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Desabafos

Desabafos

28
Nov19

Uma incursão pela ficção!

Paulo Dias

Hoje apetece-me ficcionar um pouco, muito inseguro na escrita, o que não acontece quando faço os meus desabafos, apesar de como já disse nunca saber se a forma como escrevo é perceptível e os desabafos entendidos, mas escrever de forma ficcionada é ainda mais difícil e gera maiores incertezas na forma como escrevo, por isso desculpem qualquer coisinha, mas é só para estar distraído.

Corria o ano de 2007, uma equipa de investigação da Guarda Nacional Republicana chefiada pelo 2º Sargento Feliciano, tinha em mãos um inquérito por tráfico de estupefacientes, nomeadamente Haxixe, na modalidade de distribuição directa ao consumidor. O referido inquérito tinha sido delegado aquela equipa, pelo Tribunal de Sintra, visto que a venda de estupefacientes ao consumidor por parte do um suspeito, decorria nos concelhos de Sintra e Cascais.

O suspeito era um individuo na casa dos vinte e pouco anos, pertencente a uma família abastada do concelho de Cascais, sem profissão, à excepção da venda de estupefacientes, se é que podemos classificar essa actividade como uma profissão, gostava de praticar surf e tinha adquirido com dinheiro proveniente do tráfico de estupefacientes, uma moradia no concelho de Sintra, junto à orla costeira, onde vivia com a namorada.

A investigação desenrolou-se durante alguns meses, até a equipa de investigação ter o suspeito perfeitamente rotinado. Já havia sido reunida bastante prova, quer através de imagens recolhidas do suspeito a vender estupefacientes a toxicodependentes e de várias intercepções a esses mesmos toxicodependentes efectuadas logo após as transacções e ainda de intercepções telefónicas devidamente fundamentadas e autorizadas por um Juiz de Instrução Criminal do Tribunal de Sintra.

No entanto faltava uma peça importante no puzzle que constitui a investigação de um crime deste género, faltava perceber onde, quando e quem abastecia o suspeito de estupefacientes. Decorria já a primavera desse ano de 2007, quando os investigadores começaram a perceber que o suspeito se abastecia de estupefacientes na localidade de Lagos no Algarve, mais concreta na zona da Meia Praia, normalmente de duas em duas semanas, no entanto os seguimentos ao individuo eram sempre muito complicados, pois este era bastante astuto e dificultava bastante a vida à equipa de investigação. Quando se ia abastecer de pólen de haxixe a Lagos, normalmente fazia-o em motociclos de alta cilindrada e fazia-se sempre acompanhar da chamada “mula”, ou seja, um individuo a quem pagava para efectuar o transporte da droga e que tal como o suspeito também se deslocava em motociclo, cabendo ao primeiro o papel de seguir uns quilómetros mais à frente na Auto Estrada que liga Lisboa ao Algarve, para desta forma perceber se existia alguma operação policial e assim poder avisar a “mula” para este se desfazer do haxixe. Tomava ainda outros cuidados quando se ia abastecer, desligava o telemóvel, fazia manobras de contra vigilância para perceber se estava a ser seguido e o regresso com a droga era sempre feito de madrugada, com pouco movimento de veículos o que lhe permitia controlar melhor tudo em seu redor.

Ora, todas estas manobras que mostravam bastante astúcia por parte do suspeito, levaram a que a equipa de investigação nunca percebesse ao certo o local concreto na Meia Praia, onde o suspeito adquiria o estupefaciente. Apesar deste facto e porque já havia bastante prova carreada para o processo, em Junho de 2007, a equipa de investigação em coordenação com o Ministério Público que tutelava o processo, decidiram que na próxima “visita” do suspeito ao Algarve para adquirir estupefaciente, fariam a detenção do mesmo e da “mula” que o acompanhasse.

 A esperada “visita” a Lagos ocorreu nas vésperas das comemorações de Santo António. O plano já estava delineado há algum tempo, na teoria era simples, só que a prática se revela sempre mais complicada. Consistia em tentar acompanhar os indivíduos, suspeito e “mula”, na viagem até à zona da Meia Praia e aí estabelecer um perímetro até que o mesmo saísse daquela zona e encetasse a viagem de regresso. Os investigadores contavam com a necessidade de suspeito e “mula”, teriam forçosamente de abastecer os motociclos de regresso a Lisboa, pois a capacidade dos depósitos de combustível não seria a necessária para efectuar a viagem de ida e regresso, que representavam mais de 600 quilómetros e na altura que realizassem a paragem para abastecer os motociclos, seriam efectuadas as detenções em segurança.

Tudo corria como planeado, os indivíduos foram seguidos até Lagos de forma discreta como se pretende, já naquela localidade o suspeito desligou o telemóvel e dirigiram-se para uma zona remota na Meia Praia, quando passavam poucos minutos das seis da tarde, a partir daí era esperar, o trabalho de casa estava todo feito, agora era necessário contar que tudo corresse conforme o que estava previsto.

As várias viaturas da equipa de investigação foram colocadas em pontos estratégicos, de forma a ser perceptivel a saída dos indivíduos da Meia Praia, bem como uma viatura descaracterizada e de alta cilindrada do Destacamento de Trânsito de Albufeira no acesso à Auto Estrada, para precaver a hipótese dos indivíduos saírem da Meia Praia por outro caminho sem serem vistos, pois os motociclos davam-lhes grande capacidade de manobra e era necessário acautelar de alguma forma esta situação, pelo que esta viatura onde se encontrava um elemento da equipa de investigação e um outro 2º Sargento, que não fazendo parte da equipa, era como se fizesse, visto que colaborava muitas vezes com esta, quando os processos requeriam mais meios humanos qualificados.

As horas foram passando, a adrenalina e as incertezas vão-se misturando, numa mistura explosiva que coloca os nervos de todos à flor da pele, pois em cada processo estão investidas muitas horas, muitos dias de trabalho e é frustrante não concretizar o objectivo na última etapa. Por muito que os investigadores interiorizem isto, as incertezas e em consequência o nervoso miudinho acaba sempre por vir ao de cima, com uma grande dose de adrenalina à mistura. Aquele dia não fugiu à regra, as horas iam passando e tudo desde o nervoso miudinho à adrenalina iam surgindo, a determinada altura já ninguém na equipa de investigação queria ligar ao chefe da equipa, o 2º Sargento Feliciano, pois este gostava muito dos silêncios e qualquer telefonema que não fosse a indicar o avistamento dos indivíduos, faziam que o seu mau feitio, já por todos conhecido quando da recta final dos processos, viesse ao de cima, pelo que pediam ao 2º Sargento que se encontrava na viatura do Destacamento de Trânsito, que fosse ele a ligar e a colocar as dúvidas e questões que todos tinham naquela altura. Sendo este 2º Sargento uma pessoa bastante calma, acabou também ele por ouvir dois ou três berros, que como pessoas adultas e profissionais resolviam logo que tudo terminasse, era sempre assim e nada estava a fugir ao habitual.

Este mau feitio do 2º Sargento Feliciano, era de pouca duração, apenas se mostrava nas fases decisivas dos processos e quando alguém colocava em causa o profissionalismo daqueles que com ele colaboravam, eram as duas situações que o faziam sair do sério e ao que rezam as crónicas, algumas vezes levaram telemóveis a voar contra os tabliers das viaturas, como se tivessem vida própria. Aquando da fase decisiva deste processo o 2º Sargento Feliciano encontrava-se de férias, para poder comemorar o primeiro aniversário do seu primeiro filho, as quais interrompeu de imediato, por vontade própria e sem reposição dos dias, não porque não confiasse na sua equipa, ou porque simplesmente quisesse levar os louros se as coisas corressem bem, mas o contrário, queria estar sempre presente se alguma coisa corresse mal ou menos bem e assumir as responsabilidades.

Voltando à zona da Meia Praia em Lagos, as horas iam passando e já estávamos na madrugada do dia de Santo António, os relógios apontavam para as três da manhã aproximadamente, a espera estava a deixar toda a gente ansiosa e com dúvidas, quando a equipa de investigação que estava colocada junto a um descampado na Meia Praia, dá o sinal ao 2º Sargento Feliciano que na penumbra da madrugada estava a avistar num caminho próximo dois indivíduos em dois motociclos, que pelo capacete de um deles, um verde florescente, seriam certamente os suspeitos. Dirigiam-se em direcção à posição do 2º Sargento Feliciano, que confirmaria se eram os indivíduos, breves minutos que pareciam horas até os mesmos passarem junto aquela posição, confirmava-se, eram os suspeitos, o investigador que se encontrava com o 2º Sargento Feliciano, quase em desespero, comenta com este que o suspeito principal leva uma mochila às costas vazia, Feliciano responde-lhe que a da “mula” ao contrário vai bem pesada.

A partir daí a adrenalina dispara para valores elevadíssimos, difíceis de quantificar, é hora de colocar em prática a última fase do plano delineado e a mais delicada, a intercepção. Os indivíduos foram seguidos de forma discreta, esperando que eles efectuassem a necessária paragem para abastecer os motociclos, tudo corria bem, os mesmos iam passando pelos vários locais onde os restantes elementos da equipa de investigação se encontravam posicionados. Acabaram por efectuar a esperada paragem na primeira área de serviço da auto estrada, junto à localidade de Lagos, foram interceptados e detidos assim que entraram dentro da loja da área de serviço, sempre em segurança. Quem não ficou muito seguro foi o funcionário da área de serviço, que assistiu às detenções, sem perceber muito bem o que se estava a passar, até que os investigadores se identificaram.

A mochila que a “mula” transportava trazia uma enorme quantidade das denominadas “bolotas” de pólen de haxixe, que depois de pesadas davam um peso de aproximadamente oito quilogramas.

Na altura da detenção, há um libertar de toda a adrenalina acumulada e os sorrisos estampados no rosto dos investigadores, o que quase sempre acontecia na equipa chefiada pelo 2º Sargento Feliciano. Os sorrisos não eram mais que o epílogo, das muitas horas e dias de trabalho, sempre com uma estratégia bem delineada, sem pressas nem “atropelos” à lei, foi assim que o Feliciano foi ensinado por grandes profissionais com quem trabalhou e era essa a mensagem que transmitia aqueles que com ele colaboravam.

Por aquela altura, esta apreensão terá sido das maiores de pólen de haxixe, droga que começava a aparecer em Portugal com origem no norte de África, mais concretamente em Marrocos, num processo em investigação e na modalidade de venda directa ao consumidor. A viagem de regresso a Sintra, localidade onde ficava a sede da equipa de investigação, foi efectuada no meio de muito cansaço acumulado, mas de grande alegria entre todos os investigadores, pela percepção do dever cumprido e até a “mula” estava bem disposta perante a situação delicada em que se encontrava, pois pediu para o levarem a Lisboa, à noite de Santo António onde havia combinado com uma rapariga, só para se despedir dela, risada geral claro.

A apreensão teve honras de telejornais, com uma entrevista a um conceituado Major da GNR, hoje Coronel com grandes responsabilidades a nível internacional e por aquela altura 2º Comandante do Grupo Territorial de Sintra da GNR.

Como referi no inicio, pura ficção, qualquer semelhança com factos reais é pura coincidência e desculpem qualquer coisinha nesta incursão pela ficção.

26
Nov19

O ser anti social em que me tornei!

Paulo Dias

Estes mais de quinze meses em casa, têm-me feito pensar em imensas coisas, vivenciar diferentes sentimentos. Eu que me considero desde há muito tempo um tipo anti social, depois da morte da minha mãe, a minha avó materna, a avó Perpétua, que sempre viveu connosco e que contribuiu em muito para a minha educação, estava sempre a dizer-me, “…este rapaz não sai de casa, parece um bicho do mato, vai para a rua brincar com os teus amigos…”, acho por isso que ela foi a primeira pessoa a perceber o ser anti social em que me ia tornar.

Com isto não quero dizer que não gosto da companhia dos amigos, longe disso, mas se puder evitar ou adiar um jantar, um almoço, uma festa ou algo do género, sou exímio em procurar desculpas. No entanto existe em mim um enorme contrassenso, pois quando estou com amigos sinto-me bem e esqueço um pouco tudo aquilo que de uma forma ou outra me atormenta. O problema passa por deixar a minha zona de conforto, o estar junto da minha mulher e dos meus príncipes, ou seja, difícil é eu sair de casa. Sendo que isto conduz, que a determinada altura sinta a ausência dos amigos, dos seus telefonemas, da sua presença física, etc., no entanto, tenho a perfeita noção, que uma grande quota parte desse distanciamento é da minha responsabilidade. Foi assim desde os catorze anos, evitava as brincadeiras de rua próprias da minha idade, mais tarde comecei a evitar as saídas com os meus amigos e isso foi-se acentuando com o tempo,

Dou por mim a pensar, que ao longo dos anos só existiam dois sítios, mesmo tendo em conta os meus silêncios, em que me sentia um “ser social”, a minha casa e o meu local de trabalho, a investigação, o Posto. Por estranho que possa parecer era no desempenho da minha profissão que me sentia “mais social”, era a minha “praia”, era ali que me libertava, que me sentia mais à vontade. Não é normal? Admito que não, mas este processo que estou a levar a cabo com estes desabafos, tentando de alguma forma libertar-me dos meus “fantasmas”, implica isso mesmo, fazer uma intrrospecção e perceber aquilo que sou, aquilo que fui ao longo dos anos e ser sincero comigo próprio, é admitir que me comportei e continuo a comportar imensas vezes, como dizia a avó Perpétua, como um verdadeiro bicho do mato.

Factos e consequências de ser um tipo anti social? Os amigos vão-se afastando, mesmo que essa não seja a sua intenção, este é o facto, a consequência é que agora sinto muito mais esse afastamento, para o qual e não é de mais referir, contribui decisivamente com a minha forma de ser, anti social, bicho do mato, aquilo que lhe queiram chamar.

Dou por mim a sentir ausência dos amigos e a pensar que eles não ligam para uma conversa, porque têm os seus afazeres profissionais, têm as suas famílias, em resumo têm as suas vidas. E eu, porque é que não ligo? Se me quiser enganar a mim próprio, direi que é porque não os quero incomodar nas suas vidas, que não são propriamente idênticas ás de um tipo que está em casa há mais de quinze meses, se quiser ser sincero e é aquilo que este processo todo impõe, basta apenas recordar a avó Perpétua, “…este rapaz parece um bicho do mato…”.

25
Nov19

Pensamentos negativos ou catastróficos!

Paulo Dias

Quando falo que está a revelar-se difícil sair do “buraco” ou derrubar o tal “muro”, é porque sinto isso mesmo em vários pormenores do meu dia a dia. Há situações que eu sinto sem exagero há três décadas e que me convenci que iam desaparecer de um momento para o outro com medicação e com o esforço em me manter com um pensamento mais positivo, mas com o passar do tempo vou percebendo que este não é um processo assim tão linear.

 A única alteração significativa de há quinze meses a esta parte, é que agora não escondo o meu problema, que deixou de ser um segredo bem guardado entre mim a Paula e passei em boa hora a contar com ajuda especializada, que tem sido uma grande ajuda, um passo enorme, pois sem essa ajuda estes meses teriam certamente sido bem mais complicados e ajudaria muito mais se eu levasse à prática aquilo a que me proponho, ou seja, o viver um dia de cada vez, uma hora de cada vez e aproveitar cada instante. Mas já percebi como referi anteriormente que este não é o processo linear e rápido que eu desejava, há ainda muito a corrigir, que poderá levar o seu tempo e para que isso aconteça, para o desfecho seja aquele que eu quero, que aqueles que diariamente estão junto a mim, a minha esposa e os meus príncipes, merecem, tenho de ser mais forte, colocar ainda mais de mim neste processo e ajudar os profissionais que me ajudam a ultrapassar com sucesso esta doença silenciosa.

A qual faço questão de não silenciar mais, pois ao escrever estes desabafos além de me estar a ajudar a mim próprio, porque desabafar ajuda-me a libertar de alguma forma pensamentos negativos, espero ajudar outras pessoas a procurarem a ajuda que eu devia ter procurado, se não à trinta anos atrás, porque como já expliquei era criança e os tempos eram outros, em Elvas não sei sequer se havia alguém especializado em psiquiatria e em psicologia clinica, mas a partir do momento em que me tornei adulto, não existem desculpas ou argumentos de qualquer espécie que possam justificar o arrastar de uma situação clinica sem procurar ajuda, até porque me considero uma pessoa com formação suficiente para reconhecer essa necessidade, mas os receios daquilo que os outros haviam de pensar falou sempre mais alto, até aquele dia 1 de Agosto de 2018.

A minha ajuda era, é e sempre foi a Paula, mas agora fazendo uma introspecção de todos estes anos, percebo o quão egoísta fui, a Paula é uma excelente profissional na sua área, uma mãe excepcional e uma esposa fantástica, mas não é psicóloga clinica, nem psiquiatra e a única coisa que conseguia com os desabafos que tinha com ela, era libertar-me um pouco a mim dos tais pensamentos negativos ou catastróficos e colocar um enorme peso sobre ela e isso não era nada justo e continua a não ser.

E neste momento sinto que estes pensamentos negativos como lhes chamo, ou catastróficos como os designam os especialistas, tendem em não me abandonar. E o que são estes pensamentos, é o estares sempre preocupado com o dia a seguir, com a hora a seguir, preocupado com o teu futuro e com o daqueles que te são próximos. E preocupado porquê? Porque esse futuro se te apresenta sempre com receios de que alguma coisa de negativa vai acontecer, em aspectos tão simples como a tua esposa ou os teus filhos irem a algum lado e tu estares sempre preocupado com o que vai acontecer e por isso ligares constantemente para ver se estão bem, preocupado com a tua saúde e com as daqueles que te são próximos, só conseguindo vislumbrar desfechos negativos. Agora imaginem estes pensamentos não te abandonarem um dia que seja, com simples coisas do quotidiano, a tua esposa tem de ir trabalhar e utilizar o carro, os teus filhos têm de ir à escola, a visitas de estudo, a aniversários de colegas, os teus familiares têm a sua vida própria e se estão uns dias sem te ligar já estás a pensar que alguma coisa relacionada com a saúde dos mesmos está a acontecer, ou seja, estás sempre a ver o lado negativo, a catástrofe em todas as situações quotidianas, quer da tua vida quer na vida daqueles que te são mais queridos, a certa altura torna-se um tormento.

Aqui fica mais um dos aspectos que caracteriza esta maldita e silenciosa doença, talvez um dos que me consomem mais energias, que mais me desgastam e que teimam em querer que permaneça no buraco, que não derrube o maldito “muro”, mas este desabafo não é um voto de vencido, é apenas mais um passo para lutar contra a maldita depressão com todas as forças, porque desabafar como já disse me faz bem e ao mesmo tempo fico esperançado que possa ajudar outras pessoas com o mesmo problema. Quando falo em ajudar outras pessoas, não me estou aqui a colocar num patamar diferente, eu também estou doente há imenso tempo, apenas tive a coragem de revelar a doença quando a ajuda veio ter comigo, porque nem fui eu que procurei essa ajuda e por isso quero apenas contribuir para que outros não caiam no erro de silenciar a maldita depressão anos a fio, tal como eu o fiz.

22
Nov19

Quando te sentes envergonhado, por te tratarem como um criminoso!

Paulo Dias

Ontem pela primeira vez na vida, senti-me envergonhado, achincalhado e verdadeiramente desrespeitado na minha condição de militar da Guarda Nacional Republicana e membro das Forças de Segurança deste país e tudo isto devido à vergonha de dispositivo de segurança criado em redor da casa da democracia do meu país, a Assembleia da República.

Estou numa fase em que as lágrimas me escorrem pelo rosto com  imensa facilidade, mas ontem enquanto acompanhava a manifestação ordeira e pacifica, com o estrito cumprimento pela lei, dos meus camaradas que se deslocaram a Lisboa e à medida que os diversos órgãos de comunicação social iam passando as imagens junto à Assembleia da República, senti-me como já disse envergonhado, achincalhado, desrespeitado e tratado como um criminoso da pior índole e inevitavelmente as lágrimas surgiram.

Numa análise mais fria não consigo perdoar ninguém, desde a segunda figura do Estado e máximo responsável pela casa da democracia, o senhor Presidente da Assembleia da República, passando pelo senhor Ministro da Administração Interna e pelo senhor Primeiro Ministro, que permitiram que o plano de segurança delineado por alguém muito diligente, mas pouco sensível a questões de segurança dentro da Policia de Segurança Pública, fosse colocado em prática.

Bem sei que alguns vão recordar alguns episódios menos felizes da última grande manifestação das Forças de Segurança naquele local, nos quais não me revejo, mas que foram tão esporádicos como inócuos, razão pela qual não consigo entender o plano de segurança delineado para o dia de ontem, nem entendo como a estrutura de Comando da Policia de Segurança Pública e os personagens que referi no parágrafo anterior dessem o seu aval para que tal bizarria fosse colocada em prática.

A minha vergonha resulta do facto de em mais de vinte e dois anos de serviço como militar da Guarda Nacional Republicana, nunca ter assistido em Portugal a tamanho e desmesurado dispositivo de segurança, delineado no pressuposto que os elementos das Forças de Segurança são desordeiros, criminosos, capazes de praticar distúrbios e os mais bárbaros actos de selvajaria. Mas não, estamos apenas descontentes com a forma desrespeitosa como somos tratados pelo Estado e que inevitavelmente se reflecte na forma como a nossa autoridade como responsáveis pelo cumprimento da lei é tantas e tantas vezes colocada em causa nas ruas. E tudo isto porquê? Porque os senhores que representam o povo, do qual também nós elementos das Forças de Segurança fazemos parte, não têm a coragem e a hombridade que se lhes exige em democracia para criarem as leis que salvaguardem a autoridade do Estado nas ruas, autoridade essa que é personificada pelos milhares de agentes da Policia de Segurança Pública e militares da Guarda Nacional Republicana, que diariamente zelam pela segurança de pessoas e bens.

Mas a dignificação de que falo também de se ver reflectida nos vencimentos que são pagos aos elementos das Forças de Segurança, sendo que desde sempre sou um acérrimo defensor do subsidio de risco para todos aqueles que diariamente patrulham as ruas deste país, colocando o seu bem mais essencial em risco, a vida, em prol de garantir a segurança dos seus concidadãos. E neste momento estou completamente à vontade para falar de subsidio de risco, porque não desempenho, nem voltarei a fazê-lo naquilo que me resta de carreira qualquer função operacional por razões de saúde, pela qual fui traído muito em razão da minha dedicação e do meu empenho ao longo de mais de vinte anos no serviço operacional da Guarda Nacional Republicana e se eu tivesse dinheiro para arranjar um bom causídico em direito administrativo, não tenho dúvidas que a minha doença seria considerada nos tribunais, como doença adquirida em serviço, mas isso são contas de outro rosário e das quais me tento abstrair todos os dias, querendo apenas saúde para ver crescer os meus príncipes.

Mas não descurando a questão do subsídio de risco única e exclusivamente para quem desempenha funções operacionais, julgo que o ponto mais importante em matéria de salários, passa pela revisão da tabela salarial. Sim meus senhores, quantas vezes me assolou o pensamento enquanto Comandante de Posto ou Chefe de alguma equipa de Investigação Criminal colocar vezes sem conta em risco a vida de meninos, sim porque estamos muitas vezes a falar de jovens com vinte e poucos anos, em risco por um vencimento liquido que não vai além dos setecentos e tal euros, será que este valor paga a vida de alguém? Urge por isso rever urgentemente as tabelas salariais, ninguém pode num país democrático colocar diariamente a sua vida em risco e num inicio de carreira por um vencimento inferior a mil duzentos e cinquenta euros e que este vencimento liquido não seja mascarado com subsídios, daqueles que nos concedem e que nos retiram sempre que adoecemos e ficamos de baixa, ou quando vamos de férias, por isso mesmo volto a frisar vencimento base e liquido de inicio de carreira policial, nunca inferior aos mil duzentos e cinquenta euros a que me referi, acrescidos depois do merecido subsidio de risco para os que desempenham serviço operacional.

Alguns dos que irão ler este meu texto, acharão que estou a arguir em causa própria, é verdade, sou Sargento-Ajudante da Guarda Nacional Republicana, tenho mais de vinte e dois anos efectivos de carreira, da qual me orgulho imenso, porque sempre dei o meu melhor em prol da segurança e procurei que aqueles que trabalhavam comigo fizessem o mesmo, na carreira de que tanto me orgulho, eu e aqueles que comigo trabalhavam conseguimos prender e ajudar a condenar efectivamente pelos mais variados crime, violadores, ladrões, traficantes de droga, etc., mais de cem indivíduos. Fizemo-lo muitas vezes prescindindo das nossas horas de descanso, de dias de férias, de dias festivos, de estar com os nossos familiares e amigos no dia a dia e em ocasiões importantes, não me arrependo de um só minuto despendido em prol da segurança dos outros, mas depois de tudo isto é difícil explicar à minha esposa e aos meus filhos, num dos momentos mais difíceis da minha vida, quando por uma razão de saúde grave me encontro em casa há mais de quinze meses, porque é que o meu vencimento não chega a mil e trezentos euros! E. Porquê? Pela razão que atrás expliquei, porque os nossos vencimentos são “mascarados” com subsídios, que nos são retirados sempre que ficamos em casa de baixa, ou de férias, etc. E se eles me confrontarem com as horas, dias, semanas e meses que os privei da minha companhia, em troca deste vencimento, sabem o que faço? Remeto-me ao silêncio, ou como se diz de uma forma mais popular “coloco a viola no saco”, porque simplesmente não tenho argumentos.

Mentir-vos-ia se vos dissesse que não me sinto angustiado, revoltado por estas e muitas outras razões, mas aquilo que nos fizeram ontem, fez-me chorar e eu não tenho vergonha de admitir que chorei esta e muitas outras vezes e muitas delas em razão da minha profissão, que se atravessou inúmeras vezes na minha vida pessoal.

Espero que episódios como os de ontem não se voltem a repetir, porque nos devem envergonhar enquanto Estado Democrático.

20
Nov19

Os meus desabafos, as minhas crenças e a minha ideologia de vida!

Paulo Dias

Cada vez que escrevo posso deixar a sensação nas pessoas que estou sempre a lamentar-me, que estou de mal com o mundo, mas apenas quem não me conhece ou alguma vez presumiu que me conhecia pode ter esses pensamentos.

Quando falo da minha depressão, não é no sentido de me lamentar, do coitadinho, muito longe disso, só quero desabafar e arranjar forças para sair definitivamente do tal “buraco” ou “derrubar o muro” como preferirem, eu gosto das duas metáforas para caracterizar a luta que estou a travar e ao mesmo tempo tentar que os meus desabafos contribuam de alguma forma para ajudar outras pessoas que estão a passar pelo mesmo.

Não há nada para lamentar, nem de coitadinho, bem pelo contrário eu estou muito agradecido à minha família, aos verdadeiros amigos, aos médicos que me ajudaram e continuam a ajudar, aos psicólogos e principalmente a Deus por me ter concedido a oportunidade de continuar junto daqueles que amo, de ver os meus filhos crescerem, depois de ter enfrentado uma patologia que me podia ter conduzido à morte, Deus concedeu-me essa oportunidade e eu não a quero desaproveitar por causa de uma maldita doença silenciosa, como a depressão. Sou crente em Deus e acredito que nos dias mais difíceis que passei ele me ajudou, mas não sou praticante, tive uma educação católica que me fez acreditar e ter fé em Deus, mas a minha crença não concebe que para ser crente tenhamos que frequentar a igreja, até porque existem aspectos ou posições defendidos pela igreja católica, nos quais não me revejo e que chegam a desagradar-me profundamente.

Tenho uma ligação muito minha com Deus, existindo até uma altura da minha vida em que estive completamente de costas voltadas com esse Deus, em que cheguei a por em causa a sua existência ou a sua benevolência, posso até dizer que nessa altura perdi a fé e deixei de ser crente, foi aquando da morte do meu príncipe Alexandre que coloquei a minha fé, a minha crença em causa, pois não achava justo que um pai tivesse que enterrar o seu filho, era contra natura, foram dias, semanas, meses muito complicados. Mas depois mais a frio, comecei a fazer uma introspecção e percebi que a vida era mesmo assim, que não tinha o direito de me zangar com Deus, pois também eu terei ao longo da vida tido atitudes e comportamentos que teriam desagradado completamente a esse meu Deus e fizemos as pazes, ou melhor eu fiz as pazes, porque era eu que me tinha chateado e não o contrário, era eu que tinha colocado toda a minha fé em causa, sendo que o perceber a determinado momento que estava errado e voltar a ter fé em Deus, trouxe-me nessa fase difícil da minha vida uma maior tranquilidade. Reforço, contudo, a ideia, que a minha educação católica apenas me permite acreditar num Deus, ter fé no mesmo, no entanto, para cultivar esta minha crença não vislumbro a necessidade de frequentar a igreja.

Como já referi diversas vezes, fui educado pelos meus pais, pessoas humildes, com poucas habilitações académicas, mas com grande formação moral e princípios dos quais não abdicavam, a amizade verdadeira, o respeito pelo outro, a lealdade, a frontalidade, a educação e foi tudo isto que me foi transmitido no meu processo de educação e socialização enquanto criança e adolescente. Porque amava os meus pais e continuo a amar onde quer que eles se encontrem, sempre pautei a minha vida pelos princípios que me foram por eles transmitidos e dos quais não abdico em qualquer situação, princípios esses que fazem que esteja sempre tranquilo com a minha consciência e que tento transmitir aos meus filhos.

Tenho no entanto a noção, que muitas vezes, quer a nível pessoal, quer a nível profissional, seja visto como alguém com mau feitio, a mal com o mundo, mas nada mais longe da realidade e quem me conhece bem, sabe o quão longe da realidade estão os que pensam assim e que acredito seja uma maioria, porque os que me conhecem efectivamente são de facto a minoria. E essa grande maioria não consegue entender a minha forma de pensar, que se gere pelos princípios pelos quais fui educado e dos quais não abdico um milímetro, por isso e por falta de argumentos, tendem a apelidar-me de mau feitio e de julgarem que estou de mal com o mundo, até em resultado de alguns dos meus desabafos, publicações no Facebook e daquilo que mais me realiza, que é defender os meus pontos de vista cara a cara, mas não confundam esta minha preferência em defender as minhas posições cara a cara com as pessoas, com andar à procura dessas mesmas pessoas para explicar as minhas posições sobre determinado assunto, longe disso, quem não concorda o abomina aquilo que defendo, tem uma solução fácil, procuram-me temos uma conversa, de preferência e como já referi, cara a cara, ou então por qualquer outra forma que preferirem e terei todo o gosto em explicar os meus pontos de vista numa conversa de gente civilizada e que não recorra a ofensas pessoais e ao vernáculo, como já me aconteceu com pessoas que não contrariam as minhas posições com argumentos, mas recorrendo à má educação e ao vernáculo, com esses não perco sequer um minuto do meu tempo.

Mas o que eu defendo são coisas tão simples, o meu espaço termina onde começa o de outrem e não há margem nem argumentos para transpor essa barreira, chama-se simplesmente respeito, a amizade ou qualquer outro tipo de relação pessoal ou profissional, não pressupõe aquilo que apelido de “nacional porreirismo” ou a “palmadinha nas costas”, as minhas relações com os outros passam pela lealdade e pela frontalidade e são estes dois princípios, que volto a repetir, não abdico um milímetro, e que leva as pessoas na falta de melhores argumentos a apelidarem-me de mau feitio e de estar mal com o mundo.

Em conclusão, aquilo que eu sou e que confunde quem não me conhece, são três coisas muito simples e que pautam a minha ideologia de vida, respeito pela opinião e pelo espaço dos outros, lealdade e frontalidade, espero por isso que esta minha explicação tenha esclarecido muita gente.   

19
Nov19

Pensamentos, recordações e os inevitáveis receios!

Paulo Dias

Com o meu pequeno príncipe Dinis doente em casa com uma amigdalite, fico também eu impossibilitado de sair, de dar aquela caminhada matinal para desanuviar da noite, que é neste momento o meu maior pesadelo, não porque tenha pesadelos, mas antes sonhos sucessivos com as mais variadas pessoas e situações, o que leva a que de manhã me levante extremamente cansado, com aquela sensação de ter efectuado um serviço nocturno, situação que se está a revelar extremamente desagradável e desconfortável do ponto de vista físico e psicológico.

Ora esta permanência em casa conduz-me a inúmeros pensamentos, recordações e até a uma certa introspecção, quase sempre relacionados com a minha vida profissional. O pensamento que mais me atormenta e mentiria se dissesse o contrário é a minha adaptação ao Centro Clinico da Guarda Nacional Republicana, a minha actual colocação, mas em funções que nunca desempenhei e em consequência disso fico expectante, ou melhor, receoso que não as vá desempenhar da forma mais profissional, ou que me veja esvaziado das funções que estão incumbidas ao Sargento-Ajudante da Guarda por regulamento e isso poderá para alguns ser uma não questão, mas para aqueles que conhecem a minha forma de pensar e que têm vindo a acompanhar o meu percurso profissional, tenho a certeza que compreendem o quanto este pensamento me atormenta.

Apesar deste pensamento que me assola constantemente, quero deixar claro, que estou colocado no Centro Clinico a meu pedido e a titulo excepcional, pelo que a responsabilidade é minha e não da instituição, a Guarda só me concedeu a possibilidade de estar num local que me preservasse mais do ponto de vista físico e psicológico, tendo em conta o meu historial clinico. E perguntarão alguns, então porque é que pediste para ir para o Centro Clínico? A razão passa mesmo por me preservar mais em termos de saúde, pois física e mentalmente tenho consciência que não estou na plenitude das minhas capacidades para desempenhar de forma digna as funções de Comandante de Posto, nem quaisquer outras que tenham uma ligação muito estreita com a actividade operacional, como é o caso da Secretaria de um Destacamento, pois conhecendo-me eu como conheço, envolver-me-ia de forma muito intensa nas questões de apoio à actividade operacional e quando desse por isso, estaria na mesma situação que ajudou a conduzir-me até aqui, o não saber “desligar a ficha”, o de não ter a capacidade de deixar as questões de serviço dentro do quartel e por essa razão e numa tentativa de preservar a minha saúde ao máximo e de ter mais alguns anos com qualidade de vida junto daqueles que amo, ponderei os prós e os contras e achei que o melhor era afastar-me da actividade operacional e de tudo o que com ela estivesse relacionado directamente.

Mas esta minha decisão e depois de mais de quinze meses afastado do serviço, leva-me muitas vezes a pensar como já referi, se conseguirei desempenhar funções completamente diferentes daquelas que desempenhei ao longo de mais vinte anos, se me adaptarei a essas funções, se não me sentirei esvaziado das funções regulamentarmente atribuídas ao meu posto, se aguentarei física e psicologicamente fazer diariamente mais de cento e cinquenta quilómetros, ida e volta, entre a minha residência e o Centro Clinico em Lisboa, com toda a confusão inerente a uma grande cidade. A primeira experiência de Centro Clínico ocorreu em Maio deste ano e ao terceiro dia correu logo mal, pois desmaiei num autocarro da Carris com um episódio de hipotensão, tendo partido uma costela e levando-me novamente para uma situação de baixa médica, por isso são muitos “ses” na minha cabeça.

Depois são muitas e boas as recordações que me vêm à memória destes mais de vinte anos de serviço operacional, 98% delas muito positivas, foram anos muito intensos mas ao mesmo tempo muito felizes e em que me senti completamente realizado profissionalmente e isso não se apaga da nossa memória em quinze meses com a muita facilidade, a investigação criminal o comando de Postos era a minha praia e não me via fazer nada diferente até ao final da minha carreira, caso a saúde ou a falta dela não se tivessem atravessado no meu caminho de forma tão inesperada como intensa. Quando refiro que 98% das recordações que tenho de mais de vinte anos de profissão são positivas, não é um exagero, é a pura realidade, pois nesta percentagem incluo também muitas situações negativas, apesar de isso poder parecer um contrassenso, do meu ponto de vista não é, pois existiram imensas situações negativas das quais retirei inúmeros ensinamentos e que por isso mesmo também contribuíram para a minha realização e para o meu crescimento enquanto profissional da Guarda Nacional Republicana.

No que concerne à introspecção, passa muito pelos dois aspectos anteriores, os pensamentos e as recordações, pois para continuar em frente é necessário não esquecer o passado por forma a encarar o futuro. E esta introspecção já me conduziu a duas  certezas importantes e que já referi anteriormente, não tenho condições físicas e mentais para voltar ao comando de um Posto, pois do ponto de vista físico tenho diversas limitações, sendo a principal uma perca significativa dos campos visuais, do ponto de vista mental passa muito pela certeza que não estou em condições psicológicas nem para comandar qualquer subunidade, nem para estar ligado directamente à actividade operacional, pois tenho a certeza que não iria “desligar a ficha” e levaria os problemas do serviço para casa, o que me iria causar uma enorme ansiedade e falta de descanso mental, situações estas que rapidamente me conduziriam a outra encefalopatia ou outro episódio clinico da mesma índole, situação que quero evitar a todo o custo, por forma a viver com condições de ver os meus príncipes crescer.

Mas esta introspecção leva inevitavelmente a muita ansiedade, pois há aqui um misto de sentimentos, factos e receios, os sentimentos não me deixam abandonar a ideia de um saudosismo enorme dos mais de vinte anos sempre no “pelotão da frente”, passe a imodéstia, os factos é que o tempo não volta a trás e por isso mesmo não poderei voltar a fazer aquilo que fazia com todo o gosto e terei de me resguardar num local não directamente ligado à actividade operacional, desempenhando funções que pouco me dizem, os receios passam pela possibilidade de não conseguir desempenhar essas funções com o profissionalismo que sempre pautou a minha vida na instituição Guarda Nacional Republicana, por ser um “mundo” desconhecido para mim e por perceber se terei condições psicológicas que me permitam todos os dias enfrentar viagens diárias para Lisboa, não pelas horas a que tenho de acordar e as horas em que chego a casa, mas mais pela “confusão” que todos os dias encontrarei nos transportes públicos e o stresse e ansiedade que isso me poderá causar e que não são de todo desejáveis no meu caso.

No entanto toda esta introspecção apenas me conduz a uma palavra, vida, que é constituída entre muitas outras coisas por receios, pensamentos e recordações, que lhe dão sentido, caso contrário a vida não faria qualquer sentido.

18
Nov19

Dúvidas, incertezas e muitos receios!

Paulo Dias

Já não consigo quantificar o número de noites sem dormir em condições, que me permitam acordar de manhã sem me sentir exausto, ou são noites de sonhos constantes e interruptos, ou esses sonhos vão alternando com insónias.

Mentir-vos-ia se não dissesse que estou a ficar extremamente cansado com todas esta situação, da qual me tenho tentado abstrair de diversas formas, quer através de um apoio incondicional da família mais próxima, quer através de caminhadas/corrida por este lugar fantástico, ou através destes textos a que chamo desabafos e que por vezes poderão incorrer numa escrita pouco correcta ou de difícil percepção, pois a duvida de saber se sei escrever ou pelo menos transmitir de forma clara aquilo que penso aos outros, será eterna.

Quando me deram alta do Hospital de Santa Maria, o médico psiquiatra que me seguia e continuou a seguir em ambulatório, disse-me que a minha depressão era moderada e que tínhamos ali para uns seis, sete meses, certo é que já lá vão quinze meses e por muito que me tente abstrair e pensar positivo, há dias que parece que não conseguimos combater este “monstro” silencioso que é a depressão. E a questão não se coloca na falta de acompanhamento médico especializado, ou no apoio familiar, pois quer um quer outro têm-se revelado fantásticos.

Se me questionarem sobre a razão de não estar então a conseguir, não vos consigo dar uma resposta concreta, pois eu próprio me interrogo acerca dessa mesma questão. A determinada altura admito que não estava a lutar com todas as minhas forças contra a doença, mas agora não, estou a ir com tudo o que tenho, fazendo dessa luta o meu cavalo de batalha, porque esta maldita doença nas nos afecta só a nós, acaba por afectar de forma indirecta aqueles que nos rodeiam, a nossa família mais próxima, aqueles que amamos, mesmo que o tentemos evitar, tenho a noção que os meus filhos sofrem com a minha doença, principalmente o João que apesar dos seus treze anos, é um menino muito maduro tendo em conta a sua idade e vai estando ao corrente de tudo, para já não falar da Paula, que além de esposa, mãe, professora, tem sido a minha psicóloga, psiquiatra, enfermeira e companheira, sendo que não tenho dúvidas que represento um fardo pesadíssimo, questionando-me eu se na posição dela, eu teria forças para aguentar uma situação idêntica.

Pois é caros amigos, há dias que parece que estou melhor, que estou a subir os degraus para sair do “buraco” ou a “empurrar o muro com toda a força até o derrubar”, utilizem a metáfora que achem define melhor esta situação, mas subitamente no dia seguinte, ou na hora seguinte, sem perceber muitas vezes porquê, parece que dou um trambolhão, que me estatelo no chão ainda com mais força, sendo que a saída do buraco fica mais longe e que as forças para derrubar o muro vão escasseando. Por vezes e em relação a esta questão, questiono-me se não sou eu que estou a querer acelerar o processo e saltar etapas, prejudicando a minha recuperação, ou se não estarei com receio de enfrentar uma nova realidade profissional, completamente diferente de tudo aquilo que gosto e que estava habituado ao longo de vinte anos e na qual ainda não me consigo rever.

O pior de tudo isto, é que além de não conseguir retomar a minha vida normal devido a esta maldita depressão, vão surgindo com alguma regularidade episódios, que como não sou clinico, não consigo estabelecer relação com a depressão ou com outra qualquer sequela do quadro clinico que conduziu a tudo isto e estou a falar de tremores nos membros superiores, falta de acção nos mesmos para pegar nos talheres ou simplesmente pegar numa caneta e escrever (até já tenho vergonha que em algum local me peçam para fazer a minha assinatura), pois fica com uma caligrafia tal, que até eu tenho dificuldade em decifrar. E tudo isto trás mais receios, mais ansiedade e entramos num efeito bola de neve, que acaba por afectar tudo.

Enfim, como disse no princípio e fazendo jus ao nome deste blog, é só mais um desabado, por agora continuo com uma certeza, vou continuar a lutar com todas as forças para combater esta maldita doença, mesmo que os trambolhões continuem, tentarei segurar-me a tudo de bom que tenho, os meus príncipes e aminha esposa.

17
Nov19

Outros tempos as mesmas necessidades!

Paulo Dias

Há alguns dias que não efectuava por aqui nenhum desabafo, as razões são várias e não vale a pena estar agora aqui a escalpelizá-las, sendo que a principal passa pelo estado de espírito, que por estes dias não tem estado muito dado a desabafos, mas antes a silêncios.

Mas hoje e em conversa com um amigo, entre os vários assuntos que falámos, um deles prendeu-se com a Guarda Nacional Republicana, o que despertou desde logo a minha atenção e deu motivo para este texto.

Desabafava ele, que na pequena freguesia onde vive, tem vindo a notar com o passar dos anos uma cada vez maior ausência de militares da Guarda a patrulhar aquela zona, questionando-me se existia alguma explicação para que isso se verificasse. Tentei contrapor, dizendo-lhe que talvez fosse ele que não se apercebesse da presença dos militares, porque o seu trabalho é na cidade e que só chega a casa à noite, não tendo por isso a percepção da presença das patrulhas. Mas também ele contrapôs, referindo que à noite não trabalha e tem por hábito sair para beber café com amigos a seguir ao jantar e não vê qualquer patrulha, nem aos fins de semana quando está todo o tempo no seu local de residência. Quando tentava novamente contrapor, ele interrompeu-me e referiu que efectivamente por vezes até vê passar a patrulha, mas sempre no veículo da Guarda e sem efectuar qualquer paragem, para falar com os populares, entrar no café, no supermercado, etc., como acontecia antigamente.

Lá tive como se costuma dizer nestes casos, de “colocar a viola no saco”, pois não tinha argumentos para contrapor a constatação do meu amigo, ou para o fazer tinha de entrar noutro tipo de explicações, que passam por razões de ordem operacional e gestão de recursos internos, sendo que iria entrar por áreas que ao meu amigo pouco interessam, ele só quer voltar a ver uma presença mais assídua da Guarda Nacional Republicana na sua freguesia, tal como a generalidade das pessoas.

Lá colocámos mais alguma conversa de circunstância em dia, mas depois de nos despedirmos fiquei a pensar no assunto e voltei aos meus tempos de meninice, quando passava alguns dias em Barbacena, freguesia do concelho de Elvas e terra de origem da minha mãe, recordando-me que nos anos oitenta e princípios dos anos noventa existia um pequeno Posto da GNR, à entrada da Vila no cruzamento entre as estradas que vêm de Elvas e de Vila Fernando, Posto este comandado por um Cabo e com um efectivo reduzido, mas que transmitia um sentimento de segurança à população daquela pequena freguesia. Ainda recordo os desabafos da minha tia Leonor, a contar-nos que tinha ido ao Posto falar com o Cabo da Guarda, porque os putos da minha idade andavam a jogar à bola junto da porta dela, nada que eu também não fizesse e lhe sujavam as paredes pintadas de um branco imaculado de cal como só no Alentejo conseguimos encontrar, com as boladas. O Cabo coitado já devia ter ouvido as reclamações da zelosa tia Leonor imensas vezes. Este era o extremo do sentimento de segurança que a presença da Guarda representava para estas gentes, mas a presença diária da Guarda nesta freguesia como em tantas outras por esse país fora, transmitiam o tal sentimento de segurança que é de extrema importância para todas as pessoas de bem e que tão descurado tem sido nos últimos tempos, mesmo sendo um dos pilares mais importantes de qualquer Estado democrático.

O Posto de Barbacena onde naqueles anos oitenta e início de noventa me recordo perfeitamente da presença de uma figura carismática da Vila, o “Tonho do Rael”, um rapaz autista, filho do senhor Rael que possuía um café na Vila, que era muito acarinhado por toda população e que passava os dias no Posto da Guarda. Hoje já não existe o Posto, tendo fechado portas há mais de duas décadas certamente, o efectivo envelhecido foi passando à reserva, não sendo reposto, começou por funcionar como Posto de Atendimento entre 09H00 e as 15H00, até que acabou mesmo por fechar, o “Tonho” tenho ideia que infelizmente já faleceu, mas recordo-me dele como se fosse hoje.

Como já referi, fiquei sem argumentos para o meu amigo, mas esta é uma questão mais profunda, que passa como já disse por um dos pilares de um Estado de direito e democrático, a segurança.

11
Nov19

Partilhar vivências, por forma a encorajar outros a procurar ajuda!

Paulo Dias

Nos últimos meses têm-me ocorrido diversas ideias sobre objectivos que pretendo concretizar, uns que fui adiando pelas mais variadas circunstâncias e outros que me surgiram depois de ter sido acometido pela doença. Estes quase dezasseis meses que estou em casa, fizeram com que parasse e refletisse sobre aquilo que realmente importa e perceber de forma bastante clara que tenho de lutar para concretizar aquilo a que me proponho, pois, a vida é algo que muda num minuto.

Este tempo em casa tem-me permitido maturar ideias sobre esses objectivos, eu que vivia muito em torno da minha carreira profissional, pretendendo chegar ao topo da minha carreira, que seria o de Sargento-Mor, é neste momento algo que já não está no meu horizonte, outro desses objectivos passavam por tirar uma licenciatura numa área que abrangesse várias disciplinas que me permitissem conhecer melhor as pessoas e as diversas culturas, concretizei-o este ano com o términus da licenciatura em Ciências Sociais, outro passava por escrever um livro e nesse estou a trabalhar, mas o último e que me surgiu em consequência da doença e que me obrigou a fazer uma introspeção sobre a minha vida, em reconhecer que vivi com a tal depressão “camuflada” durante mais de trinta anos, com períodos muito maus e outros menos maus, mas com a mesma sempre presente e eu sem procurar ajuda especializada, mas agora a introspecção está feita, estou a ser acompanhado por especialistas, tenho um suporte familiar fantástico e por isso não vale a pena chover sobre o molhado.

Mas o objectivo que me surgiu mais recentemente está infimamente ligado com a depressão e com as experiências que vivenciei ao longo destes mais de trinta anos e passa por ajudar outras pessoas que vivem atormentados por esta doença silenciosa, mas que pode conduzir a vários desfechos, entre eles o suicídio, se não for tratada a tempo e quando digo tratada refiro-me a ajuda especializada, ao suporte familiar e à ajuda de outras pessoas.

E é neste último tipo de ajuda que pretendo dar o meu contributo, como já disse vivenciando as minhas experiências com os outros, por forma a que quem está a passar pelo mesmo e não aborda o assunto com ninguém, ou seja, vive a doença no mesmo silêncio que eu vivi a minha durante quase trinta anos, despertem para a gravidade da mesma, que deixem de a estigmatizar e procurem ajuda. Este é o objectivo que para mim assumiu primazia sobre todos os outros. O que pretendo fazer passa por ir a escolas, hospitais, forças de segurança, etc. e transmitir a minha experiência, por forma a que possa ajudar o máximo de pessoas possível e se esse meu contributo puder ajudar uma única pessoa que seja, darei todo o tempo que despender como bem empregue.

Não tenho ainda ideia de como vou chegar junto das instituições e dessa forma junto das pessoas, por isso gostava que todos os meus amigos partilhassem este meu texto para que as portas se vão abrindo e possa concretizar um objectivo meu, mas que passa por ajudar pessoas que sofrem em silêncio como eu sofri durante imensos anos e ao mesmo tempo terminar de uma vez por todas com o estigma que quem sofre de depressão é louco, muito longe disso, eu vivi muitos anos como já disse com a depressão e com a ajuda da minha esposa consegui sempre ter as minhas ideias em ordem, mas na verdade não procurava ajuda com o estigma de prejudicar a minha carreira profissional e dos meus amigos e familiares não entenderem, sendo este o pensamento generalizado que passa pela cabeça de muitas pessoas e que pretendo ajudar a desmistificar.

Estou disponível para me deslocar a qualquer local onde achem esta minha ideia proveitosa, se as instituições conseguirem em simultâneo a presença de um médico psiquiatra e de um psicólogo óptimo, pois assim poderemos ter opiniões especializadas que aprofundarão as questões da doença em si, do ponto de vista médico e psicoterapêutico e ajudar a desmistificar a doença, caso contrário acho que poderei na mesma encorajar alguns daqueles que sofrem em silêncio em procurar ajuda.

Por isso só vos peço que divulguem este texto.

09
Nov19

Como convivemos com a depressão!

Paulo Dias

Hoje através de uma publicação partilhada pela Doutora Patrícia Nave, médica psiquiatra no Centro Clínico da Guarda Nacional Republicana, uma profissional de excepção e um ser humano fantástico, que me vem acompanhando nestes últimos tempos de uma maldita doença silenciosa, que dá pelo nome de depressão, tive acesso a uma entrevista da esposa de Robert Enke, guarda-redes de futebol alemão, que entre outros clubes representou o Sport Lisboa e Benfica. Revi-me perfeitamente nas palavras de Teresa, o nome da esposa do malogrado Enke, quando esta descreve o calvário que o mesmo passou com a depressão e que terminou com o seu suicídio numa estação de comboios na Alemanha.

A depressão e como já disse por diversas vezes é uma doença que de uma ou outra forma conseguimos “camuflar”, enganando-nos desta forma a nós e aqueles que nos rodeiam, porque não tem sintomas visíveis, não espirramos, não tossimos, etc., por isso se não tivermos a capacidade, o discernimento de aos primeiros sintomas, que passam por momentos de profunda tristeza, de mudanças de humor, de nos refugiarmos nos nossos silêncios, por um cansaço físico e psicológico inexplicável, etc., procurarmos de imediato ajuda especializada, a situação pode fugir do nosso controlo e acabar da forma mais trágica, como aconteceu com Enke e acontece com milhares de pessoas por todo o mundo.

No meu caso e fazendo uma retrospectiva, posso afirmar que andei a “camuflar” a depressão durante trinta anos, sim trinta anos, ou seja desde o falecimento da minha mãe em 25 de Dezembro de 1988, quando eu tinha catorze anos, a qual se foi mantendo durante todos estes anos com fases menos más e com outras em que me apetecia desaparecer, mas que teve momentos críticos e de profunda angústia com a morte da minha mãe como já disse, passados onze anos com a morte do meu pai e o momento mais doloroso de todos teve o seu epilogo com o falecimento do meu príncipe Alexandre no dia 3 de Novembro de 2009. Hoje posso confessar que por altura da doença e do falecimento do meu filho, não foi uma, nem duas vezes que me passaram as tais ideias de colocar o ponto final na minha angústia, felizmente resisti com a ajuda da minha esposa, mas mesmo aí sempre recusei o procurar ajuda.

A única pessoa que acompanhou estes meus silêncios, esta minha angústia foi a minha esposa Paula, desde que nos conhecemos em 1994, porque felizmente para alguns de nós que nos confrontamos com esta doença, existem por aí muitas Teresas e muitas Paulas, que nos vão amparando nos momentos de maior sofrimento interior e eu sinto-me um felizardo, porque desde que conheci a Paula ela sempre teve uma paciência descumunal para comigo, até nos momentos em que eu não reagia bem à doença que “camuflava”, mas para a qual não procurava ajuda especializada e desta forma tornamo-nos um “fardo” bem pesado para quem está ao nosso lado, nos quer ajudar e nós não queremos ajuda.

Aos catorze anos não desabafava com ninguém e isto aconteceu até aos 20, quando em 1994 conheci a Paula e o meu porto de abrigo. Depois disto só desabafava com ela, não procurava ajuda com receio que isso prejudicasse a minha carreira, acto de profundo egoísmo, porque com receio infundado (percebo isso hoje) de não prejudicar a minha carreira, era por vezes um tormento para a minha vida familiar, ou melhor, para a Paula, porque em 2006 com o nascimento do meu primeiro filho, o João, tentei nunca exteriorizar a minha angústia junto dele. Com o nascimento do Alexandre a 25 de Setembro de 2009 e com o seu falecimento a 3 de Novembro do mesmo ano, entrei numa espiral depressiva perigosíssima e como já referi, apenas me mantive à tona graças à super mulher que tenho ao meu lado. Mas voltei a não procurar ajuda, tudo sobre as minhas costas e as da Paula.

Em Abril de 2013 a Paula ficou novamente grávida, desta vez do nosso príncipe Dinis, no entanto o que devia ser um momento de alegria, transformou-se num momento de profunda angústia e sofrimento, com medo que tudo pudesse novamente correr mal, a juntar a este processo da gravidez em que vivia constantemente atormentado, em Junho de 2013 durante a festa de aniversário do João, o meu irmão, que é mais pai que irmão, revelou-me que lhe havia sido detectada uma massa no fígado, o meu mundo desabou ainda mais, o meu pensamento foi logo o pior, que o meu irmão poderia ter um cancro. Lembro-me da Paula me dizer uma vez que eu nem estava a viver a alegria da gravidez que nos ia trazer mais um príncipe, quase todos os dias ligava ao meu irmão tentanto saber novidades, mas não tinha coragem de lhe perguntar de forma clara. Recordo-me de nesse verão a Paula ter ido efectuar uma ecografia de rotina no Hospital CUF das Descobertas ao mesmo tempo que o meu irmão realizava uma ressonância magnética no mesmo Hospital e de eu estar com o meu pensamento focado no meu irmão e menos na Paula e na ecografia e isso foi de um egoísmo atroz, sendo que a Paula nunca me cobrou nada, ou melhor sempre me amparou. Só continuei com a ficha da angústia ligada à gravidez da Paula, quando em resultado da ressonância magnética o meu irmão me disse que aquela massa não era nada de maligno. Tudo isto vos pode parecer um exagero, mas quem vive com esta doença dificilmente tem pensamentos positivos, tudo se apresenta na nossa cabeça de forma negativa.

Então quando é que procuro ajuda especializada, nunca, é como consequência da encefalopatia hipertensiva que me levou no dia 1 de Agosto de 2018 a ser internado no Hospital de Santa Maria, com uma série de complicações associadas, que a neurologista que me acompanhava, me questionou acerca da possibilidade de ser observado por um psiquiatra, pois no seu entender achava que eu estava com uma depressão. Aí disse de imediato que não e foi a partir dessa altura que comecei a ter ajuda médica e psicoterapeuta especializada.

Agora perguntarão vocês se estou melhor, tem dias, mas tenho a consciência que a minha recuperação está a ser mais morosa e dolorosa, porque deixei arrastar a situação durante trinta anos e por isso tem sido um processo de avanços e recuos, por isso quero ser um testemunho vivo de como esta doença nos pode levar ao abismo, ou no extremo ao suicídio e eu se hoje para vos estar aqui a contar esta história tenho de agradecer a um ser humano fantástico, a minha esposa que nunca me deixou afundar, mesmo resistindo eu a procurar ajuda.

Por fim deixem-me agradecer a todos os profissionais da área da psiquiatria que me têm acompanhado ao longo deste processo, o doutor Tiago Duarte, psiquiatra do Hospital de Santa Maria, ao Professor Zuzarte Luis, psiquiatra no Centro Clinico da GNR, ao doutor José Cardoso, psicólogo no Centro Clinico da GNR e a quem me acompanha neste momento, a doutora Patrícia Nave, psiquiatra do Centro Clinico da GNR e a doutora Marianne Cordeiro, psicóloga no HFAR, um dos principais motivos destas mudanças nada tem a ver com a qualidade profissional dos envolvidos, mas sim com a empatia que surge entre doente e médico ou psicólogo e que para mim nestas doenças é um factor bastante importante.

Nunca me vou coibir de contar a minha experiência de trinta e um anos com esta doença, se isso puder ajudar uma única pessoa já fico feliz e não me importo de passar o meu testemunho cara a cara a uma ou mais pessoas. Por isso façam-me um favor não sofram em silêncio, porque depois de ter reconhecido a minha doença, além dos profissionais especializados que referi, contei com a ajuda de alguns bons amigos, a quem algum dia vou agradecer publicamente!

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