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Desabafos

Desabafos

25
Jan20

A sensação de ser descartável!

Paulo Dias

Os meus dias têm sido preenchidos com outros afazeres, que vão relegando a escrita para segundo plano e por essa razão tenho escrito com menos assiduidade.

Na visita desta semana à psicóloga que me acompanha, profissional e ser humano fantástico, Doutora Marianne Cordeiro e nas conversas que vamos mantendo, as quais fazem parte da terapia e que passam em grande parte por obrigar-me a exteriorizar aquilo que sinto e muitas vezes não expresso, pelo menos através da expressão oral, como é do conhecimento de muitos, prefiro a escrita, mas isso não é necessariamente bom e por isso a Doutora Marianne tem vindo a fazer um trabalho fantástico. Mas como ia dizendo, nesta última sessão a mesma interpelou-me se me sentia descartável/esquecido por amigos e pela instituição, Guarda Nacional Republicana, acabou por tocar numa questão muito sensível e que por vezes consome os meus pensamentos, a questão é tão pertinente, que só de pensar nela, me deixa emotivo e com os olhos humedecidos, o que a bom da verdade também não é assim tão difícil, pois como já referi mais do que uma vez, sempre fui emotivo e de lágrima fácil. Houve inclusive uma parte significativa dos meus 45 anos de vida, que fazia tudo para evitar que os outros percebessem as minhas emoções e escondia o meu choro, no entanto, depois da morte do meu príncipe Alexandre, nunca mais escondi as emoções, nem as lágrimas e hoje convivo muito bem com esse extravasar das emoções, se tenho vontade de chorar, choro, sem preocupações do local onde me encontro ou das pessoas que estão junto a mim, só faço um esforço para não chorar junto dos meus príncipes, mas confesso que algumas vezes não consigo.

Ora sendo sincero, não há forma de camuflar a questão ou de me referir a ela de forma mais diplomática, até porque há muito tempo que a vida, mais concretamente as pessoas fizeram que  aquele Paulo Dias que todos conheciam no inicio da minha carreira, alguém extremamente calmo, que perante as situações mais complexas mantinha a calma e quando a situação era delicada optava normalmente por resolvê-la, através do diálogo, procurando consensos, mas esse Paulo Dias já não existe, a vida e as pessoas obrigaram-me a mudar o registo, para alguém menos paciente e que se cansou de resolver conflitos entre outras pessoas ou comigo próprio, sempre através de uma tentativa de diálogo conciliadora. Por isso perante a questão da Doutora Marianne, fui obrigado a responder aquilo que várias vezes me tem consumido os pensamentos de à dezoito meses a esta parte, há amigos que com o tempo se vão esquecendo de nós, quantos a estes quero acreditar que as suas vidas são muito preenchidas e que isso a juntar à minha ausência forçada, os vai fazendo esquecer do Dias, ou o Paulo Dias, ou o Sargento-Ajudante Dias, mas como dizia o meu querido pai, quem não é visto, não é lembrado.

No que toca ao acompanhamento institucional, aí sim estou a sentir aquela situação estranha e que jamais pensei que pudesse vir a acontecer, sou/somos completamente descartáveis. Desde o primeiro momento, ou seja, do dia do meu internamento não senti qualquer apoio ou preocupação com o meu estado de saúde, se os meus filhos ou a minha esposa necessitavam de alguma coisa e esta atitude ou falta dela, não foi praticada por estranhos, mas sim por parte das pessoas com responsabilidades numa Unidade que servi durante mais de vinte anos, ou seja, toda a minha vida nesta instituição e isto custa imenso, quem nunca passou por esta situação não acredito que consiga sequer imaginar o quão difícil é enfrentar esta sensação de nos sentirmos material descartável, literalmente, daquele que se coloca no ecoponto ou até no caixote do lixo se der muito trabalho ir ao ecoponto.

Eu tenho tido apoio dentro da GNR, mas fui eu que o procurei, pois já estava em casa à mais de 180 dias e achei estranho não ser chamado para uma Junta Médica, por isso dirigi-me ao Centro Clinico da GNR e expus o meu caso, para meu espanto ou talvez não, o Unidade de Saúde da GNR, não sabia sequer que me encontrava de baixa, muito menos na situação em que me encontrava, como poderia eu esperar que algum psicólogo me ligasse a perguntar se precisava de algum apoio, impossível.

 Foi a partir dessa minha ida ao Centro Clínico e repito por minha iniciativa, porque se não corria o risco de passados dezoito meses continuar em casa sem nunca ter sido sujeito sequer a uma junta médica da Guarda. Passei então a contar com um óptimo acompanhamento médico, profissionais extraordinários, a quem estarei eternamente agradecido. No entanto, não deveria ser eu a procurar o Centro Clínico, essa devia ter sido uma preocupação da minha anterior Unidade, mas houve uma grande falta de profissionalismo, pela falta de informação ao Centro Clínico e mais grave do ponto de vista como os profissionais são tratados em determinados locais, somos um número e esse número vai e outro irá certamente vir para o substituir.

Em todos este processo doloroso, contei sempre com a preciosa ajuda de um Comandante daqueles com letra grande, senhor Coronel Bessa, que mesmo a milhares de quilómetros de distância tem sido incansável no acompanhamento do meu estado de saúde, coincidência, tal como eu também o senhor Coronel Bessa, sempre pautou a sua conduta pelo profissionalismo, e não pela palmadinha nas costas, nacional porreirismo e como diz o meu amigo Manuel Ferreira Antunes, pelo “lambebotismo”.

Não me quero neste momento alongar muito mais, até porque como já referi este assunto deixa-me desconfortável, emocionado e com os olhos humedecidos, pelo sentimento de tristeza que me invade ao sentir-me descartável por parte das pessoas que são responsáveis pela Unidade que servi com toda a dedicação, profissionalismo e lealdade durante mais de vinte anos.

Mas não retirem deste meu texto a ideia que estou zangado ou triste com a minha instituição, pelo contrário, agradeço tudo aquilo que a Guarda Nacional Republicana me deu, desde a possibilidade de ajudar quem em algum momento estava mais fragilizado por ter sido vitima de algum crime, por tudo o que me proporcionou em termos de aprendizagem profissional e humana, por me ter dado a felicidade de me cruzar com excelentes profissionais desde militares da GNR, a magistrados do Ministério Público, magistrados judiciais, oficiais de justiça e profissionais das mais variadas áreas, nunca esquecendo que a GNR me proporcionou uma vida melhor, porque eu nunca esqueço as minhas origens humildes de que muito me orgulho (obrigado por tudo senhor Feliciano e dona Catarina), permitiu-me proporcionar aos meus príncipes até ao dia de hoje, uma vida completamente diferente da minha, porque amor, educação e comida na mesa sempre tive, no entanto deixa-me feliz proporcionar-lhes oportunidades que eu nunca tive, por tudo o que referi, seria injusto da minha parte confundir pessoas, com a nobre instituição que é a Guarda Nacional Republicana a quem muito devo e a quem sempre tentei retribuir com palavras que nos dias de hoje vão parecendo estranhas, dedicação, profissionalismo e lealdade.

 

16
Jan20

A gestão de meios humanos e materiais!

Paulo Dias

A vida é efémera, mas quando ontem assisti à intervenção do senhor ministro da Administração Interna na respectiva comissão parlamentar e no seguimento da votação do orçamento de estado na especialidade, anunciar a entrada até 2023 de cerca de dez mil efectivos, para suprir a falta de meios humanos na Guarda Nacional Republicana e na Policia de Segurança Publica, faço votos que isso realmente se verifique e que eu esteja cá para ver, porque eu sou um pouco como São Tomé, ver para crer.

A falta de efectivos é uma realidade que se vem acentuando nos últimos anos, por isso estas incorporações faseadas até 2023 numa e noutra força de segurança são uma excelente noticia para as populações, pois existindo uma boa gestão dos recursos humanos que privilegie a componente operacional, obtando por reforçar o policiamento de proximidade e de visibilidade, conduzirão certamente ao aumento do sentimento de segurança entre os cidadãos, afinal este é o objectivo primordial da existência da GNR e da PSP.

Esta é uma questão muito cara para mim, porque sempre fui defensor que os recursos humanos e a parte logística e financeira dentro da Guarda Nacional Republicana, deviam ser entregues a gestores profissionais dentro destas áreas, que estas funções fossem entregues aos melhores entre os melhores e com competências provadas no sector privado, oferecendo-lhes uma remuneração tentadora e a quem ao final de cada ano civil seria solicitado que apresentassem resultados nas respectivas áreas, que mostrassem uma eficaz gestão dos meios à sua disposição.

Mas este é um anseio meu, o qual acredito que jamais será possível colocar em prática, por isso cabe aos que cá estamos e desempenhamos funções de comando nos vários escalões, fazer uma gestão criteriosa dos meios humanos e materiais colocados à nossa disposição. Vou abordar a questão no meu escalão e no papel de comandante de Posto, função que desempenhei durante vários anos. É responsabilidade do comandante de Posto gerir os parcos recursos humanos que tem à sua disposição e não se desculpar constantemente que não tem militares para fazerem patrulhas apeadas, que são a única modalidade que conheço para desempenhar um eficaz policiamento de proximidade e de visibilidade. Então se não temos militares para lançar patrulhas apeadas no terreno, porque é que não definimos vários pontos onde a patrulha às ocorrências pare, apeie e faça o policiamento que o cidadão de bem anseia? O que é que interessa fazer cem ou mais quilómetros durante essa patrulha, se esses quilómetros não se traduzem num policiamento efectivo, também não adianta estabelecer os pontos de paragem e a patrulha às ocorrências não sair da viatura, ocupando o tempo a ver os veículos e as pessoas a passarem ou com a cabeça em baixo e de olhar fixo no telemóvel.

Pelos Postos Territoriais por onde passei e quando os recursos humanos escasseavam, sempre coloquei em prática esta modalidade e que posso garantir com resultados positivos junto das populações, estabelecia pontos de policiamento apeado em locais sensíveis, como bancos, farmácias, comércio tradicional, grandes e médias superfícies comerciais, principais entradas das localidades, cabe depois a cada um e tendo em conta as suas zonas de acção, estabelecer prioridades, que não passarão certamente por andar a fazer muitos quilómetros de viatura. É difícil implementar este modelo, claro que sim, policiamento apeado encontra resistência na generalidade dos militares, mas essa é a nossa função, pensar no bem comum e não em interesses individuais.

Falemos agora da frota automóvel existente em grande parte dos Postos Territoriais, outra das funções de gestão a cargo dos Comandantes de Posto. Será difícil ver com regularidade o estado e quilometragem das viaturas e pedir atempadamente a revisão das mesmas, já por si bastantes desgastadas e com muitos quilómetros? Não será nossa obrigação zelar pela limpeza e conservação das viaturas? Ou será mais fácil permitir que as mesmas muitas vezes circulem com desprezíveis condições de apresentação e de asseio?

Deixar andar é o caminho mais fácil, mas não somos pagos para deixar andar, mas sim para tomar decisões e gerir os meios colocados à nossa disposição e não andarmos sempre a queixar-nos e a fazer transparecer para a opinião pública, que não desempenhamos a nossa missão, porque somos uns “coitadinhos” e não temos meios.

Tudo o que disse e que sei que não é consensual, bem pelo contrário, no entanto esta foi sempre a minha forma de olhar para a missão que me era confiada, não como um problema, mas antes como um desafio, para o qual tinha de encontrar as melhores soluções.

Nada do que escrevi até agora invalida, que tenha sido sempre exigente de forma respeitosa para com o escalão superior, de forma a exigir melhores condições de trabalho para os militares sobre o meu comando, a começar pelas condições de habitabilidade dos Postos, exigindo sempre que estas fossem dignas, passando pelo equipamento operacional para o desempenho da missão, viaturas, armamento, algemas, bastões, material retrorrefletor e algo que nunca consegui e que não vislumbro que vá acontecer a curto e médio prazo, que passa por distribuir a cada patrulheiro um colete balístico, que envergue no inicio da patrulha e apenas o retire dentro do Posto e quando a patrulha estiver finalizada. Esta medida de protecção é elementar em pleno século XXI e não deveria sequer ser assunto de conversa, basta-nos olhar para a generalidade dos países desenvolvidos e é impossível ver um patrulheiro sem que envergue um colete balístico.

Há muitas coisas que sempre me fizeram confusão, mas que ultrapassavam as minhas, responsabilidades, além dos coletes balísticos que já referi e são elementares no equipamento de uma Força de Segurança, a frota de viaturas é algo que nunca consegui perceber, interrogo-me até hoje porque é que a Guarda Nacional Republicana com uma frota automóvel de milhares de viaturas, não opta por contratos de gestão de frota? Pergunto-me se este não seria o caminho mais indicado em termos de custos e a forma de manter a frota sempre renovada e por consequência operacional? Eu não percebo nada de gestão, a matemática até foi sempre o meu fraco na vida académica, mas já efectuei várias pesquisas sobre o assunto que apontam estes planos de gestão de frota como o mais aconselhável para empresas que disponham de muitas viaturas e por isso pergunto-me, quantas empresas em Portugal possuirão o número de viaturas que a GNR possui?

Ainda em relação às viaturas, será necessário adquirir e passo a publicidade, Wolkswagens Passats para o serviço de patrulha, quando com esse valor certamente seria possível adquirir em vez de uma, certamente duas viaturas de uma gama mais baixa e que desempenhariam o serviço de igual forma?

São muitas interrogações, mas este texto é uma reflexão para os Sargentos Comandantes de Posto, porque eu não sou nem nunca fui oficial e por isso não posso colocar-me numa função que nunca desempenhei, mas de uma coisa tenho a certeza, cabe aos Comandantes de Posto gerirem da melhor forma os meios colocados à sua disposição, por muito parcos que eles sejam, pois o nosso foco deve ser apenas um, a segurança de pessoas e bens, sem desculpas, mas com propostas viáveis para os problemas e para as carências que achamos ser importante suprir. Ah! E por escrito, porque um velho Comandante sempre me disse, que as palavras leva-as o vento.

Mas por favor, pela imagem de profissionalismo dos Sargentos da Guarda, pelo cumprimento da missão que vos foi confiada e que é a mais nobre e importante que possa existir, a segurança de pessoas e bens, não se demitam das vossas funções e não se refugiem por detrás de desculpas que apenas contribuem para a insegurança das populações que juraram proteger, juramento que jamais poderá ter sido feito de ânimo leve.

 

15
Jan20

O caminho mais fácil, não é com certeza aquele que serve o interesse geral!

Paulo Dias

Como já referi várias vezes, Portugal é um país onde reina o nacional porreirismo e a palmadinha nas costas, com índices preocupantes nos serviços da função pública, pois as empresas privadas de uma forma geral são mais exigentes, porque os maus profissionais causam prejuízos económicos, além de uma má imagem da empresa, que em consequência tem repercussões na saúde económica e por isso ou invertem o rumo, ou são despedidos.

Já no sector estado e a começar no topo da pirâmide estamos envolvidos numa teia de corporativismo, que não permite que os mais variados serviços prestem um serviço de qualidade ao cidadão. Existe uma forma muito peculiar de pensar, isto não é nada meu, no final do mês o meu vencimento está certo, os índices de produtividade não são avaliados e se o são é com base em regras pouco claras e tudo isto conduz a um comodismo por parte das chefias, dos gestores, directores dos vários serviços, torna-se mais fácil para todos dizer que sim a tudo, a palavra não leva-nos muitas vezes à confrontação e quase ninguém quer dizer não, o sim é mais comodo, não nos trás problemas, mas conduz-nos a um mau serviço público.

De uma forma geral, quem desempenha cargos de chefia, gestão ou direcção, não é exigente consigo próprio no desempenho das funções para as quais é pago e como é óbvio ao não ter um grau de exigência na primeira pessoa, ao não liderar pelo exemplo, não tem autoridade para exigir o que quer que seja dos seus subordinados e em consequentemente entramos num efeito bola de neve, o líder não faz, quem está sobre a sua liderança não se vê por isso na obrigação de fazer e  quem sai prejudicado deste ciclo vicioso é o comum cidadão, que recorre aos mais diversos serviços do sector público.

Várias foram as vezes que me dirigi a um serviço público e fui atendido com uma falta de profissionalismo gritante, já reclamei no livro de reclamações de alguns desses serviços e nunca obtive uma resposta conclusiva das entidades a quem cabe a tutela dos mesmos. Invariavelmente a resposta gira em torno, de um pedido de desculpas camuflado, que a situação vai ser averiguada, etc., mas como é que alguém pode responder a uma reclamação de um serviço mal prestado, sem sequer ouvir o queixoso, é de uma incoerência total, pedem as tais desculpas camufladas e depois vão averiguar, não seria de bom tom averiguar primeiro, ouvir as partes e depois então responder de forma conclusiva, claro que estes procedimentos correctos não interessam aos comodistas, seria colocar areia na engrenagem do nacional porreirismo e da palmadinha nas costas.

Eu desconheço por completo o funcionamento interno dos diferentes serviços, mas não é o caso da instituição que sirvo à vinte e dois anos e da qual posso falar com toda a propriedade, pois fui praça, soldado e cabo e desde 2006 sou sargento, já passei pelos mais variados locais entre a patrulha, a investigação criminal e o comando de Postos Territoriais, nunca estive mais de dois a três anos em qualquer dos locais por onde passei, porque sempre achei que não deveria acomodar-me em nenhum local, foi sempre a minha forma de estar, porque acredito que a permanência no mesmo local, pode conduzir a uma certa desmotivação, sempre ansiei novos desafios na minha vida profissional e porque durante o período que permanecia nos vários locais, exigia o máximo de mim e daqueles que comigo colaboravam e isso acaba por se tornar desgastante para ambas as partes.

Gosto de facilitar a vida pessoal daqueles que comigo colaboram, pois esta é uma profissão muito exigente e temos de ter espaço para as nossas famílias, para os nossos momentos de lazer, para resolver os nossos problemas pessoais, mas depois em termos profissionais exijo 200%, ou melhor exijo tudo aquilo que as pessoas têm para dar, pois os cidadãos esperam que as Forças de Segurança lhes transmitam um sentimento de segurança, com visibilidade, proximidade e profissionalismo.

Esta forma de estar, criou-me algumas inimizades, alguns que ansiavam todos os dias verem-me pelas costas, mas posso afirmar com toda a certeza, que são mais os profissionais com quem tive o privilégio de trabalhar que me respeitam, porque sempre liderei pelo exemplo, com lealdade, frontalidade, fui muitas vezes obrigado a dizer que não, mas a mim pagavam-me para servir o cidadão e não para servir interesses privados ou corporativistas, nunca alinhei no nacional porreirismo, na palmadinha nas costas ou numa frase muitas vezes utilizada, máxima liberdade máxima responsabilidade, não, quer nos momentos bons quer nos maus a responsabilidade era única e exclusivamente minha e por isso tinha de estar sempre presente, tinha de ser o primeiro a saber de qualquer coisa que acontecesse, por mais irrisória que pudesse parecer, mas isso cabia-me a mim decidir. Em resultado deste meu grau de exigência, andei muitas vezes cansado, stressado, nervoso, mas sempre dormi tranquilo com a minha almofada em consequência das decisões que tomava no dia a dia.

O que eu vejo hoje e vou dizê-lo da forma mais frontal possível, são comandantes desta nobre instituição que é a Guarda Nacional Republicana, a desresponsabilizar-se das suas funções de liderança, de liderar pelo exemplo, de serem frontais e leais aqueles que comandam e por quem são comandados, exigindo da parte deste o mesmo, essas duas qualidades necessárias para uma convivência assente no respeito mútuo, lealdade e frontalidade, vejo comandantes ausentes, que em consequência disso e por forma a protegerem-se, não são capazes de dizer não, de colocar os interesses das populações à frente dos interesses privados de um ou outro elemento, alinhando nos abomináveis nacional porreirismo e palmadinha nas costas. Quem acaba por sofrer com esta postura pouco profissional? Em primeira mão a razão da existência da GNR, segurança de pessoas e bens e em consequência disso a imagem da GNR sai muito depauperada.

Outro factor que compromete a missão da Guarda, são os “yes men”, que com intuito de não terem chatices, dizem que sim a tudo perante a hierarquia e eu fui ensinado e mais uma vez a ser leal e frontal para com a hierarquia, o Regulamento de Disciplina da GNR não nos coíbe de discordar da opinião de algum superior hierárquico, desde que o faça de forma respeitosa e sempre que discordamos cabe-nos apresentar uma solução, uma alternativa, não ver um problema e ter antes a preocupação de apresentar uma alternativa, depois e em última instância a decisão final é do superior hierárquico e ponto final.

Para todos aqueles que leram este texto e que não conseguiram perceber de quem estou a falar e a responsabilizar pelo caminho que a GNR está a seguir e que temo que possa ser calamitoso e nos conduza a um ponto sem retorno, estou a falar da minha classe, os Sargentos, que em números assustadores não assumem as suas responsabilidades, que estão a tornar-se uns “yes men”, sem verticalidade, por isso e porque não me revejo nesta forma de estar que se está generalizar, esta não é a “minha” Guarda Nacional Republicana e não sou melhor nem pior que ninguém, cometi muitos erros na minha carreira, mas errava porque fazia, porque quem pauta a sua forma de estar pela inércia, dificilmente vai errar e infelizmente esta inércia é premiada.

Durante a minha carreira sempre fui um “revolucionário” relativamente aos maus profissionais, já não serei eu que irei ajudar a mudar nada, no entanto tenho esperança que o rumo se altere, que cada Sargento da Guarda assuma as suas responsabilidades e que exija de todos os escalões hierárquicos o mesmo assumir as responsabilidades que cabe a cada um e quem vai beneficiar são aqueles que são a razão da nossa existência, os cidadão.

Quanto a mim enquanto profissional fui aquilo que fui, olhando para trás não alterava nada nas decisões que tomei e na postura pela qual pautei a minha vida profissional e por isso digo hoje com orgulho, que durmo completamente tranquilo com a minha almofada em razão das decisões que tomei e mais importante ainda, sem falsas imodéstias olho para os meus príncipes de cabeça bem levantada, demonstrando o orgulho enorme que tenho neles e certo que se podem orgulhar do pai.

12
Jan20

Ter o discernimento para definir as prioridades da nossa vida efémera!

Paulo Dias

Já disse e repeti várias vezes, talvez até demais, que quando a vida nos surpreende com um acontecimento negativo e depois de um choque inicial em que ficamos com aquela sensação estranha de que a nossa vida se desmoronou por completo e damos por nós assustados demais para sequer reagir. Vem depois um sentimento completamente oposto, começamos a dar um valor especial a aspectos da vida que a azáfama do dia a dia nos fazia relegar ainda que de forma inconsciente para segundo plano.

Eu era alguém muito focado no meu trabalho, na nobre função de zelar pela segurança dos outros, algo de que não me arrependo, ao mesmo tempo tinha ambições na minha carreira e essas sim percebo neste momento e sem rodeios que eram tão desmedidas como desnecessárias e que para mim hoje não fazem qualquer sentido.

Ora como resultado de uma vida profissional de grande exigência e muito intensa, passei mais de vinte anos a relegar para segundo plano, ainda que de forma inadvertida, o mais importante que todos temos nas nossas vidas, a família. Hoje digo com orgulho que me dediquei à causa pública com tudo o que tinha para dar, mas em simultâneo fico inúmeras vezes triste por perceber que não estive presente em demasiados momentos importantes da minha família, que fui um pai ausente vezes sem conta, o que me deixa revoltado comigo próprio, pois o tempo não volta para trás e jamais poderei recuperar os momentos perdidos.

Apenas uma vez em toda a minha vida profissional, fui colocado num local a meu pedido, todas as outras e foram várias, resultaram de ordens superiores que jamais questionei e que quase sempre me afastavam da família, na distância e na exigência da missão que me era confiada, que me tomava muitas horas por dia, nunca parei para pensar na família, fui egoísta e valeu-me sempre a pessoa com quem me casei e que sempre me apoiou.

A Paula, a minha esposa, essa mulher fantástica a que já fiz alusão várias vezes e que durante os mais de vinte anos que dediquei a uma causa, foi pai e mãe, desempenhando esses dois papéis de forma irrepreensível, quer na educação dos nossos príncipes, quer em tudo aquilo que está inerente à vida familiar, aliando ainda a sua vida profissional, tudo isto representa uma carga enorme para uma pessoa só, enquanto eu achava que a minha vida profissional era muito exigente, nunca parei um instante para pensar o quão mais difíceis e exigentes eram as múltiplas tarefas desempenhadas pela Paula.

Tudo o que aqui estou a desabafar, causa em mim um sentimento de grande arrependimento e mágoa, mas hoje o que mais remorsos me causa e julgo que a Paula não me levará a mal, é o pai ausente que fui até ficar doente, a falta que os meus filhos devem ter sentido nas diversas fases do seu crescimento, uma enorme ausência. A falta do pai nas brincadeiras, a falta do pai no acompanhamento escolar, em especial no caso do João, pois o Dinis inicia no ano de 2020 o 1º ciclo do ensino básico. A única vez que fui um pai mais presente foi aquando da doença do nosso príncipe Alexandre que o conduziu a uma morte prematura, mas apenas fui presente nas instalações do hospital de Santa Marta onde o Alexandre esteve internado durante 39 dias, pois o militar da Guarda Nacional Republicana destemido e que nunca olhou para trás nos momentos mais difíceis, que perseguiu e prendeu criminosos nos mais diversos contextos, perante a doença grave de um filho, acobardou-se e nos últimos dias de vida do Alexandre, não passava da sala de espera dos cuidados intensivos, um atitude cobarde de que jamais me perdoarei, enquanto a super mãe, a super esposa, a super mulher, não saía por um instante da cabeceira de um filho gravemente doente.

Foi necessário um episódio de saúde ou falta dela, que me fez parar, fazer uma introspecção, um mea culpa para o qual não existe penitência, apenas um enorme arrependimento pelo muito tempo em que não tive o discernimento, a capacidade de definir prioridades, como digo muitas vezes, não soube desligar a ficha e agora não há volta a dar, porque esse tempo não volta para trás. Não vale a pena pedir desculpas à Paula e aos meus príncipes, pois o ditado é muito certo, as desculpas não se pedem, evitam-se, resta nunca mais me esquecer de que a família é a prioridade, o mais importante que temos no mundo.

Por isso meus amigos, se não cometeram os meus erros que eu, admiro-vos pelo vosso discernimento, se a vossa vida vai no mesmo sentido que a minha, peço-vos um favor, façam uma pausa enquanto têm tempo, reflictam sobre o que para vida, e tenho a certeza que a família se apresentará como a vossa superioridade suprema e que conseguirão conciliar com a vossa vida profissional, aprendam a desligar a ficha, eu infelizmente nunca soube.

07
Jan20

A morte!

Paulo Dias

Desde que me recordo da minha existência fui sempre um hipocondríaco inveterado, qualquer dor, qualquer má disposição, levava-me sempre a pensar no pior, que teria alguma doença má e por aí adiante, o simples facto de ouvir alguém relatar um qualquer problema de saúde e o seus sintomas, levava-me logo a pensar que também eu teria o mesmo problema, é algo que achamos jamais poder controlar.

Eu apenas me diferenciava das pessoas hipocondríacas no facto de ter receio de ir ao médico, evitava ao máximo entrar num consultório e quando o fazia os nervos e a ansiedade apoderavam-se de mim, porque achava sempre que me ia ser diagnosticada uma doença grave, mas na generalidade os hipocondríacos caracterizam-se por visitas constantes ao médico, por quererem fazer exames a tudo e mais alguma coisa de forma a despistarem a existência de uma doença que acreditam ter, por isso até neste aspecto sou um tipo estranho.

Escusado será dizer que grande parte da minha vida foi passada com um medo terrível de qualquer doença e aterrorizado pela ideia da morte, com uma única excepção, absorvido pelo serviço e em situações de risco elevado, nunca temi a morte, parece um contrassenso, mas é a realidade. Contudo e quando eu achava que jamais iria controlar este problema, eis que no dia 1 de Agosto de 2018 sou internado no Hospital de Santa Maria e esse data mudou a minha vida em diversos aspectos, um deles foi a perda de qualquer receio de morrer. Nesse dia e como se diz na minha terra, chorei baba e ranho, nem queria ir ao hospital, mas a minha esposa conseguiu ser mais persuasiva e lá me levou à urgência de oftalmologia de Santa Maria. Observado pela oftalmologia e perante o cenário observado pelo médico, este decidiu chamar a neurologia, ora quando me vi a ser observado por vários neurologistas, ao ver-me numa máquina de TAC e depois do neurologista ver este exame, comunicar à minha esposa que eu tinha de ficar internado para na manhã do dia seguinte realizar uma ressonância magnética, pois existia uma grande probalidade de ter um cancro no cérebro, chorei como uma criança durante horas.

No dia seguinte enquanto aguardava pela ressonância, chorei muito, quando fui colocado na máquina para realizar o exame, pedi de imediato para sair, no entanto nessa altura e no espaço de poucos segundos a minha cabeça fez um clique, pensei nos meus filhos e que por eles tinha de fazer aquele exame e depois fosse o que Deus quisesse. Fiz o exame no tempo previsto, sem necessidade de fazer qualquer interrupção, parei de chorar, fui novamente para o SO de Santa Maria e até às seis da tarde do dia 2 de Agosto de 2018 não verti nem mais uma lágrima, nessa altura o mesmo grupo de neurologistas que me haviam observado no dia anterior, comunicaram-me que teria de ficar internado no serviço de neurologia para realizar mais exames, no entanto a hipótese de ter um cancro no cérebro estava praticamente descartada, que o meu problema era algo que acontecia com muito pouca frequência, tratar-se-ia à primeira vista de uma encefalopatia hipertensiva, que é basicamente uma lesão no cérebro provocada por valores da hipertensão arterial completamente fora do normal, como no meu caso que durante os primeiros dias de internamento tive registos de 250 de sistólica e 190 de diastólica, era segundo uma neurologista com mais experiência uma autêntica bomba relógio. A encefalopatia em si é reversível, o que é irreversível são as lesões provocadas em outros órgãos, nomeadamente, visão, coração e rins.

Nos 21 dias que estive internado, foram-me efectuados uma parafernália de exames, TAC, ressonâncias, punção lombar e muitos outros, fi-los com a maior naturalidade e sempre que efectuava um exame mais invasivo, como é o caso da punção lombar, fixava o pensamento nos meus filhos e realizava o exame com toda a naturalidade, acho por isso que fui um doente fácil para médicos e enfermeiros durante o período do meu internamento.

Por isso meus amigos, desde o dia 2 de Agosto de 2018 que posso dizer que deixei de ser hipocondríaco, passei a realizar exames médicos e a visitar médicos das várias especialidades, com a maior das naturalidades e deixei de temer a morte. O fim da vida passou a ser algo que enfrento com toda a naturalidade, apenas com um senão, gostava de acompanhar o crescimento dos meus filhos, ajudá-los a concretizar os seus sonhos, vê-los serem felizes com saúde, sempre com a nossa guerreira Paula por perto.

Nada disto invalida que os meus pensamentos catastróficos que em muito contribuíram para o estado depressivo em que me encontro tenham desaparecido, nada disso, são até mais atormentadores neste momento, mas não em relação aquilo que o futuro me reserva em termos de saúde, mas sim em relação à saúde e ao bem estar dos meus príncipes, da mulher por quem estou cada vez mais apaixonado e de todos aqueles que amo.

Alguns ao lerem este texto, acharão que a morte é algo associado à depressão através do suicídio, mas no meu caso e felizmente é algo que está completamente fora de jogo, porque nunca me ocorreram tais pensamentos,  seria cobardia da minha parte renunciar à vida, quando Deus me proporcionou a oportunidade de estar junto daqueles que amo, quando as taxas de sobrevivência de um episódio clinico como aquele que vivi, são bastante reduzidas, por isso meus amigos, nunca seria eu a renunciar à vida.   

Se estou a aproveitar a vida da melhor forma, mentiria se dissesse que sim, a maldita depressão não está a permitir que isso aconteça, mas estou a fazer um esforço hercúleo para superar a doença, ou pelo menos atenuá-la, com um único objectivo, estar o melhor possível junto da minha esposa e dos meus príncipes e viver momentos inesquecíveis em família, pois para mim tudo o resto está neste momento num patamar tão abaixo da minha expectativa de vida, que nem consigo sequer vislumbrar qualquer outra coisa além da família.

Este é apenas o meu desabafo e o meu testemunho, de como um acontecimento traumático pode alterar diversos aspectos da nossa vida, nomeadamente o de passar a encarar a morte com naturalidade e tentar focar-me na família e naqueles que amo como a exclusiva prioridade da minha vida. Às vezes pergunto-me se já irei tarde para emendar a mão e ter todo o meu foco direcionado para a Paula, o João Pedro e o Dinis, quero acreditar que não, mas que seja aquilo que Deus quiser.

02
Jan20

A decisão!

Paulo Dias

Tentei tudo e vou continuar a tentar, por forma a debater-me com esta maldita doença, esta porcaria silenciosa que nos devasta por dentro e que aos poucos nos vai corroendo e desgastando a nível psicológico e físico e que comigo tem uma agravante muito complicada, interfere de forma muito perigosa com a minha hipertensão maligna.

Eu que sempre pautei a minha vida por tomar decisões muito ponderadas, até nos momentos de maior tensão, julgo que sempre consegui ter o discernimento para que essas decisões fossem as mais correctas, admito que outras pessoas não tenham concordado com muitas das opções que tomei, no entanto eu não me arrependo de nenhuma delas.

Nunca esperei no dia de hoje, com quarenta e cinco anos de idade escrever este texto, muito menos por razões de saúde, as quais não controlo e logo eu que sempre tive o defeito enorme de querer controlar tudo, no entanto, a doença trouxe-me uma grande lição, à aspectos na nossa vida que não controlamos e a saúde é um deles. Neste minuto estou a escrever este texto com os olhos humedecidos pelas lágrimas de tristeza e emoção, mas no minuto seguinte não sei o que irá acontecer e não adianta sequer pensar nesta realidade, pois é simplesmente a vida.

Tudo isto tem-me feito reflectir muito, principalmente nestes últimos dias, que por vários motivos são de uma profunda nostalgia para mim e esta reflexão baseou-se em factos. Apesar dos fármacos e da ajuda psicoterapêutica, continuo com muita dificuldade em controlar a minha ansiedade, o meu nervosismo, os meus medos, o que contribui de forma nociva para a minha hipertensão maligna, que em resultado de tudo isso anda sempre aos pulos, ou seja, ao longo do dia tenho picos de hipertensão, que são preocupantes tendo em conta o meu historial clínico, como de um momento para o outro estou hipotenso e se não tomar algumas precauções faço jus ao meu apelido e lá vai mais um fanico. Foram trinta anos a viver com a depressão a atormentar-me e eu a escondê-la, a enganar-me  e a prejudicar a minha saúde, mas depois do internamento em Agosto de 2018 e em que comecei a ter acompanhamento psiquiátrico e psicológico, achei que tudo ia mudar e que iria ter o controlo sobre a ansiedade, o nervosismo, o stress, os contantes receios que me atormentam, contudo hoje e passados dezassete meses, nos quais tenho sido sujeito a várias mudanças de medicação para a maldita depressão, do acompanhamento psicológico, do apoio familiar e de alguns amigos, não vislumbro e já não acredito em grandes alterações a este estado, pelo que sou obrigado a pensar que para além dos medicamentos para a hipertensão maligna, para o coração e para os rins que me acompanharão para o resto da vida, não esquecendo as dificuldades de visão com que me debato, devido à perda de uma enorme percentagem dos campos visuais periféricos de forma irreversível, situação à qual não me consigo habituar, pois temos de ter a capacidade de assimilar alguns truques para combater essa perda e para mim esse aspecto tem resultado difícil, todos estes factores e a minha constante “castrofização” do presente e do futuro, obrigam-me a admitir que terei que de continuar ad eternum com a medicação para a depressão, pois só por mim não vou conseguir, sendo obrigado a admitir que perdi esta batalha.

Perante este cenário e não havendo alterações significativas no meu estado de saúde, com especial ênfase para a porra da depressão e desculpem a linguagem, mas esta é a expressão que utilizamos no Alentejo quando estamos perante algo mau, sou forçado a ponderar os prós e os contras de continuar a exercer a minha actividade profissional, correndo sérios riscos de agravar o meu estado de saúde, ou tentar ter uma vida o mais calma que conseguir, com ajuda de medicação e entregar-me única e exclusivamente a desfrutar a minha família e a fazer algo lúdico que goste e me ajude a descomprimir o mais possível.

Como disse no inicio deste texto, possa tenho apenas 45 anos, adorava aquilo que fazia, tinha ambições profissionais, contudo tenho uma esposa fantástica, uma super mulher, que tem sido antes e depois da doença o meu principal suporte, que sempre me compreendeu nos bons e nos maus momentos, que fez tudo para eu me sentir realizado em termos profissionais, mesmo que vezes de mais tenha colocado o trabalho à frente da família, obrigando a Paula inúmeras vezes a fazer de pai e mãe, tenho dois príncipes lindos que quero ver crescer com saúde, vê-los felizes, ajudá-los a realizar os seus sonhos, razão pela qual e depois de muitas interrogações, dúvidas, de um dia dizer que queria uma coisa e no outro o contrário, achei que não podia mais voltar a ser egoísta e para que isso não acontecesse devia e devo colocar a minha esposa e os meus príncipes no topo das minhas prioridades.

Por isso mesmo e depois de inúmeras recordações, interrogações e muitas lágrimas à mistura, a minha decisão está tomada e por mim a carreira, aquilo que me apaixonava a nível profissional terminou, eu sei que a decisão de colocar um ponto final na minha vida profissional não depende apenas de mim, a instituição que sirvo com honra, lealdade, abnegação e profissionalismo à mais de vinte anos tem uma palavra decisiva, no entanto espero que me entendam e que compreendam a forma física e psicológica como me sinto e o porquê de ter escolhido como única prioridade da minha vida, a família. Pois se dissesse que me sinto em condições de voltar, mesmo que a instituição me tenha proporcionado as condições para estar num local mais preservado, que no entanto fica a cerca de 70 quilómetros da minha residência, o que me obrigará a sair de casa diariamente às seis e meia da manhã e regressar por volta das dezanove horas, com toda a azáfama inerente aos transportes públicos e à vida de uma grande cidade como Lisboa, estaria a mentir e isso era ser desleal para com a instituição Guarda Nacional Republicana, coisa que jamais irei fazer. Importa, contudo, esclarecer que fui colocado no Centro Clínico por opção minha, quando achava que a minha forma de estar e de sentir mudaria com a necessária ajuda, mas isso não se verifica, no entanto seria hipócrita não esclarecer que a opção foi minha.

Quero que compreendam que esta é uma decisão difícil e por isso foi muito ponderada, tenho 45 anos como já disse, tinha sonhos profissionais, terminar a carreira neste momento acarretará prejuízos financeiros significativos e eu tenho contas para pagar como todos nós, tenho dois filhos para criar, no entanto como me diz a minha principal conselheira, o dinheiro é pouco significativo se não tiver saúde, opto então por preservar o mais possível a saúde para poder estar junto da minha família.

Não vale apenas falar mais sobre o quão difícil resulta esta decisão, se acharem que não, experimente colocar-se no meu lugar e reflictam sobre o assunto. Tenho pena de não me sentir em condições de continuar a servir a Guarda e as pessoas através do serviço nos Postos Territoriais, porque são eles o pulsar desta enorme instituição, são os patrulheiros, os comandantes de Posto que estão junto das populações e que se desempenharem a difícil missão que lhes está confiada com profissionalismo, transmitirão às pessoas um dos bens mais preciosos, que é o sentimento de segurança e em consequência uma imagem positiva da Guarda, bem como não me sinto na plenitude das minhas faculdades para exercer qualquer outra função e sendo hipócrita e pensando apenas em mim, na minha carreira e no aspecto monetário, deixar-me-ia arrastar, mas eu não sou isso.

 Terei imensas saudades e uma certa nostalgia de tudo o que vivi a nível profissional, dos problemas e dificuldades com que diariamente me deparava, os quais eram resolvidos muitas vezes com um esforço sub-humano da esmagadora maioria daqueles que comigo colaboraram de forma extremamente profissional ao longo dos anos. Vivenciei inúmeras experiências, umas positivas outras nem por isso, no entanto de todas elas tirei ensinamentos que me fizeram crescer quer a nível profissional que pessoal, fui aprendendo com todas as pessoas com quem me cruzei ao longos dos anos, sendo um pouco imodesto acho que deixei amigos e saudade na maioria daqueles com quem me fui cruzando nos vários locais por onde passei, contudo não me iludo e sei que outros ficarão felizes com este ponto final, desejosos de me verem pelas costas. Mas a vida é mesmo isto, jamais me esqueço que um grande professor, um profissional de excepção chamado José António Branco Mendes, com quem tive o privilégio de trabalhar, me disse um certo dia quando ingressei no curso de Sargentos, que se um dia saísse de um Posto e toda a gente me desse palmadinhas nas costas, era sinal que tinha feito um péssimo trabalho em prol das populações. Por isso segui sempre uma linha, nós existimos para servir as pessoas, para zelar pela segurança das mesmas e dos seus bens, incuti sempre a necessidade de máximo profissionalismo, de um trabalho de equipa profícuo, os egos de cada um tinham de ficar à porta do local de trabalho, só pedia que a minha lealdade para com todos os profissionais fosse correspondida, pois de outra forma seria um suplicio trabalhar sobre o meu comando, por tudo isto fui sempre avesso ao nacional porreirismo e às palmadinhas nas costas, como disse sempre abraços e palmadinhas nas costas só da minha esposa e dos meus príncipes.

Tenho a perfeita noção que ao longo da minha carreira criei algumas inimizades, pois eu fui sempre muito frontal, com o coração muito perto da boca, sei que isso me prejudicou algumas vezes, no entanto lá vem a expressão de que tanto gosto, em razão das minhas decisões profissionais sempre dormi tranquilo com a minha almofada e isso foi um principio de que nunca abdiquei e sempre me nortorneou. Normalmente quando me descreviam algum profissional como sendo uma pessoa intratável, raramente me enganava e essa pessoa era um profissional de excepção, que colocava os interesses da Guarda Nacional Republicana e do sentido de dever acima de tudo o resto e são estas as pessoas de quem gosto.

Não irei referir nomes dos muitos e enormes profissionais com os quais tive o privilégio de me cruzar, pois correria o risco de me esquecer de alguém, mas a todos eles só me resta agradecer por tudo, pedir desculpa pelos meus momentos de azedume e mau feitio em situações de serviço e de maior adrenalina, bem o mau feitio é para muitos a minha imagem de marca, pelo menos para aqueles que não me conhecem, ou os que confundem mau feitio com exigência profissional, a todos o mais sincero obrigado por tudo o que vivemos juntos.  

Há, no entanto, uma pessoa neste momento que me vejo na obrigação de fazer um agradecimento muito especial e a quem desde já peço desculpa por referir o seu nome, pois sei que me ajudou neste momento difícil da minha vida, passando de forma incógnita e discreta. Era um daqueles por quem os maus profissionais não nutriam grande simpatia, achavam-no uma pessoa sem sentimentos, simplesmente porque não gostavam ou conviviam mal com a sua exigência profissional, tal como se passava como o meu querido amigo Sargento-Ajudante Branco Mendes, estou a falar do senhor Coronel Fernando Bessa, que como referi anteriormente nesta fase dificílima da minha vida e mesmo a milhares de quilómetros de distância, com uma ocupação profissional de grande responsabilidade e exigência, tem mesmo assim demonstrado uma preocupação genuína com o meu estado de saúde, com o meu bem estar, com a minha família, fazendo tudo o que está ao seu alcance para que eu possa ter o melhor acompanhamento possível, dando-me as suas opiniões, mas sem nunca procurar intervir nas mesmas, conversamos e ele apenas me diz para que eu tome as decisões que achar melhor para mim e para a minha família, que ele estará ali sempre disponível para ouvir os meus desabafos e para ajudar, por tudo o que tem feito por nós, eu e a minha família ser-lhe-emos eternamente gratos, bem haja meu Comandante.

Para alguma mente mais perversa, só relembrar que aqueles que melhor me conhecem sabem que sou um anti “lembebotismo”, expressão utilizada por outro grande amigo e professor, Doutor Manuel Ferreira Antunes, antigo Procurador do Ministério Público e hoje Juiz de Direito e não está como se percebe no meu horizonte, alguma vez mais estar sobre o comando do senhor Coronel Fernando Bessa, por isso não à “graxa” nestas minhas palavras, apenas realçar um grande profissional e uma pessoa com um coração enorme, pois outros com quem privei a nível profissional facilmente se esqueceram de alguma vez terem conhecido o Sargento-Ajudante Fanico Dias.

Sem saber se o futuro me reserva aquilo que acho ser o melhor para mim e para a minha família, deixem-me reiterar um muito obrigado do fundo do coração, a todos os profissionais da GNR e amigos com quem tive o privilégio de privar ao longo de todos estes anos, às Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, funcionários judiciais com especial ênfase para os do Ministério Público do Tribunal de Sintra, que muito me aturaram, a grandes Procuradores do Ministério público que muito me ensinaram e aturaram também, estes últimos é mais fácil referir os seus nomes porque são poucos mas bons, Dr. Manuel Ferreira Antunes, Dr. Victor Magalhães, Dr. João Melo, Dr.ª Luísa Carrajola. Dr.ª Lígia Salbany, Dr.ª Marisa de Oliveira, Dr.ª Ana Rita Granado e ainda dois Meritíssimos Juízes, Dr.ª Ester Pacheco dos Santos e o Dr. Carlos Alexandre, dois enormes professores também.

Não posso deixar de fazer também uma referência a quem como o psiquiatra do Hospital de Santa Maria que me acompanhou referiu mais que uma vez, “puxou o gatilho” que desencadeou a situação de saúde em que me encontro e me poderia ter conduzido à morte e que como já fui várias vezes avisado, se não tomar as devidas precauções pode voltar a acontecer, estou a falar de uma procuradora do Tribunal de Sintra e a alguns elementos de uma equipa de investigação da Guarda Nacional Republicana, que a determinada altura da minha vida colocaram em causa um valor de que não abdico e que transmito todos os dias aos meus filhos, o qual me foi transmitido pela educação dada pelos meus pais, pessoas humildes mas integras e que é a integridade de carácter, razão pela qual todos os dias consigo dormir de bem com a minha almofada. Já essas pessoas conseguirão? Tenho sérias dúvidas, mas esta história será contada no devido tempo, com factos concretos e os nomes dessas pessoas, porque jamais perdoarei a forma como tentaram manchar e denegrir a minha carreira, de uma forma que me enoja e da qual saíram sem qualquer tipo de consequência. Por isso, pelo “gatilho” que puxaram, pelas lágrimas que derramei com tamanha nojeira, fiquem descansados que irei revelar os vossos nomes e a forma duvidosa como trabalham, depois processem-me, será bom para todos conhecerem a verdade.

Amigos, companheiros de uma vida, a decisão como perceberam está tomada da minha parte e optei pela família e pela minha saúde, agora resta perceber a decisão da instituição que me orgulho de servir e das outras instâncias responsáveis por um processo que será com certeza moroso e nada aconselhável para a minha ansiedade incontrolada, acreditando eu que compreenderão o meu estado, que está perfeitamente documentado e decidam de acordo com aquilo que acho ser melhor para mim atendendo ao meu estado de saúde e à forma como me sinto, antes nada disto fosse necessário, pois seria sinal que nada teria acontecido.

Bem hajam, muita saúde, nunca deixem de ser profissionais dignos, mas não descurem as vossas famílias e a vossa saúde, pois se tenho inveja de alguma coisa, é das pessoas que conseguem desligar a ficha, eu nunca consegui.

 

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