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Desabafos

Desabafos

12
Jan20

Ter o discernimento para definir as prioridades da nossa vida efémera!

Paulo Dias

Já disse e repeti várias vezes, talvez até demais, que quando a vida nos surpreende com um acontecimento negativo e depois de um choque inicial em que ficamos com aquela sensação estranha de que a nossa vida se desmoronou por completo e damos por nós assustados demais para sequer reagir. Vem depois um sentimento completamente oposto, começamos a dar um valor especial a aspectos da vida que a azáfama do dia a dia nos fazia relegar ainda que de forma inconsciente para segundo plano.

Eu era alguém muito focado no meu trabalho, na nobre função de zelar pela segurança dos outros, algo de que não me arrependo, ao mesmo tempo tinha ambições na minha carreira e essas sim percebo neste momento e sem rodeios que eram tão desmedidas como desnecessárias e que para mim hoje não fazem qualquer sentido.

Ora como resultado de uma vida profissional de grande exigência e muito intensa, passei mais de vinte anos a relegar para segundo plano, ainda que de forma inadvertida, o mais importante que todos temos nas nossas vidas, a família. Hoje digo com orgulho que me dediquei à causa pública com tudo o que tinha para dar, mas em simultâneo fico inúmeras vezes triste por perceber que não estive presente em demasiados momentos importantes da minha família, que fui um pai ausente vezes sem conta, o que me deixa revoltado comigo próprio, pois o tempo não volta para trás e jamais poderei recuperar os momentos perdidos.

Apenas uma vez em toda a minha vida profissional, fui colocado num local a meu pedido, todas as outras e foram várias, resultaram de ordens superiores que jamais questionei e que quase sempre me afastavam da família, na distância e na exigência da missão que me era confiada, que me tomava muitas horas por dia, nunca parei para pensar na família, fui egoísta e valeu-me sempre a pessoa com quem me casei e que sempre me apoiou.

A Paula, a minha esposa, essa mulher fantástica a que já fiz alusão várias vezes e que durante os mais de vinte anos que dediquei a uma causa, foi pai e mãe, desempenhando esses dois papéis de forma irrepreensível, quer na educação dos nossos príncipes, quer em tudo aquilo que está inerente à vida familiar, aliando ainda a sua vida profissional, tudo isto representa uma carga enorme para uma pessoa só, enquanto eu achava que a minha vida profissional era muito exigente, nunca parei um instante para pensar o quão mais difíceis e exigentes eram as múltiplas tarefas desempenhadas pela Paula.

Tudo o que aqui estou a desabafar, causa em mim um sentimento de grande arrependimento e mágoa, mas hoje o que mais remorsos me causa e julgo que a Paula não me levará a mal, é o pai ausente que fui até ficar doente, a falta que os meus filhos devem ter sentido nas diversas fases do seu crescimento, uma enorme ausência. A falta do pai nas brincadeiras, a falta do pai no acompanhamento escolar, em especial no caso do João, pois o Dinis inicia no ano de 2020 o 1º ciclo do ensino básico. A única vez que fui um pai mais presente foi aquando da doença do nosso príncipe Alexandre que o conduziu a uma morte prematura, mas apenas fui presente nas instalações do hospital de Santa Marta onde o Alexandre esteve internado durante 39 dias, pois o militar da Guarda Nacional Republicana destemido e que nunca olhou para trás nos momentos mais difíceis, que perseguiu e prendeu criminosos nos mais diversos contextos, perante a doença grave de um filho, acobardou-se e nos últimos dias de vida do Alexandre, não passava da sala de espera dos cuidados intensivos, um atitude cobarde de que jamais me perdoarei, enquanto a super mãe, a super esposa, a super mulher, não saía por um instante da cabeceira de um filho gravemente doente.

Foi necessário um episódio de saúde ou falta dela, que me fez parar, fazer uma introspecção, um mea culpa para o qual não existe penitência, apenas um enorme arrependimento pelo muito tempo em que não tive o discernimento, a capacidade de definir prioridades, como digo muitas vezes, não soube desligar a ficha e agora não há volta a dar, porque esse tempo não volta para trás. Não vale a pena pedir desculpas à Paula e aos meus príncipes, pois o ditado é muito certo, as desculpas não se pedem, evitam-se, resta nunca mais me esquecer de que a família é a prioridade, o mais importante que temos no mundo.

Por isso meus amigos, se não cometeram os meus erros que eu, admiro-vos pelo vosso discernimento, se a vossa vida vai no mesmo sentido que a minha, peço-vos um favor, façam uma pausa enquanto têm tempo, reflictam sobre o que para vida, e tenho a certeza que a família se apresentará como a vossa superioridade suprema e que conseguirão conciliar com a vossa vida profissional, aprendam a desligar a ficha, eu infelizmente nunca soube.

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