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Desabafos

Desabafos

26
Out19

A dificuldade em dizer não!

Paulo Dias

A propósito de um texto de Mia Couto que vi reproduzido nas redes sociais e o qual acabei por partilhar, porque achei o texto fantástico e além de me rever no papel de pai em muitas das coisas que Mia Couto refere, fez-me recordar a minha infância, adolescência e juventude.

Já escrevi sobre essas fases da minha vida, mas Mia Couto obrigou-me com o seu texto que considero sublime, pela maneira como descreve de uma forma clara, como hoje os filhos cujos pais têm mais de trinta anos, têm tudo aquilo que querem por muito supérfluo que possa ser, nem que para isso os pais passem dificuldades para lhes proporcionarem tudo o que desejam. Eu enquanto pai revi-me em muitas daquilo que Mia Couto escreve e isso fez-me recuar muitos anos no tempo e perceber as diferenças, exercício muito simples no que a coisas materiais e supérfluas diz respeito, pois como já referi muitas vezes não me recordo de na infância ter brinquedos novos, mas eu não era caso único, era algo comum à generalidade dos meus amigos de infância, nunca tive uma bicicleta nova, a primeira vez que vi o mar tinha quinze anos e não foi de férias com os meus pais, porque essas nunca existiram, até porque a minha primeira visita ao mar aconteceu já depois da morte da minha mãe. Por isso no que a brinquedos e a férias diz respeito estamos conversados, os meus filhos têm brinquedos a mais, alguns com os quais brincam apenas no primeiro dia, no que a férias diz respeito e Graças a Deus tenho a felicidade de lhes proporcionar férias em família desde o primeiro ano das suas vidas, podíamos ir aos gadgets, mas nesse aspecto então nem ponto de comparação existe, na minha infância e adolescência começaram a aparecer os primeiros jogos electrónicos, eu via-os nas montras das lojas da especialidade, hoje o Dinis com cinco anos mexe em jogos electrónicos, tablets e afins de forma que eu nem me atrevo a tentar acompanhá-lo na destreza, o João com treze então é de outro “planeta” no que a novas tecnologias diz respeito em relação a mim e já me tira dúvidas de informática, por isso como vêm este foi um raciocínio de comparação muito simples.

Mas este exercício de memória fez-me pensar que essas fases da minha vida foram bastante atribuladas devido à morte da minha mãe, à doença do meu pai, mas nunca na minha casa passei fome, o meu pai um humilde serralheiro, que tinha uma pequena oficina onde trabalhava sozinho e por vezes o trabalho escasseava, a minha mãe doméstica, no entanto não sei como geriam as finanças, certo é que apesar da muita medicação que a minha mãe tomava todos os dias e que devia ser uma conta avultada todos os meses na farmácia, o pouco dinheiro que o meu pai ganhava permitiu mesmo assim que nunca nos faltasse o comer, a medicação da minha mãe e não houvesse sequer uma divida e sem esquecer os manuais e o material escolar, tirando isto não me recordo de outros gastos, muito menos em coisas supérfluas.

Mia Couto fala e bem que hoje ao proporcionarmos tudo aos nossos filhos, eles queimem etapas do seu crescimento de forma pouco saudável, porque não estão habituados a ouvir o não, quer seja para o telemóvel topo de gama, para o computador, as consolas de jogos, os concertos, etc., sendo que a determinada altura das nossas vidas e por contingências financeiras os pais vêem-se forçados a dizer não e isto pode ser muito problemático em diversos aspectos para os nossos filhos, fazer deles uns frustrados, a tal geração rasca (apesar de não saber bem o que isso é) e bem mais preocupante a saúde mental dos mesmos. Para que tenham ideia, depois da minha doença e devido à depressão comecei a ser acompanhado em ambulatório na psiquiatria do Hospital de Santa Maria, as minhas consultas coincidiam sempre com o final da tarde e o que mais me afligia era que por essa hora a maior parte dos doentes eram adolescentes e várias vezes comentei com a minha esposa, que tinha de sair dali porque aquela imagem de ver gente tão jovem naquele local me perturbava ainda mais, não querendo eu afirmar que todos que ali estavam era pelo estilo de vida, acredito até pelas conversas que ia ouvindo em surdina por parte dos familiares que os acompanhavam, que uma grande maioria estava doente pelo estilo de vida que levavam e para que os progenitores muito terão contribuído com toda a certeza.

 Eu tenho a noção que queimei muitas etapas do meu crescimento, quer devido à morte prematura da minha mãe, quer à doença posterior do meu pai e talvez tenha queimado essas etapas de forma menos feliz e isso traz-me principalmente nesta altura da minha vida recordações traumáticas, no entanto no que a questões de objectos supérfluos que nunca tive, a um estilo de vida muito humilde onde o dinheiro era contado ao escudo, para como já disse não faltar a alimentação, os medicamentos da minha mãe e uma ou outra despesa inopinada que pudesse aparecer, aí queimei as etapas todas, tal como aconteceu com a maioria das pessoas da minha geração e acredito que essas dificuldades fizeram de nós pessoas mais bem preparadas para superar os obstáculos da vida adulta, da entrada no mercado de trabalho, mas ao mesmo tempo terão contribuído de forma negativa para a educação que hoje proporcionamos aos nossos filhos, mostrando dificuldade em dizer que não a qualquer pedido que nos façam, existindo pais que abdicam da sua vida pessoal para que nunca tenham de dizer que não e isso é assustador.

Vou reproduzir o texto de Mia Couto que me parece um importante documento de reflexão para os tempos conturbados que atravessamos em termos sociais.

 

UM DIA ISTO TINHA QUE ACONTECER (por Mia Couto)

 

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.

A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.

Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.

Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.

Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?

Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!

Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

 

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.

Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.

A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.

Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

 

25
Out19

Despacito, passito a passito!

Paulo Dias

Quando temos um problema do foro psicológico/psiquiátrico, os dias não são todos iguais, ou para ser mais preciso, é necessário aprender a viver uma hora de cada vez, esta questão é muito importante, pois a nosso organismo, a nossa psique tem variações de humor que provocam maior ou menor bem estar físico ao longo dos dias e este processo é muito complicado de compreender e de aprender a lidar com ele, porque várias vezes nos perguntamos, mas que raio de manhã levantei-me bem disposto, com energia e agora de tarde estou novamente cabisbaixo, com vontade de estar sossegado no meu canto e não arranjamos explicação plausível para essas alterações.

Há imensos dias que não ia caminhar, que é uma actividade que me liberta um pouco a mente, junto ao mar e sentir aquele cheiro característico do mar que só encontro aqui em Santa Cruz, mas por razões diversas não efectuava esta caminhada à uns bons dias, tenho andado meio engripado e sem muita vontade para esta actividade. Mas hoje levantei-me bem-disposto e como é preciso “derrubar o muro” e essa vontade está dentro de mim, disse para mim mesmo, ora vamos lá caminhar um pouco neste dia solarengo, ao qual não falta este ventinho típico de Santa Cruz e lá fui. Caminhei cerca de oito quilómetros, sendo que o último quilómetro aproximadamente foi feito em passo de corrida, o que não acontecia desde Julho de 2018. Ao principio deste quilómetro final em passo de corrida, senti-me estranho, a forma de correr, parecia que o meu corpo estava completamente descoordenado, que tinha desaprendido de correr, mas lá fiz e senti-me bem, cheguei a casa e a tensão arterial estava óptima, o que me deixou bastante feliz.

Apenas para concluir, a tal vontade de “destruir este muro” está sempre cá, mas há alturas que por mais que queira o corpo e a mente não respondem a este desejo e fico de rastos, por isso o importante é desfrutar os momentos bons e não pensar muito no que vai suceder daqui a uma hora, ou um dia e esse reconheço-o tem sido o meu principal problema, o querer voltar a retomar todas as rotinas que tinha antes da doença, quer pessoais quer profissionais, quanto a estas últimas já tentei dar um passo maior que a perna e correu muito mal, fez-me ficar pior do que estava. Eu achei que a minha recuperação total iria acontecer rapidamente, incluindo a depressão, que seria apenas a minha vontade, cheguei a iludir-me que mais uns meses estaria pronto a retomar a actividade  operacional, que tudo dependeria do meu querer, e o que aconteceu foi que aos poucos fui-me apercebendo que as coisas não funcionam assim, que por muito que queiramos este é um processo difícil de superar e isso foi aumentando exponencialmente os meus níveis de ansiedade, que depois se vêm repercutir em todo este processo de recuperação e foi a ansiedade uma das responsáveis por tudo aquilo que me aconteceu, pelo que tenho de aprender a controlá-la.

Em resumo e tal como dizem nuestros hermanos do outro lado da fronteira, eu tenho de aprender a conduzir a minha recuperação “despacito, passito a passito”.

24
Out19

Depressão

Paulo Dias

É verdade, nos últimos tempos não tenho aparecido muito, parei definitivamente com os desabafos nas redes sociais, uma constipação que teima em não passar também não tem permitido que dê as minhas caminhadas e tenho evitado estar em locais onde possa encontrar pessoas conhecidas. Porquê? Porque não me apetece estar sempre a ouvir a mesma expressão, “…estás com óptimo aspecto…”, acredito que sim e fico feliz por isso, que acontece em grande parte devido a uma das mulheres da minha vida, a minha esposa.

Mas cansa ouvir repetidamente a mesma expressão, apesar de saber que a maior parte das pessoas o faz com a melhor das intenções, sabendo eu a luta terrível que estou a travar contra uma maldita doença silenciosa, que não dá tosse, não espirro, não tenho qualquer tipo de sintoma visível ou palpável, por isso as pessoas referem-se ao meu bom aspecto, como quem quer dizer, ainda bem que foi um susto e que agora está tudo bem consigo e não percebem que estou neste momento a travar com toda a certeza maior luta da minha vida, por irónico que isso possa parecer uma doença assintomática, mas posso hoje testemunhar terrível.

Agora que tenho ajuda especializada, percebo que a minha depressão não vem de Agosto de 2018 quando tive aquele grave problema de saúde, vem de muitos anos atrás, segundo os clínicos desde a morte da minha mãe quando tinha catorze anos, só que eu ia combatendo esses períodos depressivos com o trabalho, agarrava-me de forma tão intensa ao trabalho que “camuflava” a depressão. O cansaço físico e psicológico que muitas vezes senti inexplicavelmente, os pensamentos negativos, catastróficos, não eram mais que a depressão a manifestar-se. A encefalopatia hipertensiva veio apenas despoletar esses sinais que fui acumulando ao longo de de vários anos e em que fui escondendo um problema grave, que agora se manifestou com a força de um “monstro”, com o qual tenho tentado lutar com todas as minhas forças, mas que me vem debilitando física e psicologicamente e ao qual não estou a conseguir ganhar vantagem. E acreditem que ao longo de toda a minha vida, já travei imensas batalhas, quer a nível pessoal, quer profissional, umas vezes perdi, mas foram mais aquelas em que ganhei, mas nenhuma se mostrou tão complicada como esta.

Hoje estou aqui a fazer este desabafo, porque para muita gente a depressão são “frescuras” de gente que não tem mais com que se preocupar, eu até já ouvi uma médica nefrologista dizer, que a depressão não existe é tudo a nossa cabeça. Exemplo melhor do quanto se negligencia esta doença é que o estado português apenas a vai reconhecer para a tabela de incapacidades em 2023 e depois de a isso ter sido obrigado pela Organização Mundial de Saúde. Mas essa é talvez a parte menos importante, este meu relato apenas tem o intuito de alertar para que não se escondam se sentirem que não estão bem, é importante que tenham alguém com quem desabafar, o suporte familiar é muito importante, no meu caso apenas a minha esposa, o meu irmão, um ou dois amigos e os clínicos que me acompanham têm a uma perceção aproximada daquilo porque estou a passar.

Sim não caiam no mesmo erro que eu caí, trazer os meus desabafos para as redes sociais, só me estava a expor e não resolvia o meu problema, é verdade desabafava e durante aquele período iludia-me ao pensar que me estava a libertar dos meus problemas, mas não passava apenas de uma ilusão momentânea, pois só um bom suporte familiar e ajuda de clínicos especializados nos pode ajudar a lutar contra algo que é invisível e aos olhos dos outros assintomático, sim apenas aos olhos dos outros, pois experimentem em estar um mês sem conseguir descansar durante a noite e depois terão uma das provas que a depressão não é assim tão assintomática, pelo menos para quem se debate com ela.

Como já referi, além do vosso suporte familiar não tenham problemas em procurar ajuda especializada e essa é vos proporcionada por profissionais das áreas da psiquiatria e psicologia e não vejam esta ajuda com qualquer tipo de estigma, são apenas especialidade da área da saúde e psicoterapeutas que nos ajudam a tentar superar a doença. Ainda me lembro quando estive internado em Santa Maria, a médica neurologista que me assistia, numa das visitas matinais, perguntou-me se não me importava de falar com um psiquiatra do hospital, nunca me perguntou se me importava de ser visto por um nefrologista, cardiologista, oftalmologista, etc. e porquê esta pergunta, porque existe aquele estigma de quem vai ao psiquiatra está maluco, demente, esquizofrénico, etc., recordo-me de lhe ter respondido de imediato, que não me importava, pelo contrário até agradecia e que o psiquiatra para mim era um clinico como os outros.

Entendam este desabafo, não como um processo de vitimização, do coitadinho, pois só quem não me conhece poderá pensar isso, entendam-no antes como uma explicação básica de uma doença estigmatizada, mas que não devem descorar, aos primeiros sinais, procurem ajuda, família, amigos, médicos e psicoterapeutas especializados, não se deixem cair num “buraco” que pode não ter retorno.

02
Out19

Decisões importantes

Paulo Dias

Os dias no Posto de Mem Martins passavam muito rapidamente, tal o número de ocorrências, não raras eram as vezes que juntávamos um turno com outro, ou que acabávamos o turno e íamos directamente para Tribunal com detidos.

Comecei a perceber que a minha vida futura passaria por aquela localidade do concelho de Sintra, sempre que as folgas o permitiam ia a Elvas visitar o meu pai, que sofria de uma aplasia medular e de um aneurisma na aorta abdominal, por isso longe dele, quer eu, quer o meu irmão estávamos sempre preocupados.

 Por essa altura a Paula estava no Estado Maior da Força Aérea a trabalhar e a terminar o curso de Matemática na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tivemos uma conversa e achámos que o melhor seria começar a procurar casa e agendar o nosso casamento, quanto ao casamento foi fácil, marcámos com uma antecedência de quase um ano, para o dia 18 de Setembro de 1999, sendo que a seguir ao nosso casamento o meu pai viria viver connosco e com o meu irmão às temporadas. Já o encontrar a casa que gostássemos e que estivesse ao alcance dos nossos vencimentos já foi mais difícil, vimos milhentas casas, quase todas na zona do Cacém. O que nos agradava era demasiado caro para as nossas possibilidades e o que não era caro nós não gostávamos e depois eu tinha a mania de ver as casas durante o dia e sempre que tinha possibilidades passar nas imediações durante a noite, para perceber se era um local calmo, sim porque durante o dia e em horário laboral ou escolar, todas as zonas habitacionais são por norma calmas.

Depois de muito procurar, lá encontrámos algo que gostámos à primeira vista, sendo que em termos orçamentais ia um pouco além daquilo que tínhamos previsto. Para fazer contas estava a Paula, fez contas a tudo e mais alguma coisa, era definitivamente apertado, mas decidimos arriscar e avançamos para a compra da nossa primeira casa, na localidade de Agualva-Cacém. Tratava-se de um T2 usado, com umas áreas muito boas, afastado da confusão daquela parte mais central do Cacém e com uma vista desafogada para a Serra da Carregueira. Avançamos então para a compra da casa, sendo que o meu irmão fez o favor de ser o nosso fiador, sabendo à partida que o vencimento da Paula iria totalmente para o a prestação do empréstimo bancário, por essa altura os juros do crédito à habitação estavam altíssimos e o meu vencimento como soldado por essa altura da GNR, teria de dar para cobrir todas as outras despesas, água, luz, gás, alimentação, condomínio, propinas da faculdade, passe dos transportes públicos, seguro do veiculo e outras despesas extras que fossem aparecendo, sem esquecer que tínhamos que mobilar a casa e juntar dinheiro para casarmos na data que tínhamos escolhido. A compra de casa longe das nossas zonas de origem, sabíamos que significava que não voltaríamos às nossas terras de origem (a título definitivo entenda-se), a nossa vida a partir daquele passo passaria a ser aquele local e só voltaríamos às nossas raízes, em férias ou ocasiões especiais.

Posso-vos dizer que a ginástica financeira era todos os meses muito complicada, mas Graças a Deus sempre pagámos todas as nossas contas a tempo e horas, chegávamos ao final do mês e era uma sensação de alívio, mas mal dava para respirar porque as contas não iriam deixar de aparecer.

Contudo é hoje com o orgulho enorme que digo, que por vezes era mesmo um esforço hercúleo viver apenas com o meu vencimento, mas hoje orgulho-me de referir que essa foi com certeza a primeira batalha que travei com a minha guerreira e que vencemos. Para não fugir à regra ela era sempre a mais optimista, quando estávamos mais apertados orçamentalmente, ela dizia para não me preocupar, que iriamos conseguir e conseguimos.

Em resumo posso hoje dizer que fomos muito felizes na nossa casa do Cacém, até porque foi lá que nasceu o nosso primeiro príncipe, o João em 2006.

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