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Desabafos

Desabafos

29
Dez19

Tenho pena, muita pena mesmo!

Paulo Dias

Há coisas que preferia não ver, que preferia que não se verificassem, mas que infelizmente se vão tornando cada vez mais frequentes.

Eu não concebo que o cidadão que paga os seus impostos, que é cumpridor da lei, se veja privado de um dos pilares da nossa democracia, o sentimento de segurança. E a quem cabe garantir a segurança? Numa primeira linha ao Estado, que incube os serviços e forças de segurança de garantirem a mesma.

 Eu também discordo do desinvestimento do Estado na segurança de pessoas e bens, também me sinto defraudado pelas restrições orçamentais que afectaram a minha carreira e o meu vencimento. Mas tudo isto não me dá o direito de defraudar os meus concidadãos, de não desenvolver todos os esforços ao meu alcance para que as pessoas se sintam seguras, pois fazer o contrário disto é renegar algo que um dia jurei e que passa por algo complexo mas fundamental, como disse anteriormente, garantir com esforço, dedicação e profissionalismo a segurança de pessoas e bens.

Assegurar este pilar importantíssimo de uma democracia, torna-se por vezes um trabalho hercúleo que nos desgasta, no qual somos obrigados a ultrapassar inúmeros obstáculos e dificuldades, no entanto, não existe desculpa que sirva para justificar a nossa inércia, muito mais quando desempenhamos funções de comando. A quem foi dado o privilégio de comandar homens e mulheres que diariamente desempenham a dificílima tarefa de garantir a segurança de pessoas e bens, tem de comandar pelo exemplo, tem de assumir as suas responsabilidades, especialmente quando as coisas correm menos bem, mas para que isto aconteça e para que se possa intitular um verdadeiro Comandante e não mais um mandante, é necessário como já referi que se constitua como uma referência positiva para aqueles que comanda e isso só se consegue quando o comandante é capaz  de ser um exemplo pelas atitudes. Contudo e para que isso se verifique, precisa saber fazer, incentivar, ajudar,  repreender quando se justifica, aqueles que comanda, sim porque dizer sim a tudo é o mais fácil, o não assumir as responsabilidades que lhe foram confiadas é o mais confortável.

E é com muita pena, muita pena mesmo, que cada vez mais verifico que os intitulados comandantes e estou a falar de comandantes de posto e de destacamento da prestigiada instituição que é a Guarda Nacional Republicana, pois são estes quem mais de perto lida com as pessoas, com os seus receios, com os seus anseios, com as suas dificuldades do dia a dia e que por isso mesmo são a imagem da Guarda perante os cidadãos, as comunidades e a quem lhes foi confiada a nobre missão de garantir a segurança dessas mesmas pessoas e comunidades.

Mas referindo-me directamente aos Sargentos, comandantes de Posto e não generalizando, porque ainda existem algumas excepções, o que vejo são Sargentos da Guarda de espinha curvada, que conduzem a sua vida profissional pela inércia, pelo nacional porreirismo, pela palmadinha nas costas, por dizerem que sim a tudo com receio de assumirem as suas responsabilidades e pelo comodismo, que não conseguem implementar algo tão simples mas tão valioso, como é o policiamento de proximidade. E policiamento de proximidade, não é fazer cento e muitos quilómetros de veiculo numa patrulha de oito horas, não é passar a maior parte da patrulha nas instalações do Posto, é o contrário de tudo isso, é colocar patrulhas apeadas nos locais mais sensíveis das respectivas zonas de acção e quando isso não for possível por falta de efectivo, é definir paragens frequentes e policiamento apeado à patrulha às ocorrências, transmitindo um sentimento de segurança às pessoas, que são a razão da nossa missão, mas nada disto se aprende no curso de Sargentos, resulta da nossa experiência no terreno e de assumirmos a função de comandante que nos foi confiada.

Ser comandante de Posto, é também defender os homens e mulheres que comandamos em todas as instâncias e sempre que estes não tenham tido atitudes pouco dignificantes para a imagem da Guarda, é incutir-lhes o espirito de missão, a responsabilidade que carregam aos ombros quando saem à rua para desempenhar a sua função, é auxilia-los a qualquer hora do dia ou da noite sempre que sintam qualquer dificuldade, por muito que essa dificuldade nos possa parecer sem sentido algum, é corrigir, ensinar a fazer e repreender quando necessário.

Por isso caros amigos, ser comandante de Posto, não é só aparecer em eventos públicos, dizer que sim a tudo só porque isso não nos trás incómodos, não é andar de espinha sempre curvada devido ao “lembebotismo” que infelizmente vai reinando e que só demonstra incompetência, insegurança, comodismo e pouco profissionalismo.

É difícil ser comandante de Posto, muito, eu que o diga, a minha dedicação conduziu-me à situação de saúde periclitante em que me encontro, mas quem não tem disponibilidade e capacidade para desempenhar tão nobre missão, que seja sincero consigo próprio e com a instituição que serve e tenha a hombridade de se afastar destas funções.

Este meu desabafo é de um profundo desagrado para aqueles Sargentos comandantes de Posto que não dignificam a classe e a sua função, é de um profundo apreço por aqueles que desempenham a sua missão de forma abnegada e profissional, mas é também um reparo aos senhores comandantes de Destacamento, que muitas vezes estão pouco atentos ao trabalho desenvolvidos nos Postos e mesmo que percebam que algo não está bem, por uma qualquer razão que não consigo explicar porque nunca fui comandante de Destacamento, não chamam ao “tapete vermelho” para pedir responsabilidades, os senhores comandantes de Posto maus profissionais, que não servem os interesses da instituição e principalmente  os da população.

Eu tenho um orgulho enorme de ser Sargento-Ajudante da Guarda Nacional Republicana, sempre desejei ter forças para terminar a minha carreira no comando de um Posto, mas infelizmente a vida por vezes não é aquilo que idealizamos e não vale a pena lamentações. No entanto, envergonho-me com a falta de profissionalismo de todos aqueles que não dignificam a nobre função que nos foi confiada, se forem sargentos e com a responsabilidade acrescida que lhes foi confiada, de serem o garante da segurança de pessoas e bens, na função de comandante de Posto, mais envergonhado fico.

Tenho ainda o direito de exigir como cidadão, segurança para mim e para a minha família, no local onde vivemos, quando vamos passear, quando vamos às compras, quando os meus filhos vão para a escola e isso apenas se consegue com policiamento de proximidade e isso não é possível que aconteça senhores comandantes de Posto, quando vocês permitem que as patrulhas façam quilómetros sem uma missão atribuída, dentro de uma viatura da Guarda, ou que essas patrulhas permaneçam no interior do Posto com a vossa complacência.

Por tudo isto, tenho pena, muita pena mesmo que este seja o caminho que está a ser trilhado e receio onde nos possa conduzir enquanto instituição, perante aqueles que servimos, as pessoas.

20
Dez19

Valerá a pena, ser frontal, sincero e leal?

Paulo Dias

Neste tempo que permaneço em casa de baixa, tenho pensado sobre algo que a minha esposa sempre me apontou como um dos meus maiores defeitos, mas que eu nunca o reconheci como tal. Ela várias vezes me referiu que eu me expunha demasiado, que compartilhava coisas só minhas com os outros e que isso me prejudicaria a nível profissional e em consequência do ponto de vista pessoal. No entanto eu sempre achei que isso não representava qualquer problema, pois fui educado pelos meus pais a ser sincero e leal com as pessoas e foi com base nesses princípios que sempre pautei a minha vida na instituição que sirvo com grande orgulho.

Nunca omiti nada aos meus Comandantes directos, sempre assumi as consequências dos meus actos e daqueles que comigo colaboravam, pois sempre pautei a minha conduta pelo princípio da lealdade. Quando tinha algo a dizer, nunca mandei recados ou fiz as chamadas “conversas de caserna”, falava directamente com as pessoas e se achasse que estava errado, nunca tive qualquer pejo em pedir desculpas a quem quer que fosse.

Mas hoje e depois de pensar em vários episódios ao longo da minha carreira na Guarda Nacional Republicana, sou obrigado a admitir que a minha frontalidade, sinceridade e lealdade, foram muitas vezes ignoradas e não correspondidas e que em algumas ocasiões isso me prejudicou profissionalmente e se reflectiu na minha vida pessoal e da minha família.

Não vou aqui estar a extrapolar vários episódios que foram acontecendo e os quais tiveram repercussões na minha vida pessoal, em consequência da minha sinceridade e lealdade para com as pessoas. Efectivamente entre muitos, tenho um defeito que reconheço perfeitamente, acredito piamente nas pessoas e isso leva-me a desabafar sobre os mais variados assuntos com as mesmas, pois achava eu que todas estavam de boa fé, no entanto já sofri imensas desilusões com esta minha forma de estar e nos últimos meses isso tem sido ainda mais notório, o que acaba por me desgastar a nível psicológico.

Eu admito que sempre fui um individuo nervoso, ansioso, que a minha vida pessoal teve vários episódios tristes e que contribuíram para a minha depressão, mas nunca ninguém poderá negar que o principal factor que conduziu à situação clinica em que hoje me encontro e que me poderia ter conduzido à morte, foi o meu empenho, dedicação e profissionalismo em prol da instituição que sirvo. Pois ao longo de mais de vinte anos, eu dediquei certamente mais horas à minha profissão do que à família, com cujo apoio sempre contei e com uma agravante, quando estava com a família nunca conseguia “desligar a ficha”, ou seja, trazia os problemas e agruras do serviço para casa e isso foi-me desgastando aos poucos.

Deixem-me apenas relatar um de muitos episódios que afectou a minha saúde e faalo deste, porque foi o último episódio e podia ter-se revelado fatal. Eu tinha férias marcadas para Julho de 2018 depois do festival “Ocean Spirit”, no entanto, o festival de ondas e música que decorre em Santa Cruz todos os anos, foi adiado para os últimos dias desse mês, o que levava a eu o festival coincidisse com as minhas férias, previamente marcadas e com a licença de paternidade exclusiva do pai que o senhor Comandante de Destacamento à data iria gozar durante um mês. Ora como a licença de paternidade teria obrigatoriamente de ser gozada e como eu não via com bons olhos estar ausente no principal evento de verão em Santa Cruz, decidi adiar as minhas férias durante uns dias até ao términus do mesmo. Este seria o procedimento normal de um Comandante de Posto, que tenha brio no cargo que ocupa e desempenhe a sua missão com dedicação e profissionalismo, ainda vai por aí havendo alguns, cada vez mais escassos, mas ainda os há.

No entanto desde o início de Julho que me sentia doente, sem forças, cansava-me com facilidade, não dormia de noite, o meu corpo estava a dar sinal que algo não estava bem. Em meados de Julho, levantei-me uma manhã e ao ir para o Posto percebi que estava a perder a visão de forma repentina, fiquei preocupado, falei com a minha esposa e ela aconselhou-me a irmos ao médico o mais rápido possível, mas eu fui adiando, porque sentia-me na obrigação de estar presente durante os dias dos concertos do festival. Os concertos ocorreram no último fim de semana de Julho de 2018, eu estava cada vez pior, constantemente indisposto, sem forças, muito cansado e aquilo que me preocupava mais, a cada dia que passava a visão ia piorando, sendo que fiz os concertos do festival que decorreram numa sexta-feira e num sábado, tendo imensa dificuldade em distinguir rostos a mais de dou ou três metros.

A minha esposa conseguiu-me consulta de oftalmologia para quarta-feira da semana seguinte, 1 de Agosto de 2018. Logo que o oftalmologista me observou, passou-me de imediato uma carta para me dirigir à urgência do Hospital de Santa Maria. Assim que fui observado na urgência de oftalmologia daquele hospital, foi de imediato chamado o serviço de neurologia, depois de um TAC realizado ao cérebro o professor João Sá, que estava de serviço à urgência de neurologia, ficou preocupado e comunicou-me que tinha de ficar internado no SO, para no outro dia de manhã realizar uma ressonância magnética ao cérebro, o primeiro prognóstico era a existência de um cancro no cérebro, felizmente e depois de realizada a ressonância e exames a tudo e mais alguma coisa durante 21 dias de internamento, veio a apurar-se que tinha uma encefalopatia hipertensiva, que me tinha afectado irremediavelmente vários órgãos, a visão com uma retinopatia hipertensiva e perda dos campos visuais periféricos, o coração e os rins.

Estive internado no SO e ainda durante mais de uma semana no serviço de Neurologia de Santa Maria com tensões sistólicas a roçarem os 250 e diastólicas nos 180, era uma autêntica bomba relógio como vários médico/as e enfermeiras/os me referiram, entretanto e depois de imensa medicação conseguiram estabilizar-me, apesar de a tensão continuar com valores preocupantes, eram bem mais baixos que durante essa primeira semana de internamento. Todos me ia dizendo que tinha tido imensa sorte, pois normalmente com o quadro clínico que apresentava esta doença é fatal.

Nesta ocasião como em muitas outras na minha vida, não dei ouvidos à minha esposa, o que podia ter sido fatal.

Mas como em todas as ocasiões da minha vida, aprendi diversas lições, das quais saliento algumas, nunca devo ignorar os conselhos e recomendações da Paula, jamais poderei voltar a abdicar da minha família em detrimento da minha profissão, pois quero muito ver os meus príncipes crescer, que nas instituições quem não é visto é esquecido, por muito que lhe tenha entregue os melhores anos da minha vida. Contudo e graças a este infeliz episódio de saúde que me afastou de tudo aquilo que gostava de fazer e me realizava em termos profissionais, foi possível começar a ser acompanhado a nível psiquiátrico e psicoterapêutico de uma depressão que “camuflei” durante trinta anos.

Por último deixem-me referir para os mais distraídos ou relutantes com uma doença chamada depressão, que é silenciosa mas pode matar, não se trata de “frescuras” ou vontade de estar em casa, no entanto continua a ser um estigma para muitos e até na doença tenho sido leal com a instituição que sirvo, pois além de continuar a ser acompanhado regularmente no Hospital de Santa Maria nas várias especialidades, nefrologia, oftalmologia, neurologia e cardiologia, faço questão de ser ao mesmo tempo acompanhado por médicos da instituição nas especialidade em que esse serviço existe, nomeadamente na especialidade de psiquiatria, na qual sou única e exclusivamente acompanhado no Centro Clínico da GNR e é no âmbito desta especialidade que me encontro de baixa neste momento. Tomei esta opção, para que não subsista qualquer dúvida em relação ao meu estado. Isto apesar de ter sido sujeito a uma Junta Médica presidida pela Autoridade de Saúde do concelho de Torres Vedras, que me deu um grau de incapacidade total e permanente bastante elevado, pois nenhuma das maleitas de que padeço são reversíveis do ponto de vista clínico.

Não me obriguem é a dizer que estou bem, porque não estou, não me obriguem a dizer que ir trabalhar para Lisboa não é desgastante física e mentalmente, porque é, sendo que a maioria dos médicos que me assiste desaconselha por inteiro esta ideia, não me digam que vou fazer algo com que me identifico, porque não vou, só quem não me conhece poderá pensar isso. Se estou em condições de fazer aquilo que gosto, que me realizava profissionalmente? Claro que não. Porque é que aceitei ser colocado em Lisboa? Um dia explicarei com todos os pormenores, como fui desrespeitado por pessoas que fazem parte de certas pessoas e “empurrado” para Lisboa, por falta de alternativas para quem durante mais de vinte anos dedicou cada dia da sua vida a esta nobre instituição.     

19
Dez19

O Natal!

Paulo Dias

Aproxima-se uma data que desde 1988 vivo com grande nostalgia e tristeza, pois foi na madrugada de 25 de Dezembro desse ano que faleceu uma das mulheres da minha vida, a minha mãe.

A dona Catarina, ou Branca como todos a conheciam, era a pessoa mais afável, mais carinhosa que conheci até hoje. Granjeava o carinho de todos os que a conheciam, quer de familiares quer de amigos, porque se tratava de alguém cuja bondade intrínseca facilmente conquistava quem a conhecia.

Não tenho memória de a minha querida mãe alguma vez ter tido algum comportamento mais desagradável para qualquer pessoa e tudo isto se torna bem mais apreciável do ponto de vista humano, quando falamos de uma pessoa a quem a doença nunca deu tréguas, aos problemas cardíacos graves de que padecia, vivia também mergulhada numa imensa depressão que a acompanhou até ao fim dos seus dias. No entanto e como já referi e não me canso de o fazer, apesar de em consequência da maldita depressão, que eu próprio tenho vivido e por isso lhe dou mais valor, tinha sempre um carinho, uma palavra mais afável para aqueles que a rodeavam, juntando a tudo isto uma excelente qualidade, tratava-se de uma excelente ouvinte.

Recordando o Natal na casa dos meus pais até à morte da minha mãe, era o verdadeiro Natal em família, em que não havia prendas ou quando havia tratava-se de algo simples, uma recordação, porque o dinheiro não abundava e era gerido pelos meus pais de forma a que nunca nos faltasse o essencial, a comida.

 O Natal não fugia muito aos outros dias do ano, jantávamos em família, o meu pai, a minha mãe, a avó Perpétua (avó materna) que sempre viveu connosco, o meu irmão, que depois de ingressar na extinta Guarda Fiscal e passou a viver e trabalhar em Lisboa, ia a casa sempre que podia e o Natal passava-o quase sempre na nossa companhia, alguns anos juntava-se a nós a tia Leonor, irmã da minha mãe que vivia sozinha.

Nessa noite de 24 de Dezembro de 1988, jantámos o habitual bacalhau cozido com couve e batatas, depois havia as habituais azevias de grão, as filhoses, o nogate (uma espécie de torta caramelizada com pinhões), o bolo rei, que eu pedia ao meu pai para partir até encontrar o brinde, mas também existia a fava que significava que aquele a quem calhasse era obrigado a pagar o próximo bolo rei, normalmente sempre que a fava não aparecia, brincávamos com a avó Perpétua dizendo-lhe que a havia escondido ou colocado dentro da braseira a picão, que por aqueles anos era a forma de aquecimento da minha e de muitas outras famílias no Alentejo. Mas o miminho da noite e aquele de que tenho imensas saudades, surgia pouco tempo antes de irmos para a cama, o chocolate quente feito pela minha mãe, era delicioso e nunca mais experimentei um sabor igual.

Como referi toda a tradição de Natal se manteve naquela noite de 24 de Dezembro de 1988, tinha eu catorze anos, no entanto pouco depois da meia noite e do chocolate quente, a minha mãe sentiu-se mal e o meu pai na companhia do meu irmão levaram-na para as urgências do antigo hospital de Elvas, onde ficou internada. Nessa noite dormi com o meu pai, mas pela manhã quando acordei havia uma grande azáfama de vizinhos e familiares na casa dos meus pais, a minha querida mãe havia falecido durante essa madrugada de 25 de Dezembro e enquanto eu ainda dormia a Policia de Segurança Pública tinha vindo dar a noticia ao meu pai.

Não vou descrever aquilo que senti, era um miúdo de catorze anos que tinha acabado de perder a mãe que me dava muito amor e carinho, por isso ainda hoje é difícil descrever a forma como me senti, o meu mundo desabou pela primeira vez e de uma forma cruel. Recordo que fui ao funeral da minha querida mãe, mas que me acobardei e não tive coragem de me aproximar do caixão para lhe dar um último beijo e ela merecia que o tivesse feito, mas como já disse acobardei-me tal como fiz quando morreu outro ser maravilhoso, o meu pai, ou quando o meu príncipe Alexandre partiu, nunca tive a coragem suficiente de lhes dar um último beijo, um abraço de despedida e não me perdoou a mim próprio tal cobardia.

A partir desse dia 25 de Dezembro de 1988, a minha vida mudou radicalmente, eu que era um miúdo de rua, que andava sempre a brincar com os meus amigos, refugiei-me em casa, era ali que me sentia seguro, não tinha vontade de ir à escola, de brincar, de fazer aquilo que é normal para uma criança daquela idade. Por isso identifico a minha depressão, que camuflei durante trinta anos, reportando-me a esse dia, em que deixei de ser uma pessoa feliz, para viver durante grandes períodos numa tristeza profunda, os meus pensamentos catastróficos tiveram também o seu início nessa altura, sempre com um medo terrível de perder alguém que amo e isso traz-me constantemente angustiado e triste. Consegui manter sempre este segredo terrível só para mim, nunca o compartilhei com ninguém até 1994, quando conheci a outra mulher da minha vida, a minha esposa, com quem passei a compartilhar os meus momentos de tristeza, de angústia, os meus medos constantes e ela fez o favor de me ajudar a suportar esta “carga” durante vinte e quatro anos, até aquele dia 1 de Agosto de 2018, quando fui internado no meu Hospital de Santa Maria e pela primeira vez comecei a contar com ajuda especializada para combater esta maldita depressão.

O Natal continua a ser para mim um dos dias mais tristes do ano, apesar de ter uma família que amo e que me tem tentado ajudar a superar todos os momentos difíceis, no entanto mentiria se dissesse que não faço um esforço para que este meu estado não transpareça para os meus príncipes, ao Dinis ainda acho que o consigo enganar, já o João apesar dos seus treze anos, é um miúdo extremamente perspicaz e sensível, pelo que acredito que é ele que já me tenta enganar a mim, fingindo que não percebe como me sinto, quanto à Paula mantem-se sempre firme a tentar que os meus dias sejam um pouco melhores em especial na quadra natalícia.

Neste momento sinto que o Natal ideal para mim seria na nossa casa, eu a Paula e os nossos príncipes, mas pedir isso seria de uma total ingratidão para com a minha esposa, os meus filhos e para com a restante família que têm estado sempre ao meu lado, por isso e como habitual desde que casei com a Paula em 1999, vou passar o Natal com os meus sogros e com os meus cunhados e cunhadas.

Um bom Natal, com muita saúde e paz para todos e que aqueles que amarei sempre incondicionalmente e que já partiram, os meus queridos pais e o príncipe Alexandre descansem em paz onde quer que se encontrem.     

17
Dez19

Esta tristeza que me invade!

Paulo Dias

Os últimos dias não têm sido fáceis, talvez os piores desde que saí do hospital. Sinto-me triste, sem vontade de nada, a não ser estar em casa sossegado com a minha esposa e com os meus filhos, tudo o que envolva estar com muitas pessoas num mesmo espaço faz-me imensa confusão. Na semana passada a minha esposa tinha o jantar de Natal do departamento de matemática do Externato de Penafirme, eu inicialmente não era para ir, mas à última hora acabei por acompanhar a Paula e os meus filhos. Supostamente o convívio com outras pessoas serviria para me deixar mais alegre, no entanto, não foi isso que aconteceu, muito pelo contrário, estive sempre sem nenhuma alegria, o que me provocou inclusive uma indisposição durante o jantar e só me apetecia sair dali.

Depois de o jantar ter terminado e termos saído, apesar de triste, senti-me mais confortável e até a indisposição parece ter passado no imediato. É uma sensação estranha, quero estar feliz com a minha esposa e com os meus filhos, eu sei que precisamos de sair de casa, conviver com outras pessoas, mas não está a ser fácil para mim e a última coisa que quero é que este meu estado continue a afectar toda a minha família, eles não merecem ver-me assim, mas como já disse mais de uma vez, eu tenho tentado tudo para melhorar, desde os químicos, ao tentar pensar em coisas positivas, sair de casa, caminhar, mas parece que não estou a conseguir vencer esta luta e esse sentimento deixa-me frustrado e mais triste ainda.

Até o escrever, que me permitia desabafar e libertar-me de alguma forma dos meus pensamentos negativos, neste momento não está a funcionar, falta-me vontade para escrever e quando faço é com algum sacrifício, simplesmente porque não me apetece, mas tento por todos os meios combater a inércia que sinto, mas não está fácil e fico com a nítida sensação que a escrita não sai de forma fluida e não consigo expressar aquilo que estou verdadeiramente a sentir.

No entanto, há factos que para mim são óbvios, qualquer situação por muito insignificante que possa parecer aos outros, para mim cria-me stress, ansiedade e um nervosismo que não consigo controlar. Estou cansado de experimentar químicos e quando parece que estão a resultar, acontece algo que me faz retroceder neste processo de recuperação. Para mim tudo aquilo que possam imaginar, pode resultar num factor de desequilíbrio emocional e isso acarreta nervosismo, stress e ansiedade.

Ora, escusado será dizer que fico com a sensação que estou num buraco sem fundo e que não consigo sair de lá e isso deixa-me cada vez mais triste, porque é inevitável que os meus príncipes e a Paula também estejam a sofrer com esta maldita depressão e o que mais me aterroriza nos pensamentos é que eles venham a sofrer do mesmo mal, única e exclusivamente por minha culpa.

Toda esta tristeza que se tem apoderado de mim nos últimos dias, tem-se reflectido inevitavelmente na minha tensão arterial, o que obviamente não é nada de bom. Já ponderei por diversas vezes abandonar os medicamentos da depressão e só não o fiz ainda por causa da Paula e dos meus príncipes, pois não sei as consequências que essa atitude irá ter na minha saúde e não os quero magoar mais ainda.

Em conclusão, eu que durante trinta anos convivi com esta maldita doença, a qual consegui camuflar, neste momento e mesmo com ajuda especializada, sinto-me cada vez mais impotente para travar esta batalha.

16
Dez19

A depressão, o estigma e a forma com te sentes impotente!

Paulo Dias

Quando já referi por diversas vezes que a depressão é uma doença estigmatizada, não exagero nada, pois num ou noutro momento todas as pessoas que te conhecem ou que te acompanham, acabam por achar literalmente que estás na “treta”, que assumes o papel de doentinho para estares em casa de baixa, ou outro qualquer interesse, podem tentar convencer-me do contrário mas não conseguirão, pois uma das características que sempre tive mais apuradas, foi e continua a ser a de analisar as pessoas e os seus diferentes comportamentos.

Também já disse, talvez de forma muito suave que fui enganado e maltratado por muitas das pessoas que fazem parte da instituição que servi com toda a dedicação e profissionalismo durante mais de vinte anos. Quando saí do hospital estava bastante fragilizado do ponto de vista físico e mental, no entanto o meu futuro já havia sido tratado nas minhas costas por pessoas que identifico perfeitamente. Já tinham decidido afastar-me do comando do Posto e colocarem-me na secretaria do Destacamento, com a desculpa que era para preservarem a minha saúde, mas como se as pessoas em causa desconheciam por completo o meu problema de saúde. Na altura, a minha esposa que é menos crente na bondade das pessoas do que eu, disse-me para não aceitar, para esperar mais uns tempos, que não havia pressa em decidir e que conhecendo-me como me conhecia, o Destacamento iria criar-me mais ansiedade e stresse, pois eu gosto de tudo muito direitinho, muito profissional e sabia perfeitamente que não era isso que iria encontrar.

Mas eu pensando no bem da instituição e não no meu, sabendo que nunca mais iria reunir as condições físicas para comandar um Posto, aceitei a troca proposta pelo senhor comandante de Destacamento, troca essa com o senhor sargento que estava na secretaria do mesmo. A minha esposa opôs-se sempre e eu com o passar dos dias, fui percebendo em como tudo foi sendo preparado para que acontecesse daquela forma. Ao mesmo tempo que caía em mim e naquilo que a minha esposa tantas vezes me avisou, que a secretaria do Destacamento seria um factor de ansiedade e de stress para mim e se alguém responsável algum dia quiser saber porquê, eu explico com todo o gosto.

Percebendo a situação para onde havia sido subtilmente conduzido, tentei procurar algo que eu achava não me iria desgastar mais em termos de saúde e surgiu a hipótese do Centro Clínico da GNR em Lisboa, pois mais próximo da minha residência não existia nada. Todas as pessoas que conheciam o meu historial clínico, desaconselharam-me por completo esta situação devido ao factor das deslocações, que certamente aumentariam os meus níveis de ansiedade e stress, junto com o facto de ir desempenhar uma função com a qual não me identifico de todo. Mas em Maio de 2019 lá experimentei as minhas novas funções, as quais duraram apenas dois dias, pois ao terceiro dia tive um episódio de hipotensão que me fez desmaiar num autocarro da Carris, partir uma costela e ficar com a grelha costal do lado esquerdo eternamente disforme, regressei novamente à baixa até hoje.

Foi durante este período que tenho reconhecido não estar preparado física e mentalmente, para efectuar deslocações diárias para Lisboa, saindo de casa às seis e pouco da manhã e regressando às sete da tarde, com o desgaste associado à ansiedade e ao stresse que tudo isto me provoca. Médicos de várias especialidades e pessoas que me conhecem bem, com a minha esposa sempre numa primeira linha, avisaram-me que isto iria acontecer, que a Guarda devia atender à minha dedicação durante mais de vinte anos e arranjar-me algo que não me obrigasse a longas deslocações e assim preservar-me mais, sendo que um Posto por motivos óbvios e a secretaria do Destacamento pelos motivos que se alguém estiver interessado terei todo o gosto em explicar estão completamente fora de hipótese.

A junta de saúde para atribuição de incapacidade, de acordo com a Tabela Nacional de Incapacidades, atribui-me uma incapacidade total e permanente bastante elevada, sendo que a senhora Delegada de Saúde que presidia à referida junta, totalmente independente e sem me conhecer de lado algum, no final da junta disse-me que o meu estado clínico desaconselhava totalmente viagens diárias para Lisboa e enumerou os factores, desgaste, ansiedade e stresse como potenciadores da minha tensão arterial maligna e que me provocou a encefalopatia hipertensiva, até porque está clinicamente provado que a minha tensão arterial é primária, ou seja, provocada pela ansiedade, nervosismo e stresse.

Ora tudo isto me tem feito pensar muito nos últimos dias, o que tem conduzido a um exponencial aumento dos meus níveis de ansiedade e nervosismo e em consequência da tensão arterial. Neste momento tenho duas certezas, a instituição que servi com profissionalismo e dedicação não me está a tratar bem quando mais necessito, muito pelo contrário, apenas excluindo algumas pessoas que trabalharam directamente comigo, incluindo um antigo Comandante na verdadeira acepção da palavra, de resto zero, ninguém tem mostrado a mínima preocupação em aconselhar-me sobre o que será melhor para mim, bem pelo contrário.

Julgo ser natural quando uma pessoa não se sente bem do ponto de vista mental, lhe falte algum discernimento e lhe surjam imensas dúvidas e incertezas, para as quais quero encontrar uma solução, uma explicação no imediato, levando a que muitas vezes o ímpeto me leve a questionar as pessoas que acho que me poderão ajudar, podendo por vezes ser inconveniente, mas os profissionais que lidam com problemas como o meu, devem conhecer esta ansiedade, esta impetuosidade, mas na mesma peço desculpa a todas as pessoas que tenho incomodado com as minhas dúvidas.

A outra certeza que tenho e da qual não abdicarei, é que quero ver crescer os meus filhos com alguma qualidade de vida e para isso não posso andar constantemente ansioso, nervoso, stressado, a pensar num futuro catastrófico, por isso é que por eles, pela minha esposa e por mim vou lutar com todas as armas pela minha saúde e é na minha família que vou ter o maior apoio, aos 45 anos tenho de parar de me iludir como uma criança, porque isso só me trás dissabores.   

09
Dez19

A humanização e o profissionalismo dos serviços!

Paulo Dias

Hoje enquanto estava no serviço de finanças a aguardar pela minha vez de ser atendido, dei por mim a pensar na qualidade de atendimento e como esta pode definir um profissional na verdadeira aceção da palavra e alguém medíocre no desempenho das funções para as quais é pago.

Este pensamento veio-me à cabeça, porque durante o tempo que permaneci na repartição de finanças em causa, mais de uma hora, fui prestando atenção ao atendimento prestado pelos funcionários e fez-me imensa confusão, verificar que os mesmos efectuavam o atendimento sempre com um ar sisudo e sem sequer terem a delicadeza de olharem os utentes nos olhos, o que para mim é uma tremenda falta de educação, pois se o ar sisudo se pode justificar com o mau humor de uma segunda-feira pela manhã, ou com o feitio mais introvertido das pessoas, já o facto de atender as pessoas sempre com os olhos em baixo, demonstra uma total falta de educação, para a qual tenho dificuldade em encontrar uma justificação.

Mas enquanto os meus pensamentos divagavam pela qualidade do atendimento ao público, recordei as inúmeras vezes que fui obrigado a repreender os militares de atendimento ao público dos Postos da Guarda Nacional Republicana que comandei, os quais muitas vezes teimavam em enveredar pela postura que atrás descrevi, sendo que muitas vezes atendiam os cidadãos com os olhos e os dedos colados ao ecrã táctil dos respectivos telemóveis e isso era das poucas coisas que me tiravam do sério, pois não permitia tal falta de profissionalismo aqueles que comigo colaboravam.

No entanto e perante a divagação de pensamentos, veio-me à memória um senhor enfermeiro do serviço de imagiologia do Hospital de Santa Maria, que no segundo dia do meu internamento naquela unidade hospitalar e enquanto aguardava para realizar uma ressonância magnética à cabeça, chorava copiosamente deitado numa maca, pois via o meu mundo a desabar, esse senhor do qual tenho pena de não saber o nome, apenas posso descrevê-lo fisicamente como um homem caucasiano, na casa dos quarenta anos, cerca de 1,85 metros de altura, encorpado e que se dirigiu a mim num tom bastante amistoso, tentou perceber qual era o meu problema, começamos a falar dos meus filhos, ele a dizer-me que tudo ia correr bem, sempre com um sorriso nos lábios e esta postura profissional e humana ajudou a tranquilizar-me e a não pensar no futuro e em qual seria o resultado da ressonância que ia realizar, que podia alterar a minha vida de uma forma drástica.

Este é um dos momentos marcantes de demonstração de grande profissionalismo e humanidade, que também tenho tido a felicidade de encontrar nos mais variados serviços e locais, desde a instituição que sirvo, passando por muitos dos serviços médicos a que tenho acorrido infelizmente com grande assiduidade nos últimos meses. E o campo da saúde é delicadíssimo, pelo facto de os doentes se encontrarem muitas vezes numa situação de profunda debilidade física e mental, razão pela qual um serviço profissional, humano e de proximidade, se revela preponderante         para tornar menos penosa a vida daqueles que infelizmente têm problemas de saúde.

Não é difícil humanizar os mais variados serviços, é apenas uma questão de profissionalismo.

03
Dez19

Uma carreira interrompida, é simplesmente a vida!

Paulo Dias

Tenho inveja daquelas pessoas que conseguem viver um dia de cada vez, eu não consigo e isso é terrível, chega a tornar-se um tormento, pois no meu caso contribui de forma decisiva para que o futuro nunca se apresente risonho, o que causa uma ansiedade tremenda e difícil de controlar.

Neste processo difícil de ser controlado, o presente tem uma participação importante, porque se não vivenciar experiências felizes, que me transmitam uma sensação de prazer, nunca conseguirei imaginar um futuro risonho, de oportunidades.

Perguntar-se-ão alguns, porque é que não vivo então o presente de uma forma feliz, para perspectivar um futuro mais risonho, não tenho qualquer explicação, ou melhor, passará tudo pelo estado depressivo em que me encontro, sim, porque tenho aquilo que é mais importante para mim, uma família, uma esposa que me ama, dois filhos lindos e que adoro, por isso não são os factos concretos que influenciam o meu presente e o meu futuro, é mais a minha cabeça.

Nestes últimos dias, dei por mim a pensar em algo supérfluo, mas que para mim é muito importante, a minha carreira profissional. Trabalhei muito para atingir os meus objectivos, durante estes vinte e dois anos, não recordo uma única vez que tenha colocado a minha vida pessoal em primeiro lugar, em detrimento da minha vida profissional e não me arrependo, porque amava aquilo que fazia e porque tive a felicidade de a mulher que amo nunca ter colocado qualquer entrave, percebeu sempre o quanto eu gostava da minha vida profissional e apoiou sempre as minhas decisões.

Contudo e de uma forma abrupta, por causa de uma maldita doença, vejo-me despojado de tudo aquilo que gostava de fazer na minha profissão e que passe a imodéstia julgo que fazia bem, Comandar Postos da Guarda Nacional Republicana, coordenar homens, ensinar e aprender todos os dias. Eu gosto do terreno, tudo o resto não me entusiasma e de repente vou percebendo que não vou nunca mais poder fazer aquilo que gosto, ou pelo menos fazê-lo com toda a propriedade, pleno de todas as minhas faculdades psíquicas e físicas para o desempenho de tão difícil e honrosa missão, por isso não coloco a hipótese de algum dia voltar aquilo que gosto em termos profissionais, seria enganar quem confiasse em mim, ao mesmo tempo que me enganava a mim próprio e colocava a minha vida em risco, o que me impossibilitaria de ver os meus filhos crescer.

Mas tudo isto, se revela angustiante, já tinha passado por uma experiência parecida em duas ocasiões. Nunca escondi de ninguém, que a minha “praia” era a investigação criminal, em 2008 vi-me obrigado a sair da minha zona de conforto, a investigação e assumir uma experiência totalmente nova, o comando de Postos territoriais, pela simples razão que a investigação no seio da GNR, estava na minha opinião a avançar por caminhos tortuosos e com os quais não me identificava, razão pela qual pedi para sair. Fi-lo no início, com uma grande tristeza e com prejuízo da minha vida familiar, mas com o passar do tempo fui percebendo a importância dos militares dos Postos Territoriais junto das populações, na segurança de pessoas e bens e essa perspectiva fez-me entregar de corpo e alma ao serviço territorial, ao comando de Postos. No entanto, em 2015 surge a oportunidade de voltar à investigação, fi-lo sem exitar, mas novamente com prejuízo da minha vida familiar, como sempre contei com o apoio da minha esposa, o que me dava uma grande segurança. Contudo e com o passar dos meses, vou percebendo que nada se havia alterado desde 2008 em termos organizacionais, pelo contrário encontrei a “casa” investigação criminal ainda mais desorganizada, sem objectivos claramente definidos, com uma gritante sobreposição de funções no contexto da investigação, mas isso apesar de me abanar, não me faria desistir, ao contrário daquilo que tinha feito em 2008, achei que a melhor forma de tentar mudar mentalidades e conceitos, era estar por dentro, participei em reuniões de coordenação da investigação criminal que se revelavam inócuas, nada com que não contasse, restava-me continuar a luta para poder alterar as coisas. No entanto, em Maio de 2016 surge um episódio digno de um filme, no qual não me revi, que me indignou profundamente e que coloquei superiormente para salvaguardar a imagem da GNR, o episódio foi relativizado por quem tinha capacidade de decisão, o que me fez novamente pedir para sair, saída que aconteceu em Outubro de 2016, voltei a assumir o comando de um Posto. Sobre o episódio que despoletou tão repentina saída, resta-me esperar que alguns pontos fiquem resolvidos e depois falarei sobre ele, serão muitas páginas por forma a que os meus amigos entendam de uma vez por todas a minha passagem tão fugaz pela investigação nesse período e a razão da minha indignação.

Voltei ao comando de Postos, bastante motivado como sempre, pois o que não me motiva, não me atrai e em consequência disso não participo. Continuei a dar o máximo de mim, sem lamentações, motivadíssimo, a ensinar e aprender no dia a dia, até que o dia 1 de Agosto de 2018 me empurrou repentinamente para uma cama de hospital, tendo colocado um ponto final na história, pois ao ver-me obrigado a colocar um ponto final naquilo que fazia com imenso prazer, percebi que era o fim da carreira que perpectivava. Parece-vos uma posição muito radical? Só para quem não me conhece, para quem desconhece a paixão profissional que foi até capaz de “camuflar” a minha depressão durante imensos anos.

Neste momento, quando as perspectivas de carreira ficaram para trás, tenho tentado focar-me noutros objectivos, a família sempre, tentar vivenciar um presente mais agradável, para não imaginar um futuro assente em aspectos catastróficos e sonhar que apareça algo em termos profissionais que me volte a motivar.

Por último um ensinamento importante, a doença fez-me perceber o quão fugaz é a nossa vida, por isso importa aprender a vivê-la dia a dia, hora a hora.

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