para corrigir e explicar, o estágio é mais proveitoso do que todo o restante tempo de instrução. Existe infelizmente o contraponto, que são aqueles que vieram à procura de um emprego e não de trabalho e pura e simplesmente não querem aprender, os maus profissionais e que ainda têm a sorte ir estagiar para um Posto, onde as ocorrências são escassas, os camaradas mais antigos não têm muita vontade ou paciência para os ensinar e o Comandante de Posto também está noutra “onda” que não a de aturar estagiários, o que o torna um dos principais responsáveis pela má formação dos militares.

Vou colocar uma questão, qual é a percentagem de reprovação, quer nos alistamentos de Guardas, quer nos restantes cursos de promoção e formação ministrados pela GNR e dentro desse indicice de reprovações que deve ser residual, podiamos ter a curiosidade de ver os motivos das reprovações, uma questão que fica no ar para reflectir. 

A posição que sempre defendi para a formação do curso de Guardas e que não reúne consenso, muito longe disso é de que esta devia ser ministrada por Comandantes de Posto e Destacamento com alguma experiência e que no seu dia a dia dessem prova do seu profissionalismo. No entanto não existem milagres, se queremos acrescentar qualidade à instrução e fazer deslocar as pessoas dos seus locais de conforto, estes têm de ser compensados financeiramente de forma que se sintam reconhecidos pela sua entrega seu profissionalismo. Pois não vamos querer “milagres”, retirar as pessoas dos seus locais de conforto, retirar-lhe os vários subsídios que ajudam a colmatar o parco vencimento base, sem lhes dar condições financeiras atraentes, é uma utopia.

Com esta medida podia ser criada uma “bolsa” de formadores, os quais deviam ser recrutados em todo o território nacional, pois assim seria possível abranger a diferente criminalidade existente, que como é obvio não é a mesma nas zonas do interior mais desertificadas e com a população mais idosa, passando os crimes muitos por burlas a idosos e pessoas que vivem isoladas, com zonas do país onde o crime violento é mais comum, por outras onde o furto em veiculo regista maior incidência, conseguindo-se assim preparar os alistados para as várias realidades e a forma de lidar com as mesmas. Esta “bolsa” de formadores que proponho ir-se-iam alternando nos vários alistamentos e seria alvo de uma avaliação séria.

Quando abordo esta questão, refiro-me a alistamentos que se destinem à essência da Guarda Nacional Republicana, à sua base, o serviço territorial, a segurança de pessoas e bens e não para alistamentos destinados ao GIPS ou a Guardas Florestais.

Além das vantagens que já elenquei, onde se destaca o saber aplicar a teoria em situações práticas, há outro aspecto muito importante, incutir desde o primeiro dia de alistamento a forma de policiamento que está desvirtuada e desfasada daquilo que as populações esperam do militar da GNR. E qual é a forma de policiamento adequada? Nada de inovador, aquilo que na Guarda se faz desde os primórdios da sua existência e que ainda hoje é publicitado na página on-line da GNR, policiamento de proximidade com a população e este tipo de policiamento não se consegue realizar a fazer quilómetros de carro, isso é passear, o policiamneto de proximidade e que aqueles que nos antecederam na Guarda sempre fizeram, é parar em locais diferenciados durante determinado tempo, falar com as pessoas, recolher informação, ao mesmo tempo que temos visibilidade que leva à prevenção, onde podemos efectuar fiscalização de veiculos aleatória de estabelecimentos, mas fazer isto tudo que faz parte da missão da Guarda, dentro do carro não dá meus senhores!

O que está a acontecer e isto já é cair no ridiculo, é que os novos militares chegam ao Posto e parece que as patrulhas apeadas não fazem parte do “cardápio” daquilo que acham que devem saber para receber o seu vencimento no dia 21 e depois isto funciona tipo bola de neve, vai-se transmitindo geracionalmente e qualquer dia não vimos uma patrulha da Guarda Nacional Republicana a realizar policiamneto apeado. Mas os principais responsáveis de que isto se esteja a verificar, somos nós Sargentos que exercemos a função de Comandante de Posto, a nós cabe-nos exigir e essa exigência tem de ser acompanhada e imposta, para que os militares percebam que são pagos para algo muito específico e importante num estado de direito, segurança de pessoas e bens. E esta ideia tem de ser incutida desde o primeiro dia do alistamento.

Eu sei que muitos e com razão vão colocar como os Postos Territoriais estão depauperados de efectivo em detrimento de outras valências, mas isso é politica, no entanto não arranjamos desculpas para que a patrulha às ocorrências seja ela de um Posto ou de um Agrupamento de Postos, não pare durante períodos de tempo em diversos locais, fale com os populares, se mostre, fiscalize e não faça do policiamento de proximidade apenas uma frase muito pomposa na página on-line da Guarda.

É controversa esta minha ideia? É, mas devia ser discutida, pois cada vez mais deparamo-nos com militares da Guarda oriundos dos alistamentos mais mal preparados.

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24
Set19

Pedido aos Amigos

Paulo Dias

Meus amigos, não consigo perceber se estão a acompanhar o meu blog, no caso de não estarem não há qualquer stress, pois cada um tem as suas vidas, muitas vezes tão preenchidas que não lhe permitem ler mesmo que o queiram fazer. Contudo se têm acompanhado, gostava de ter um Feedback vosso, por mensagem privada no Facebook, comentários no próprio blog, porque como expliquei desde o inicio este blog tem duas intenções, a primeira é manter a minha mente ocupada, a outra é perceber se alguns destes textos e outros que tenho escritos e espero vir a escrever, têm algum tipo de interesse em termos de leitura. Porque o meu problema anda sempre à volta do mesmo, eu sou reservado, introvertido, chamem-lhe o que quiserem e não me estou a ver a cometer a loucura de mandar os textos para uma editora, quando os meus próprios amigos, aqueles que eu estimo e quero que sejam os meus críticos mais sinceros que  me vão dando feedback do que estou a escrever.

Por isso peço-vos que caso tenham lido alguma coisa me vão dizendo alguma coisa da forma que vos parecer mais conveniente.

Obrigado, abraços e beijinhos.

 

24
Set19

O meu ingresso na Guarda Nacional Republicana

Paulo Dias

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O meu ingresso na GNR aconteceu no dia 3 de novembro de 1997, no Agrupamento de Instrução de Portalegre (AIP), recordo-me que me apresentei a seguir ao almoço, visto que vinha de Elvas que dista acerca de 56 quilómetros da capital de distrito. Nesse dia chovia copiosamente, quando entrei no AIP foi-me dito para ir estacionar o meu veículo na Tapada, que era uma zona de arborizada e de terreno muito irregular dentro das instalações do AIP, depois de veículo estacionado dirigi-me aos claustros, local onde estava a decorrer toda a parte logística e burocrática, distribuição de fardamento, preenchimento de papelada e encaminhamento para aqueles que durante nove meses seriam os nossos aposentos.

Primeiro choque, eu vinha da Força Aérea habituado a alojamentos com alguma dignidade, no AIP era o oposto, camaratas à pinha, onde não havia sequer espaço para nos movimentarmos e tudo o que era graduado desde o Furriel até ao Oficial gritavam por uma ou nenhuma razão, acho que aquilo que importava era mesmo gritar, por forma a que entendêssemos o que nos esperava nos próximos tempos. Eu que vinha da Força Aérea, quer queiram quer não uma tropa diferente, onde não havia gritos, onde todos desde o soldado ao oficial eram tratados com toda a dignidade, logo nas primeiras horas não me estava de todo a ver naquele filme e passei o resto do dia a tratar de me alojar da melhor forma, mas ao mesmo tempo pensava se aquela teria sido a minha escolha correta, pensamento que me veio à cabeça inúmeras vezes durante esses nove meses.

Por esses anos as incorporações na GNR, não eram o que são hoje, eram incorporações de mil e tal homens e mulheres, pelo que nos juntámos em Portalegre com os camaradas do 1.º Turno de 1997, sendo que muitos dos alistados do meu turno fizeram parte do curso em Aveiro, juntando-se a nós apenas quando os camaradas do 1.º Turno terminaram o curso e foram para os seus locais de estágio.

Nas primeiras semanas em que os camaradas de Aveiro se juntaram a nós em Portalegre, foram vários os que desistiram, pois vinham habituados a outras condições de habitabilidade e de tratamento, sendo que daqueles que desde o princípio estavam em Portalegre também foram alguns que foram desistindo. Eu próprio vou confessar que durante as primeiras semanas, sempre que ia a casa ao fim-de-semana dizia ao meu pai que ia desistir, que aquilo não era forma de tratar ninguém, mas o meu pai com o seu bom senso e porque a vida dele já teria sido pior do que eu e os restantes camaradas estávamos a passar, ia-me pedindo calma, que com o tempo as coisas iam melhorar e ainda bem que segui o seu conselho, porque hoje posso dizer que a GNR é uma paixão, que como todas as paixões tem momentos altos e outros menos bons.

Não tenho grandes recordações de Portalegre, ou melhor, foram tão boas que nunca mais voltei aquela cidade e não tem nada a ver com a cidade, tem a ver com as memórias do AIP, pois à excepção dos laços de camaradagem que fui estabelecendo com vários camaradas, em especial do meu pelotão, o resto não tem descrição e tive a felicidade de já como Sargento nunca ter sido chamado para dar instrução, o que me deixa uma lacuna na minha carreira que ainda gostava de suprir.

Naquele ano no AIP não se vivia um clima de respeito pela hierarquia, vivia-se precisamente o contrário um clima de medo. Como é óbvio não vou referir nomes, mas deste o topo da hierarquia e passando por oficiais, sargentos e cabos e como é óbvio havia exceções felizmente, mas na generalidade privilegiavam os gritos, as praxes e atos pouco dignos do respeito pela condição humana em detrimento de uma formação de qualidade para futuros agentes de segurança. Se as praxes que nos eram dadas com grande frequência serviam para fomentar o espírito de grupo, eu penso de forma precisamente contrária, a maioria das praxes é degradante para a condição humana. A alimentação era péssima e ainda bem que por essa altura não existia ainda a ASAE, porque as condições daquela cozinha eram de uma falta de higiene avassaladora e como o resto das instalações completamente deprimentes.

A formação que era ou pelo deveria ser a função primordial do AIP e salvo raras exceções, não tinha qualquer qualidade, formadores mal formados, alguns falavam de matérias que não dominavam minimamente, que estavam à anos no AIP sem qualquer experiência de terreno e os outros, aqueles que vinham das mais variadas valências da Guarda, estavam ali obrigados durante aqueles meses e isso inevitavelmente refletia-se na instrução, com a agravante que não havia critério nas disciplinas que estes últimos iriam ministrar. Imaginem-me a mim chegar agora ao AIP e colocarem-me a dar trânsito, a vertente da Guarda que eu menos gosto e naquela que me sinto menos à vontade, estaria a preparar aqueles instruendos em condições?

Mas sobre a formação na Guarda irei elaborar um Post. Bem como me viram eu fiquei sem grandes recordações do alistamento como disse logo ao princípio deste texto, além da camaradagem que fomentei com a generalidade dos companheiros de turma e de pelotão, não existem saudades, porque as recordações são na sua generalidade más.

Bem terminado o curso em Portalegre existia um período de estágio nas subunidades territoriais, leia-se Postos Territoriais, que e se a memória não me atraiçoa no meu curso decorreu entre julho e setembro de 1998. As Unidade com mais vagas para estagiar e atendendo ao período de veraneio, eram a extinta Brigada Territorial nº 3, que abrangia Alentejo e Algarve e a Brigada Territorial nº 2, que abrangia toda a área da grande Lisboa.

Por razões óbvias (a Paula) escolhi a Brigada Territorial nº 2. Passados cinco dias sobre o Compromisso de Honra celebrado no AIP, cerimónia que me bateu fundo no coração, pois era o que queria, entrar na GNR e em segundo plano sair do AIP. Passados os cinco dias que nos foram concedidos lá me apresentei com mais perto de duzentos camaradas na Calçada do Combro em Lisboa, sede da Unidade, a partir daí e por ordem de antiguidades éramos chamados e escolhíamos o Posto onde houvesse vaga e pretendêssemos estagiar, eu que não estava muito mal classificado lá fui chamado e perguntei ao Sargento-Chefe que estava a distribuir os lugares, qual era o Posto mais perto do Cacém onde vivia o meu irmão, respondeu-me de imediato Mem Martins e eu acedi, mas vi desde logo um sorriso malicioso na sua cara, logo de seguida percebi que me podia ter dito Mira Sintra ou Rio de Mouro, mais perto do Cacém.

Lá voltei à formatura e mesmo ao meu lado estava um antigo companheiro da Força Aérea e que vivia em Mem Martins, perguntou-me pela minha escolha e de imediato disse-me, “…tu és maluco, aquela terra é só problemas e o Sargento é o diabo…”. Logo se me fez luz acerca daquele sorriso malicioso do Sargento-Chefe, ninguém queria ir para Mem Martins. Terminada aquele cerimonial, lá fomos com destino aos extintos Grupos Territoriais, no meu caso seria Sintra, onde também se situava o Destacamento Territorial, subunidade a nível hierárquico logo acima do Posto. A seguir ao almoço lá me apresentei no Posto de Mem Martins, achava eu que as instalações do AIP eram deprimentes, depois de ver o Posto de Mem Martins passei a achar o AIP um hotel de cinco estrelas, o Posto ficava num rés de chão de um prédio e as instalações eram exíguas e completamente degradadas. Podia ter sido um choque tendo em conta as informações que trazia, juntando às instalações que estavam à minha frente, aquele Comandante de Posto, um Primeiro-Sargento de Cavalaria cuja figura personificava a verdadeira imagem do Sargento da Guarda Nacional Republicana. Mas de imediato me senti em casa, com o calor humano com que os vários estagiários que tinham ido para Mem Martins nos receberam, naquele Posto ainda havia Guardas dos anos setenta, mas salvas raras exceções facilmente percebi que estava perante o verdadeiro espirito de camaradagem, uma verdadeira família, que para mim e para todos os que lá passaram foi uma verdadeira escola, foi uma das escolhas mais acertadas que fiz até hoje, gostei tanto que nas colocações definitivas em Setembro voltei a escolher Mem Martins, aquela era a minha casa e os camaradas na sua grande maioria uma família, foram pois dos anos mais felizes da minha vida.

Mas sobre a minha passagem pelo Posto de Mem Martins vou falar sobre ela num próximo texto.

22
Set19

Eu e o Muro

Paulo Dias

Como disse desde início este é um blog de desabafos, por isso não segue cronologicamente os factos que se foram verificando ao longo da minha vida.

Os últimos exames que tenho feito ultimamente em relação ao meu estado de saúde, têm na sua globalidade sido positivos, quando digo positivos quero dizer que à excepção da parte oftalmológica, que nos últimos exames que estavam ligeiramente piores, a nível neurológico permaneceram como já havia referido pequenas lesões cerebrais, sendo que a maior despareceu por completo, a parte cardíaca está ligeiramente melhor dos exames realizados aquando do internamento, só me falta neste momento avaliar a parte da nefrologia, as análises clinicas mostram ligeiras alterações, mas falta-me realizar a ecografia renal e suprarrenal.

Tudo isto seriam razões mais que suficientes para combater a minha pior doença no momento a depressão, mas mais grave é que eu nunca me senti tão em baixo, sem qualquer sentido de humor, sem vontade de fazer nada mesmo as actividades que me dão prazer, posso-vos confessar que neste momento estou a forçar-me a escrever este texto, pois caso contrário já estaria na cama, a prova que estou a escrever forçado por mim próprio é que as palavras não fluem. Este sentir que a depressão e por muito que eu recue para tomar balanço para derrubar esse maldito muro, estou a sentir que não estou a conseguir e isso mexe com a minha ansiedade e o meu stress e por consequência com a minha tensão arterial que anda aos pulos durante vários dias, entre o muito baixo e muito alto, o que não deixa de ser preocupante.

Existem razões aparentes para este recuo? Não consigo explicar, ou melhor, quando saí do Hospital o psiquiatra deu-me sete meses para debelar a depressão, numa das últimas consultas que tivemos falou-me que esse prazo seria de um a dois anos. Eu não sou psicólogo, nem psiquiatra, mas sou eu que estou a viver a doença, penso que enquanto eu não conseguir assentar ideias de uma vida na minha cabeça, não haverá comprimidos para a depressão que me ajudem. Eu faço o mea culpa, porque o problema é que eu estou junto do psicólogo profissional preparado para ajudar a assentar as tais ideias e faço o que sempre fiz, refugio-me nos meus silêncios, pois para mim é tudo mais fácil se for escrito, ou seja, sou um óptimo ouvinte mas tenho problemas com a oralidade que vêm desde a infância e nunca melhoraram. Para mim a solução é alguém que me consiga pôr a falar, chorar, fazer explodir todas as minhas emoções, pois caso isto não aconteça tenho receio de entrar numa espiral cada vez mais negativa e eu não quero expor aqueles que amo a tal situação, tudo menos isso, pois já sofreram o bastante.

Eu já mudei a medicação da depressão não sei quantas vezes, com uma entro numa espiral de sonhos que não me deixam descansar, com a actual vieram as insónias e depois ando há bem mais de um mês, talvez mais perto dos dois com uma dor de cabeça que me faz companhia o dia todo.

Não sei se o que peço é muito, mas o que eu quero neste momento é estar estável, estar bem comigo mesmo e proporcionar alegria aqueles que amo, porque sem eles acreditem que nem eu sei o que já teria acontecido.

Primeiro tolerei, agora aborrece-me solenemente, que as pessoas me andem sempre a dizer, ah e tal isso é a tua cabeça, não é necessário que me recordem esse facto eu tenho consciência disso mesmo, mas eu não tenho forma de abrir a cabeça e mudar o chip e também não me venham dizer que é uma questão de lutar contra a doença, pois ninguém imagina o quanto tenho lutado, mas de um momento ao outro e muitas vezes sem eu próprio perceber porquê, lá estou eu outra vez prostrado no “tapete”.

Amanhã vou explicar uma nova psicóloga no Hospital das Forças Armadas, que me foi recomendado por uma excelente médica e um ser humano fantástico, daqueles com quem ganhas empatia desde o primeiro momento e volto a frisar que o problema sou eu e os meus silêncios e não o psicólogo que me tem seguido, mas eu preciso encontrar aquela pessoa que me dê o clique e me ponha a falar, mas a falar desde a minha infância, porque a minha depressão estava como que escondida desde essa altura e eu com alguns automatismos, normalmente envolvendo-me ainda mais com a minha profissão e com todo o suporte familiar que sempre tive por parte da mulher de uma vida, nunca é demais frisar o seu nome, Paula Dias, ia conseguindo camuflar a doença, até que os acontecimentos de Agosto de 2018 vieram aflorar tudo o que andava escondido pelo menos desde os meus 14 anos com a morte da minha mãe.

Com os desabafos que irei aqui fazendo acerca dos meus quarenta e cinco anos de vida, alguns pensarão que já passaram por acontecimentos mais traumáticos, ou conhecem alguém que passou por coisas bem piores e reagiu sempre com muita força, mas volto a frisar, as nossas cabeças não reagem de igual forma sobre acontecimentos negativos, sou mais fraco, talvez, mas se houvesse uma loja que vendesse chipes de pensamento positivo eu já tinha comprado uma meia dúzia.

Desculpem um texto com pouca fluidez, talvez até de uma escrita muito sem nexo, mas como vos disse no inicio, senti-me obrigado a escrever, é esta tentativa de empurrar o muro, mas que se está a revelar hercúlea, pois o muro além de não se derrubar, parece que me está a ganhar espaço.

20
Set19

Serviço Militar ou Serviço Cívico

Paulo Dias

No desabafo anterior falei do serviço militar, em especial da minha passagem pelo mesmo, no entanto gostaria de voltar a este tema de outro prisma, recordo que o serviço militar obrigatório foi extinto em 2004.

A minha opinião inicial, vai no sentido que se trata uma medida positiva e no essencial continuo a achar o mesmo, porque existem miúdos que não se identificam de forma alguma com o serviço militar, tiveram um percurso escolar irrepreensível, aspiram entrar na faculdade ou no mercado de trabalho e o serviço militar surge numa altura decisiva da vida destes jovens e alguns meses de interregno para cumprir este serviço, pode tornar-se prejudicial e até contraproducente.

No entanto na minha mente surgiu uma nuance que entra em contradição sobre aquilo que tenho estado a afirmar e prende-se por um lado com o déficit de efectivos que os três ramos das Forças Armadas enfrentam e por outro com aqueles jovens que andam na escola até aos 18 anos, porque a lei assim o obriga, mas sem qualquer tipo de aproveitamento, que depois são enviados para cursos profissionais pagos pelo Instituto Português do Emprego e Formação Profissional, onde são pagos, têm direito a transporte gratuito e para uma grande maioria, esses cursos não passam de passatempo como foi o seu percurso escolar, com a agravante que muitos destes cursos são ministrados por empresas de formação pagas, muitas delas não oferecem qualquer tipo de credibilidade, que não controlam estes jovens convenientemente e no fim do curso à grande maioria é oferecido um diploma ao qual as empresas não dão qualquer credibilidade, porque muitos deste jovens estagiam nessas mesmas empresas e como se diz na minha terra “ficam logo apresentados”.

Há alguns anos a esta parte venho defendendo e cada vez com mais convicção, que jovens que não tivessem aproveitamento escolar, seriam obrigados a cumprir o serviço militar obrigatório, onde lhe seriam ministrados os mais diversos cursos, primeiro porque as Forças Armadas precisam da mais variada mão de obra especializada, carpinteiros, informáticos, serralheiros, mecânicos, etc., ou seja, estes cursos seriam ministrados nas Forças Armadas, mesmo com a necessidade de recrutar nalgumas áreas formadores civis. Cumpririam a sempre benéfica recruta e depois entrariam numa área de especialização, depois de especializados seria estabelecido um período de seis anos, onde seriam remunerados e ao mesmo tempo “pagariam” com esses anos obrigatórios o curso que lhes foi ministrado, terminado o contrato escolheriam o seu caminho, ou concorriam aos quadros caso houvesse essa possibilidade ou seguiriam para o mercado de trabalho da vida civil.

Porque defendo esta posição, porque muitos dos casos de insucesso escolar destes jovens passa em grande parte por questões de indisciplina, famílias disfuncionais, com casos eternos nas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, Tribunais de Família e Menores, índices elevados de criminalidade e com esta posição que defendo, julgo que os jovens e as famílias ficariam a ganhar, a sociedade e o ambiente escolar também, com factores tão simples que o serviço militar incute, a disciplina e o espirito de camaradagem, estes dois aspectos fariam toda a diferença e evitariam que muitos destes jovens enveredassem por caminhos desviantes como a criminalidade, consumo de estupefacientes e álcool, etc.

Mas para vos ser sincero esta solução é uma utopia, que na minha opinião nunca se irá verificar, pois existe no nosso panorama político uma ala que seria certamente contra esta medida, preferem ensinar os jovens e outros menos jovens a pintar grafitis em edifícios públicos.

19
Set19

Serviço Militar

Paulo Dias

Entrei para o serviço militar em 1993 quando tinha completado 19 anos, como voluntário na Força Aérea Portuguesa. Escolhi uma especialidade que não sei se ainda existirá, pelo menos com a mesma designação Secretariado e Apoio dos Serviços. Completei a recruta e o curso de especialização no Centro de Formação Militar e Técnica (CMTFA) da Força Aérea, que se situa na localidade da OTA no concelho de Alenquer.

Local onde permaneci cerca de oito meses entre a recruta e o curso de especialização como Cabo Especialista, foi um curso de alguma forma especial, pois era o último em que os paraquedistas iam pertencer à Força Aérea, transitando a partir dai para o Exército. Como disse anteriormente e desde a minha entrada na Força Aérea tinha uma ideia preformada, completava o meu tempo de contrato, que era de três anos e depois concorria à Guarda Nacional Republicana.

Durante a minha permanência na OTA não tenho grandes aventuras para contar, a Força Aérea era por aquela altura e julgo que assim continua uma força militar diferente, existia muito mais abertura, não existia aquele regime militarista como por exemplo me contavam alguns amigos do exército, foi um tempo muito soft. A principal aventura nem tem muito a ver com o serviço militar em si, no penúltimo dia de curso decidimos ir jantar fora, no entanto tinha-nos sido imposto ir vir num autocarro que o CMTFA nos disponibilizaria. Bem mas claro que isso não aconteceu, fomos efectivamente de autocarro, mas depois lá nos organizámos e a seguir ao jantar quase todos fomos para uma discoteca que julgo que ficava na localidade do Cartaxo e que se chamava “Horta da Fonte”. Bem eu com os dois melhores amigos que fiz no serviço militar, um portalegrense de nome Pedro Cordas e um natural da Chamusca, Luís Sequeira lá engendrámos um esquema, o qual consistia em o Sequeira pedir dispensa na tarde do jantar com a desculpa de tratar de um qualquer assunto na sua terra e já ficávamos com o seu Renault 5 disponível para ir vir da famosa “Horta da Fonte”. Claro que nada disto resultou, efectivamente fomos os três para a discoteca no carro do Sequeira, mas depois na discoteca eu e o Cordas e uma grande parte do curso bebemos uns copos a mais, o Sequeira que não era de beber cansou-se de esperar por nós e lá ficámos nós apeados.

Ás cinco e tal da manhã lá fomos à procura de uma forma de voltar à OTA, apanhámos um comboio regional num apeadeiro de uma terra que já nem recordo o nome até Vila Franca de Xira e daí seguimos em vários táxis para a OTA. O dilema agora seria entrar no Centro de Formação sem sermos detectados pelo oficial de dia, que era ao mesmo tempo o responsável pelo curso e quem nos tinha arranjado o autocarro com as condições atrás descritas, bem lá contámos com a conivência dos militares da Polícia Aérea de serviço à porta de armas aquela hora. A parte mais engraçada vem na formatura dessa manhã, era o referido Capitão a perguntar um a um como é que tinha voltado para o Centro de Formação e todos respondiam, “…eu vim no carro do Sequeira…” a mesma resposta já ia para aí nos vinte, quando o Capitão se vira para a formatura e a fazer um esforço para não se rir, “…bem vamos lá saber se o carro do Sequeira é efectivamente um carro ou não será antes um autocarro?…”, claro que esta pergunta provocou inevitavelmente uma gargalhada geral na formatura, por isso é que eu digo que a Força Aérea é uma tropa diferente, não sei se noutro ramo das Forças Armadas esta ousadia não teria tido outras consequências.

Bem chegou então a altura das colocações, eu o Sequeira e o Cordas tínhamos combinado ficar juntos numa basse perto de Lisboa, o que não seria muito complicado tendo em conta as nossas classificações, na minha vez de escolher, diz-me o referido Capitão, você vai como adido para a Base do Lumiar e vai ser colocado no Supremo Tribunal Militar, e eu até hoje não sei o motivo de não me ter sido dada hipótese de escolher tal como todos os outros, bem mas como havia alguns lugares na Base do Lumiar, antigo Hospital da Força Aérea e hoje Hospital das Forças Armadas, o Sequeira e o Cordas escolheram a Base do Lumiar, como eu ia lá dormir, os três da vida airada continuávamos juntos.

Bem colocado no Supremo Tribunal Militar, tinha todos os dias de manhã apanhar um autocarro para o metro do Campo Grande, daí até ao Martim Moniz e depois o elétrico 28 até junto do Panteão Nacional e daí seguia a pé até ao Campo de Santa Clara, local onde se situava os três tribunais territoriais e o Supremo Tribunal Militar. Aí passei a desempenhar funções idênticas às de oficial de justiça, ou seja, trabalhava directamente com um Coronel do Exército que era o Promotor de Justiça o equivalente ao Procurador Adjunto nos Tribunais Civis. O colectivo do Supremo Tribunal era composto por oficiais generais dos três ramos e dois juízes conselheiros civis, sendo que o cargo de Presidente do Supremo Tribunal nessa altura era ocupado pelo General do Exército, Almeida Bruno, que como Presidente do Tribunal tinha direito à atribuição da quarta estrela, a qual só era atribuída aos chefes de Estado Maior dos Três ramos das Forças Armadas e ao Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas. Bem em resumo que vos posso dizer é que tive aquilo a que se chama na gíria “uma tropa santa”.

O pior de tudo isto eram as deslocações para o Tribunal de manhã e o regresso à Base ao final da tarde, aquilo era muita agitação para um alentejano, pior que isso só quando não conseguia apanhar o comboio mais cedo que havia para Elvas em Santa Apolónia e tinha de apanhar o das 17H00, com a mudança de comboio no Entroncamento, chegava a Elvas por volta das cinco e tal da manhã, não havendo transportes, a solução era ir de verão ou inverno a pé até casa, uma boa meia dúzia de quilómetros.

O melhor que me aconteceu no serviço militar foi conhecer a mulher da minha vida, a minha esposa, que prestava serviço no Estado Maior da Força Aérea, mas também pernoitava na base do Lumiar. Lembro-me também a primeira vez que a vi, um dia estava eu e o Cordas à conversa na entrada da camarata masculina, quando começaram a chegar os vários autocarros que vinham do Estado Maior. Há coincidências felizes, o meu olhar fixou-se logo naquela que havia de ser a minha namorada e futura esposa, isto estávamos no ano de 1994. Bem introvertido como sou, comecei a magicar a maneira de chegar à conversa com ela, pois era difícil cruzarmo-nos, bem mas através do Cordas e de uma amiga em comum a Lurdes que estava também colocada na base do Lumiar, lá nos fomos aproximando. A primeira vez que saímos juntos, recordo-me que foi numa sexta-feira para um bar em Santos que tinha música ao vivo e do qual não recordo o nome, nesse bar e introvertido como sou e era na altura, a primeira vez que tentei meter conversa com ela, falou para mim de um modo que mais parecia querer bater-me, escusado será dizer que nessa noite não abri mais a boca. Bem mas mais umas saídas em grupo, sempre com a Lurdes como “facilitadora” lá começamos a namorar, ainda durante esse ano de 1994, mas fui logo avisado, “…olha que eu só estou aqui com um objectivo, terminar o meu curso e nada se vai colocar no meu caminho…”, a Paula estava a estudar matemática na Faculdade de Ciências em Lisboa. Mas tivemos um namoro bastante normal, aos fins de semana quando ficávamos em Lisboa, gostávamos muito de ir a um bar que ficava ali para os lados da Av. Estados Unidos da América, que se chamava “Templários” e tinha sempre música ao vivo, irmos à última sessão de cinema no Monumental ou então às Amoreiras, fazíamos sempre os trajectos de transportes públicos e a pé e nunca tivemos um único problema, à excepção da uma vez que fomos para a praia para Carcavelos e alguém fez o favor de nos deixar mais leves, sem carteiras, mas não me esqueço de termos ido à esquadra de Carcavelos e o Chefe que estava de serviço desvalorizou o nosso caso, para ele era mais um furto de que teria que receber queixa e o agente que estava à porta, daqueles policias já com alguma idade, uma grande bigodaça e cara de mau e quando nós íamos a sair da esquadra perguntou-nos como é que íamos voltar sem dinheiro, dissemos que não fazíamos ideia e ele emprestou-nos quinhentos escudos na altura, nunca me esqueci desse gesto, foi um ensinamento para a vida e para a minha futura profissão.

Bem lá fomos namorando ao sabor do curso dela e aqui continuamos hoje 25 anos depois.

Bem, quanto a mim sabia o Código de Justiça Militar de trás para a frente e da frente para trás, muitas vezes já sabia a acusação que o Promotor de Justiça ia fazer para determinado crime, nomeadamente para aqueles mais corriqueiros como a deserção, foi um tempo bem passado e onde tirei alguns ensinamentos para a minha vida futura.

Lá chegou então o ano de 1997, nomeadamente o mês de Novembro, já tinha feito as provas para a Guarda Nacional Republicana e sabia que estava apurado e que a incorporação ocorreria no dia 5 de Novembro. Foi tudo muito rápido, fiz o espólio na Base do Lumiar no dia 2 de Novembro uma sexta-feira e na segunda-feira seguinte, dia 5 de Novembro entrei nesta nobre instituição.

Perto de casa, Elvas, mas longe de Lisboa e do meu amor, mas quando a coisa bate forte nada nos separa e a prova disso somos nós, ou a Paula vinha passar os fins de semana a Elvas, ou eu ia ter com ela a Lisboa e íamos para casa dos meus sogros.

Por isso meus queridos amigos, como podem ver a maior aventura da minha vida militar foi ter conhecido a minha esposa, de resto nada daquelas aventuras épicas que alguns passaram no serviço militar.

Ah! Hoje não há fotografia, primeiro porque sou fotogénico e detesto fotografias e segundo porque por aquela altura não estávamos na era do telemóvel, deixo-vos uma música que ouvíamos muitas vezes no bar “Templários”, “Jardins Proibidos” de Paulo Gonzo, era a nossa música.

 

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