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Desabafos

Desabafos

02
Jan20

A decisão!

Paulo Dias

Tentei tudo e vou continuar a tentar, por forma a debater-me com esta maldita doença, esta porcaria silenciosa que nos devasta por dentro e que aos poucos nos vai corroendo e desgastando a nível psicológico e físico e que comigo tem uma agravante muito complicada, interfere de forma muito perigosa com a minha hipertensão maligna.

Eu que sempre pautei a minha vida por tomar decisões muito ponderadas, até nos momentos de maior tensão, julgo que sempre consegui ter o discernimento para que essas decisões fossem as mais correctas, admito que outras pessoas não tenham concordado com muitas das opções que tomei, no entanto eu não me arrependo de nenhuma delas.

Nunca esperei no dia de hoje, com quarenta e cinco anos de idade escrever este texto, muito menos por razões de saúde, as quais não controlo e logo eu que sempre tive o defeito enorme de querer controlar tudo, no entanto, a doença trouxe-me uma grande lição, à aspectos na nossa vida que não controlamos e a saúde é um deles. Neste minuto estou a escrever este texto com os olhos humedecidos pelas lágrimas de tristeza e emoção, mas no minuto seguinte não sei o que irá acontecer e não adianta sequer pensar nesta realidade, pois é simplesmente a vida.

Tudo isto tem-me feito reflectir muito, principalmente nestes últimos dias, que por vários motivos são de uma profunda nostalgia para mim e esta reflexão baseou-se em factos. Apesar dos fármacos e da ajuda psicoterapêutica, continuo com muita dificuldade em controlar a minha ansiedade, o meu nervosismo, os meus medos, o que contribui de forma nociva para a minha hipertensão maligna, que em resultado de tudo isso anda sempre aos pulos, ou seja, ao longo do dia tenho picos de hipertensão, que são preocupantes tendo em conta o meu historial clínico, como de um momento para o outro estou hipotenso e se não tomar algumas precauções faço jus ao meu apelido e lá vai mais um fanico. Foram trinta anos a viver com a depressão a atormentar-me e eu a escondê-la, a enganar-me  e a prejudicar a minha saúde, mas depois do internamento em Agosto de 2018 e em que comecei a ter acompanhamento psiquiátrico e psicológico, achei que tudo ia mudar e que iria ter o controlo sobre a ansiedade, o nervosismo, o stress, os contantes receios que me atormentam, contudo hoje e passados dezassete meses, nos quais tenho sido sujeito a várias mudanças de medicação para a maldita depressão, do acompanhamento psicológico, do apoio familiar e de alguns amigos, não vislumbro e já não acredito em grandes alterações a este estado, pelo que sou obrigado a pensar que para além dos medicamentos para a hipertensão maligna, para o coração e para os rins que me acompanharão para o resto da vida, não esquecendo as dificuldades de visão com que me debato, devido à perda de uma enorme percentagem dos campos visuais periféricos de forma irreversível, situação à qual não me consigo habituar, pois temos de ter a capacidade de assimilar alguns truques para combater essa perda e para mim esse aspecto tem resultado difícil, todos estes factores e a minha constante “castrofização” do presente e do futuro, obrigam-me a admitir que terei que de continuar ad eternum com a medicação para a depressão, pois só por mim não vou conseguir, sendo obrigado a admitir que perdi esta batalha.

Perante este cenário e não havendo alterações significativas no meu estado de saúde, com especial ênfase para a porra da depressão e desculpem a linguagem, mas esta é a expressão que utilizamos no Alentejo quando estamos perante algo mau, sou forçado a ponderar os prós e os contras de continuar a exercer a minha actividade profissional, correndo sérios riscos de agravar o meu estado de saúde, ou tentar ter uma vida o mais calma que conseguir, com ajuda de medicação e entregar-me única e exclusivamente a desfrutar a minha família e a fazer algo lúdico que goste e me ajude a descomprimir o mais possível.

Como disse no inicio deste texto, possa tenho apenas 45 anos, adorava aquilo que fazia, tinha ambições profissionais, contudo tenho uma esposa fantástica, uma super mulher, que tem sido antes e depois da doença o meu principal suporte, que sempre me compreendeu nos bons e nos maus momentos, que fez tudo para eu me sentir realizado em termos profissionais, mesmo que vezes de mais tenha colocado o trabalho à frente da família, obrigando a Paula inúmeras vezes a fazer de pai e mãe, tenho dois príncipes lindos que quero ver crescer com saúde, vê-los felizes, ajudá-los a realizar os seus sonhos, razão pela qual e depois de muitas interrogações, dúvidas, de um dia dizer que queria uma coisa e no outro o contrário, achei que não podia mais voltar a ser egoísta e para que isso não acontecesse devia e devo colocar a minha esposa e os meus príncipes no topo das minhas prioridades.

Por isso mesmo e depois de inúmeras recordações, interrogações e muitas lágrimas à mistura, a minha decisão está tomada e por mim a carreira, aquilo que me apaixonava a nível profissional terminou, eu sei que a decisão de colocar um ponto final na minha vida profissional não depende apenas de mim, a instituição que sirvo com honra, lealdade, abnegação e profissionalismo à mais de vinte anos tem uma palavra decisiva, no entanto espero que me entendam e que compreendam a forma física e psicológica como me sinto e o porquê de ter escolhido como única prioridade da minha vida, a família. Pois se dissesse que me sinto em condições de voltar, mesmo que a instituição me tenha proporcionado as condições para estar num local mais preservado, que no entanto fica a cerca de 70 quilómetros da minha residência, o que me obrigará a sair de casa diariamente às seis e meia da manhã e regressar por volta das dezanove horas, com toda a azáfama inerente aos transportes públicos e à vida de uma grande cidade como Lisboa, estaria a mentir e isso era ser desleal para com a instituição Guarda Nacional Republicana, coisa que jamais irei fazer. Importa, contudo, esclarecer que fui colocado no Centro Clínico por opção minha, quando achava que a minha forma de estar e de sentir mudaria com a necessária ajuda, mas isso não se verifica, no entanto seria hipócrita não esclarecer que a opção foi minha.

Quero que compreendam que esta é uma decisão difícil e por isso foi muito ponderada, tenho 45 anos como já disse, tinha sonhos profissionais, terminar a carreira neste momento acarretará prejuízos financeiros significativos e eu tenho contas para pagar como todos nós, tenho dois filhos para criar, no entanto como me diz a minha principal conselheira, o dinheiro é pouco significativo se não tiver saúde, opto então por preservar o mais possível a saúde para poder estar junto da minha família.

Não vale apenas falar mais sobre o quão difícil resulta esta decisão, se acharem que não, experimente colocar-se no meu lugar e reflictam sobre o assunto. Tenho pena de não me sentir em condições de continuar a servir a Guarda e as pessoas através do serviço nos Postos Territoriais, porque são eles o pulsar desta enorme instituição, são os patrulheiros, os comandantes de Posto que estão junto das populações e que se desempenharem a difícil missão que lhes está confiada com profissionalismo, transmitirão às pessoas um dos bens mais preciosos, que é o sentimento de segurança e em consequência uma imagem positiva da Guarda, bem como não me sinto na plenitude das minhas faculdades para exercer qualquer outra função e sendo hipócrita e pensando apenas em mim, na minha carreira e no aspecto monetário, deixar-me-ia arrastar, mas eu não sou isso.

 Terei imensas saudades e uma certa nostalgia de tudo o que vivi a nível profissional, dos problemas e dificuldades com que diariamente me deparava, os quais eram resolvidos muitas vezes com um esforço sub-humano da esmagadora maioria daqueles que comigo colaboraram de forma extremamente profissional ao longo dos anos. Vivenciei inúmeras experiências, umas positivas outras nem por isso, no entanto de todas elas tirei ensinamentos que me fizeram crescer quer a nível profissional que pessoal, fui aprendendo com todas as pessoas com quem me cruzei ao longos dos anos, sendo um pouco imodesto acho que deixei amigos e saudade na maioria daqueles com quem me fui cruzando nos vários locais por onde passei, contudo não me iludo e sei que outros ficarão felizes com este ponto final, desejosos de me verem pelas costas. Mas a vida é mesmo isto, jamais me esqueço que um grande professor, um profissional de excepção chamado José António Branco Mendes, com quem tive o privilégio de trabalhar, me disse um certo dia quando ingressei no curso de Sargentos, que se um dia saísse de um Posto e toda a gente me desse palmadinhas nas costas, era sinal que tinha feito um péssimo trabalho em prol das populações. Por isso segui sempre uma linha, nós existimos para servir as pessoas, para zelar pela segurança das mesmas e dos seus bens, incuti sempre a necessidade de máximo profissionalismo, de um trabalho de equipa profícuo, os egos de cada um tinham de ficar à porta do local de trabalho, só pedia que a minha lealdade para com todos os profissionais fosse correspondida, pois de outra forma seria um suplicio trabalhar sobre o meu comando, por tudo isto fui sempre avesso ao nacional porreirismo e às palmadinhas nas costas, como disse sempre abraços e palmadinhas nas costas só da minha esposa e dos meus príncipes.

Tenho a perfeita noção que ao longo da minha carreira criei algumas inimizades, pois eu fui sempre muito frontal, com o coração muito perto da boca, sei que isso me prejudicou algumas vezes, no entanto lá vem a expressão de que tanto gosto, em razão das minhas decisões profissionais sempre dormi tranquilo com a minha almofada e isso foi um principio de que nunca abdiquei e sempre me nortorneou. Normalmente quando me descreviam algum profissional como sendo uma pessoa intratável, raramente me enganava e essa pessoa era um profissional de excepção, que colocava os interesses da Guarda Nacional Republicana e do sentido de dever acima de tudo o resto e são estas as pessoas de quem gosto.

Não irei referir nomes dos muitos e enormes profissionais com os quais tive o privilégio de me cruzar, pois correria o risco de me esquecer de alguém, mas a todos eles só me resta agradecer por tudo, pedir desculpa pelos meus momentos de azedume e mau feitio em situações de serviço e de maior adrenalina, bem o mau feitio é para muitos a minha imagem de marca, pelo menos para aqueles que não me conhecem, ou os que confundem mau feitio com exigência profissional, a todos o mais sincero obrigado por tudo o que vivemos juntos.  

Há, no entanto, uma pessoa neste momento que me vejo na obrigação de fazer um agradecimento muito especial e a quem desde já peço desculpa por referir o seu nome, pois sei que me ajudou neste momento difícil da minha vida, passando de forma incógnita e discreta. Era um daqueles por quem os maus profissionais não nutriam grande simpatia, achavam-no uma pessoa sem sentimentos, simplesmente porque não gostavam ou conviviam mal com a sua exigência profissional, tal como se passava como o meu querido amigo Sargento-Ajudante Branco Mendes, estou a falar do senhor Coronel Fernando Bessa, que como referi anteriormente nesta fase dificílima da minha vida e mesmo a milhares de quilómetros de distância, com uma ocupação profissional de grande responsabilidade e exigência, tem mesmo assim demonstrado uma preocupação genuína com o meu estado de saúde, com o meu bem estar, com a minha família, fazendo tudo o que está ao seu alcance para que eu possa ter o melhor acompanhamento possível, dando-me as suas opiniões, mas sem nunca procurar intervir nas mesmas, conversamos e ele apenas me diz para que eu tome as decisões que achar melhor para mim e para a minha família, que ele estará ali sempre disponível para ouvir os meus desabafos e para ajudar, por tudo o que tem feito por nós, eu e a minha família ser-lhe-emos eternamente gratos, bem haja meu Comandante.

Para alguma mente mais perversa, só relembrar que aqueles que melhor me conhecem sabem que sou um anti “lembebotismo”, expressão utilizada por outro grande amigo e professor, Doutor Manuel Ferreira Antunes, antigo Procurador do Ministério Público e hoje Juiz de Direito e não está como se percebe no meu horizonte, alguma vez mais estar sobre o comando do senhor Coronel Fernando Bessa, por isso não à “graxa” nestas minhas palavras, apenas realçar um grande profissional e uma pessoa com um coração enorme, pois outros com quem privei a nível profissional facilmente se esqueceram de alguma vez terem conhecido o Sargento-Ajudante Fanico Dias.

Sem saber se o futuro me reserva aquilo que acho ser o melhor para mim e para a minha família, deixem-me reiterar um muito obrigado do fundo do coração, a todos os profissionais da GNR e amigos com quem tive o privilégio de privar ao longo de todos estes anos, às Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, funcionários judiciais com especial ênfase para os do Ministério Público do Tribunal de Sintra, que muito me aturaram, a grandes Procuradores do Ministério público que muito me ensinaram e aturaram também, estes últimos é mais fácil referir os seus nomes porque são poucos mas bons, Dr. Manuel Ferreira Antunes, Dr. Victor Magalhães, Dr. João Melo, Dr.ª Luísa Carrajola. Dr.ª Lígia Salbany, Dr.ª Marisa de Oliveira, Dr.ª Ana Rita Granado e ainda dois Meritíssimos Juízes, Dr.ª Ester Pacheco dos Santos e o Dr. Carlos Alexandre, dois enormes professores também.

Não posso deixar de fazer também uma referência a quem como o psiquiatra do Hospital de Santa Maria que me acompanhou referiu mais que uma vez, “puxou o gatilho” que desencadeou a situação de saúde em que me encontro e me poderia ter conduzido à morte e que como já fui várias vezes avisado, se não tomar as devidas precauções pode voltar a acontecer, estou a falar de uma procuradora do Tribunal de Sintra e a alguns elementos de uma equipa de investigação da Guarda Nacional Republicana, que a determinada altura da minha vida colocaram em causa um valor de que não abdico e que transmito todos os dias aos meus filhos, o qual me foi transmitido pela educação dada pelos meus pais, pessoas humildes mas integras e que é a integridade de carácter, razão pela qual todos os dias consigo dormir de bem com a minha almofada. Já essas pessoas conseguirão? Tenho sérias dúvidas, mas esta história será contada no devido tempo, com factos concretos e os nomes dessas pessoas, porque jamais perdoarei a forma como tentaram manchar e denegrir a minha carreira, de uma forma que me enoja e da qual saíram sem qualquer tipo de consequência. Por isso, pelo “gatilho” que puxaram, pelas lágrimas que derramei com tamanha nojeira, fiquem descansados que irei revelar os vossos nomes e a forma duvidosa como trabalham, depois processem-me, será bom para todos conhecerem a verdade.

Amigos, companheiros de uma vida, a decisão como perceberam está tomada da minha parte e optei pela família e pela minha saúde, agora resta perceber a decisão da instituição que me orgulho de servir e das outras instâncias responsáveis por um processo que será com certeza moroso e nada aconselhável para a minha ansiedade incontrolada, acreditando eu que compreenderão o meu estado, que está perfeitamente documentado e decidam de acordo com aquilo que acho ser melhor para mim atendendo ao meu estado de saúde e à forma como me sinto, antes nada disto fosse necessário, pois seria sinal que nada teria acontecido.

Bem hajam, muita saúde, nunca deixem de ser profissionais dignos, mas não descurem as vossas famílias e a vossa saúde, pois se tenho inveja de alguma coisa, é das pessoas que conseguem desligar a ficha, eu nunca consegui.

 

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