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Desabafos

Desabafos

03
Dez19

Uma carreira interrompida, é simplesmente a vida!

Paulo Dias

Tenho inveja daquelas pessoas que conseguem viver um dia de cada vez, eu não consigo e isso é terrível, chega a tornar-se um tormento, pois no meu caso contribui de forma decisiva para que o futuro nunca se apresente risonho, o que causa uma ansiedade tremenda e difícil de controlar.

Neste processo difícil de ser controlado, o presente tem uma participação importante, porque se não vivenciar experiências felizes, que me transmitam uma sensação de prazer, nunca conseguirei imaginar um futuro risonho, de oportunidades.

Perguntar-se-ão alguns, porque é que não vivo então o presente de uma forma feliz, para perspectivar um futuro mais risonho, não tenho qualquer explicação, ou melhor, passará tudo pelo estado depressivo em que me encontro, sim, porque tenho aquilo que é mais importante para mim, uma família, uma esposa que me ama, dois filhos lindos e que adoro, por isso não são os factos concretos que influenciam o meu presente e o meu futuro, é mais a minha cabeça.

Nestes últimos dias, dei por mim a pensar em algo supérfluo, mas que para mim é muito importante, a minha carreira profissional. Trabalhei muito para atingir os meus objectivos, durante estes vinte e dois anos, não recordo uma única vez que tenha colocado a minha vida pessoal em primeiro lugar, em detrimento da minha vida profissional e não me arrependo, porque amava aquilo que fazia e porque tive a felicidade de a mulher que amo nunca ter colocado qualquer entrave, percebeu sempre o quanto eu gostava da minha vida profissional e apoiou sempre as minhas decisões.

Contudo e de uma forma abrupta, por causa de uma maldita doença, vejo-me despojado de tudo aquilo que gostava de fazer na minha profissão e que passe a imodéstia julgo que fazia bem, Comandar Postos da Guarda Nacional Republicana, coordenar homens, ensinar e aprender todos os dias. Eu gosto do terreno, tudo o resto não me entusiasma e de repente vou percebendo que não vou nunca mais poder fazer aquilo que gosto, ou pelo menos fazê-lo com toda a propriedade, pleno de todas as minhas faculdades psíquicas e físicas para o desempenho de tão difícil e honrosa missão, por isso não coloco a hipótese de algum dia voltar aquilo que gosto em termos profissionais, seria enganar quem confiasse em mim, ao mesmo tempo que me enganava a mim próprio e colocava a minha vida em risco, o que me impossibilitaria de ver os meus filhos crescer.

Mas tudo isto, se revela angustiante, já tinha passado por uma experiência parecida em duas ocasiões. Nunca escondi de ninguém, que a minha “praia” era a investigação criminal, em 2008 vi-me obrigado a sair da minha zona de conforto, a investigação e assumir uma experiência totalmente nova, o comando de Postos territoriais, pela simples razão que a investigação no seio da GNR, estava na minha opinião a avançar por caminhos tortuosos e com os quais não me identificava, razão pela qual pedi para sair. Fi-lo no início, com uma grande tristeza e com prejuízo da minha vida familiar, mas com o passar do tempo fui percebendo a importância dos militares dos Postos Territoriais junto das populações, na segurança de pessoas e bens e essa perspectiva fez-me entregar de corpo e alma ao serviço territorial, ao comando de Postos. No entanto, em 2015 surge a oportunidade de voltar à investigação, fi-lo sem exitar, mas novamente com prejuízo da minha vida familiar, como sempre contei com o apoio da minha esposa, o que me dava uma grande segurança. Contudo e com o passar dos meses, vou percebendo que nada se havia alterado desde 2008 em termos organizacionais, pelo contrário encontrei a “casa” investigação criminal ainda mais desorganizada, sem objectivos claramente definidos, com uma gritante sobreposição de funções no contexto da investigação, mas isso apesar de me abanar, não me faria desistir, ao contrário daquilo que tinha feito em 2008, achei que a melhor forma de tentar mudar mentalidades e conceitos, era estar por dentro, participei em reuniões de coordenação da investigação criminal que se revelavam inócuas, nada com que não contasse, restava-me continuar a luta para poder alterar as coisas. No entanto, em Maio de 2016 surge um episódio digno de um filme, no qual não me revi, que me indignou profundamente e que coloquei superiormente para salvaguardar a imagem da GNR, o episódio foi relativizado por quem tinha capacidade de decisão, o que me fez novamente pedir para sair, saída que aconteceu em Outubro de 2016, voltei a assumir o comando de um Posto. Sobre o episódio que despoletou tão repentina saída, resta-me esperar que alguns pontos fiquem resolvidos e depois falarei sobre ele, serão muitas páginas por forma a que os meus amigos entendam de uma vez por todas a minha passagem tão fugaz pela investigação nesse período e a razão da minha indignação.

Voltei ao comando de Postos, bastante motivado como sempre, pois o que não me motiva, não me atrai e em consequência disso não participo. Continuei a dar o máximo de mim, sem lamentações, motivadíssimo, a ensinar e aprender no dia a dia, até que o dia 1 de Agosto de 2018 me empurrou repentinamente para uma cama de hospital, tendo colocado um ponto final na história, pois ao ver-me obrigado a colocar um ponto final naquilo que fazia com imenso prazer, percebi que era o fim da carreira que perpectivava. Parece-vos uma posição muito radical? Só para quem não me conhece, para quem desconhece a paixão profissional que foi até capaz de “camuflar” a minha depressão durante imensos anos.

Neste momento, quando as perspectivas de carreira ficaram para trás, tenho tentado focar-me noutros objectivos, a família sempre, tentar vivenciar um presente mais agradável, para não imaginar um futuro assente em aspectos catastróficos e sonhar que apareça algo em termos profissionais que me volte a motivar.

Por último um ensinamento importante, a doença fez-me perceber o quão fugaz é a nossa vida, por isso importa aprender a vivê-la dia a dia, hora a hora.

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